Dida Sampaio/ Estadão
Dida Sampaio/ Estadão

Apesar dos bons sinais gerados pela melhora da pandemia, a credibilidade fiscal está abalada

Desempenho da economia no ano eleitoral vai depender de três pilares: retomada de serviços, volta dos investimentos privados e obediência ao teto de gastos; este último, porém, está gravemente danificado após o envio pelo governo da PEC

José Márcio Camargo*, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2021 | 04h00

O desempenho da economia brasileira em 2022 depende de três pilares: a retomada do setor de serviços em razão da melhora da pandemia; a volta dos investimentos privados nos leilões de concessões e privatizações, como resultado da maturação das reformas implementadas nos últimos cinco anos; e a obediência ao teto de gastos.

A redução do número de casos e de óbitos com o sucesso da vacinação contra a covid-19 está permitindo o fim das medidas de isolamento social e de restrição à mobilidade urbana. A euforia gerada pelo aumento de bem-estar decorrente da volta à normalidade provocou forte crescimento da demanda por serviços, principalmente serviços prestados às famílias (bares, restaurantes, alojamento, esportes, etc.). Com isso, o setor cresceu 3,1% no primeiro trimestre, 2,1% no segundo e 3,0% no terceiro trimestre de 2021.

Enquanto no auge da segunda onda da pandemia, no primeiro trimestre do ano, foram destruídos 571 mil postos de trabalho, no trimestre terminado em julho foram criados 3,5 milhões de postos (PnadC). A taxa de desemprego caiu de 14,7% para 13,2% da força de trabalho.

Os leilões de privatização e de concessão de infraestrutura têm sido muito bem-sucedidos. Após os bons resultados do primeiro semestre (sistemas de água e esgoto do Rio de Janeiro, Alagoas e Amapá, 22 aeroportos, 5 rodovias, entre outros), tivemos no segundo semestre o leilão do 5G, o da Via Dutra e a privatização da CEEE-T, todos muito concorridos, e o governo já recebeu 27 demandas para a construção de ferrovias sob o regime de autorização. E, ainda, estão programados os leilões dos aeroportos de Congonhas e do Santos-Dumont, da Eletrobras e dos Correios. Enfim, um aumento significativo da taxa de investimento privado.

O envio, pelo governo, da PEC que aumenta o valor do teto de gastos danificou gravemente o terceiro pilar. A credibilidade do regime fiscal foi seriamente afetada. A reação negativa dos investidores foi imediata: desvalorização cambial, aumento das taxas de juros e queda dos preços das ações. E ela persiste. As pressões inflacionárias se intensificaram, forçando o Banco Central a acelerar o aumento dos juros. Os resultados são menos crescimento e maior custo do investimento. A disputa entre os fatores recessivos gerados pela perda de credibilidade fiscal e a euforia com a volta à normalidade vai dominar os cenários político e econômico em 2022.

* PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO (APOSENTADO), É ECONOMISTA-CHEFE DA GENIAL INVESTIMENTOS

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