'Apesar do PIB fraco, Brasil É Bric, sim'

Entrevista com Jim O'Neill, presidente do Goldman Sachs Asset Management

MELINA COSTA, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2012 | 04h35

O britânico Jim O'Neill, hoje presidente do conselho do Goldman Sachs Asset Management, tornou-se uma estrela pop da economia ao alçar os países em desenvolvimento ao centro das atenções de investidores globais. Publicado em 2001, seu estudo Building Better Global Economics cunhou o acrônimo BRIC para designar Brasil. Rússia. Índia e China, as grandes economias que puxariam o crescimento mundial nas décadas por vir.

Desde então, o termo foi repetido à exaustão e alimentou a euforia de empresas, fundos de investimento e bilionários. Não sem razão. O Brasil, de fato, ultrapassou economias maduras como a Itália e Reino Unido - mas agora amarga taxas de crescimento muito distantes do que se espera de um mercado emergente (o Reino Unido, por exemplo, deve voltar a ficar à frente do Brasil este ano, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional). Em entrevista por telefone de seu escritório em Londres, O'Neill defendeu a permanência do País no clube das "economias de crescimento rápido" - mas afirma que, se o Brasil não crescer ao redor de 4% em 2013, a situação será preocupante. Assim como o ministro Guido Mantega, ele atribuiu o desempenho modesto do PIB brasileiro no terceiro trimestre ao item "intermediações financeiras", que apresentou queda de 1,3% devido à redução na taxa de juros e ao aumento da inadimplência - um tema que chegou a levantar questionamentos sobre a metodologia de medição da atividade utilizada pelo IBGE.

O ano de 2012 foi marcado por surpresas. Os economistas, que começaram o ano prevendo um crescimento do PIB entre 3,5% e 4%, agora projetam algo ao redor de 1%. O tombo maior foi no terceiro trimestre, com um crescimento de 0,6%. O que aconteceu com o Brasil?

O terceiro trimestre tem uma explicação técnica. Houve uma fraqueza não antecipada do item transações financeiras. Se não fosse por isso, o crescimento teria sido perto do esperado. Eu não quero usar isso como uma desculpa para o ano, mas certamente para o terceiro trimestre é por isso que o número foi tão decepcionante.

Mas independentemente disso, o crescimento de todos os trimestres se mostrou fraco.

O terceiro trimestre deveria estar mostrando uma retomada. Mas, não importa a razão, o resultado veio em um cenário de resultados anteriores já fracos. Então, apesar de ter sido uma questão específica, é claramente decepcionante.

Depois desses resultados, o Brasil ainda pode ser considerado um mercado de crescimento?

Isso é algo que eu gosto de destacar para as pessoas. Nos primeiros três anos da década passada, o crescimento do Brasil também foi muito decepcionante. Então, mesmo que o crescimento em 2011 e 2012 tenha sido decepcionante pelos padrões de crescimento do Brasil em 2005, se compararmos com uma década atrás, o resultado não é muito diferente. As taxas de crescimento do Brasil se movem de forma muito volátil ao redor de uma tendência. O fato de que o Brasil teve dois anos decepcionantes é obviamente importante, mas não acho que é o suficiente para levar alguém à conclusão que você disse. Se o Brasil crescer muito pouco de novo no ano que vem isso, na minha opinião, seria um problema.

Seria o suficiente para reconsiderar a presença do Brasil nos BRICs?

Bem, eu espero que o crescimento do Brasil seja ao redor de 4% em 2013. Se não for, isso seria preocupante.

Comparando com outros países do BRIC, por que o Brasil teve um desempenho pior?

Sim, teve nos últimos dois anos. Você não pode comparar o Brasil com Índia e China de forma alguma. Seria loucura. Eles têm mais de um bilhão de pessoas. Não é uma comparação justa porque é mais fácil para esses mercados crescerem. O único com o qual o Brasil poderia ser comparado é a Rússia.

Mas esses países fazem parte do mesmo grupo, os BRICs. Você acha que esse time está menos homogêneo agora do que quando o termo foi criado?

Não, de forma alguma. Primeiro, esses países se moveram em seus próprios ciclos e ao redor de suas próprias tendências de crescimento. O fato de o Brasil ter tido resultados decepcionantes por dois anos não é grande coisa para mim. Em 2009, o PIB da Rússia caiu quase 8%. Isso não me fez pensar que a Rússia não deveria estar nos BRICs. Segundo, nos últimos onze anos, desde que eu desenvolvi o conceito (dos BRICs), o Brasil e a Rússia tornaram-se muito maiores do que dissemos. Não prevíamos que o Brasil passaria a Itália antes de 2020. E ultrapassou em 2011. Mesmo que o Brasil tenha decepcionado por dois anos, temos que analisar seu desempenho sob o ponto de vista de onde o País saiu na última década.

Perguntando de outra forma: o que o faz acreditar que o Brasil ainda deve fazer parte dos BRICs?

Acho que a tendência de crescimento do Brasil é ao redor de 4%. Não vejo espaço para mais do que isso. Mas também não vejo nenhuma razão para duvidar desse número. As políticas econômicas que o governo brasileiro introduziu nos últimos seis a nove meses têm suporte cíclico e estrutural.

Quais os principais motivos por trás do crescimento pífio?

Os problemas à frente do Brasil durante o ano foram substanciais. O real sofreu - e ainda sofre - por estar supervalorizado. Segundo, fora do setor de commodities, o Brasil não é competitivo - mesmo sem o problema do real. Os criadores de políticas no Brasil têm que achar formas de aumentar a competitividade.

E o problema no setor de commodities? O valor desses produtos não deve crescer tanto quanto cresceu na última década.

O problema por trás disso é que o Brasil sofre de uma 'mini-Doença Holandesa'. É um sintoma clássico de muitos países produtores de commodities. Faz com que a moeda torne-se pouco competitiva e os criadores de políticas acham que podem fazer o que quiserem com a riqueza proveniente das commodities - mas na verdade não podem. Os criadores de políticas brasileiras às vezes acham que podem usar o governo para gerar crescimento. Eu digo: vocês estão tentando fazer uma China num momento em que a própria China não quer mais fazer uma China.

O governo tem sido acusado de interferir no curso das empresas: Vale, Petrobrás e agora as elétricas. Qual a sua opinião sobre isso?

A evidência é que isso não ajudou a criar crescimento. Talvez tenha até afastado o setor privado. Os criadores de políticas deveriam repensar isso.

Quais seriam as suas sugestões para o Brasil acelerar o crescimento em 2013?

Primeiro, eu acho que a política econômica e as medidas para reduzir o valor do real fazem sentido. O Brasil terá benefícios disso claramente em 2013 e depois. Se o real cair mais, será benéfico. Mas, além disso, as autoridades brasileiras deveriam fazer mais para apoiar o setor privado. Deveriam tornar o setor de não-commodities mais competitivo e parar de dirigir Vale e Petrobrás como estão fazendo.

Os investidores mudaram sua visão do Brasil depois desses dois anos de crescimento mais baixo?

Meu amigo Armínio Fraga me disse uma coisa alguns anos atrás e acho que ele está muito certo. "O Brasil nunca é tão bom como as pessoas acham, mas também não é tão ruim quanto as pessoas pensam." Em 2010, as pessoas estavam ridiculamente otimistas em relação ao Brasil. Me perguntavam se o Brasil poderia crescer no estilo chinês. Era maluquice. Hoje as pessoas acham que o Brasil não deveria ser um BRIC. Isso é tão maluco quanto.

Segundo economista, para o País crescer em 2013, governo

deveria apoiar empresas e parar de dirigir Vale e Petrobrás

"Em 2010, as pessoas estavam ridiculamente otimistas com o Brasil. Me perguntavam se o País poderia crescer no estilo chinês. Isso era maluquice."

O economista inglês ficou conhecido internacionalmente depois de criar o termo BRIC para designar as

economias de Brasil, Rússia, Índia e China. Em 2001, ele já dizia que

esses países puxariam o crescimento mundial nas décadas seguintes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.