Capítulo 27

Apesar dos problemas, a economia respira

Percalços na retomada do crescimento aparecem de todos os lados, mas o PIB do segundo trimestre trouxe algum alento

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2019 | 12h14

Caro leitor,

Entre os jornalistas, costuma-se dizer que pelo menos desde os protestos de junho de 2013,  que começaram com reclamações pelo aumento de tarifas de ônibus e acabaram se transformando numa enorme grita contra “tudo isso que está aí”, nunca mais houve um só dia de trégua. Na economia, tem sido assim. Às vezes são questões internas, às vezes são externas, mas parece que há sempre uma turbulência rondando.

Nesta semana, o problema das queimadas na Amazônia, e toda a implicação política que veio com ele,  continuou afetando o ambiente econômico. A empresa dona de marcas como Timberland e The North Face anunciou a suspensão da compra de couro do Brasil.  Uma produtora de salmão da Noruega ameaçou cancelar a compra de soja brasileira.  O Nordea, maior banco dos países nórdicos, disse que iria cancelar a compra de títulos do Brasil. Esse parece ser um estrago que o governo terá de correr muito para estancar, sob o risco de afetar significativamente o agronegócio, um personagem dos mais importantes no cenário econômico nacional.

Aí tivemos também o problema na nossa vizinha Argentina, onde o presidente Mauricio Macri declarou a postergação do pagamento de algumas dívidas de curto prazo e pediu para renegociar os termos do seu empréstimo com o FMI. O país vizinho é um dos nossos principais parceiros comerciais, e sua crise interna prolongada já prejudicou, por exemplo, a exportação brasileira de carros e outros produtos manufaturados. Ainda por cima, temos de lidar com uma imponderável guerra comercial  entre Estados Unidos e China, que parece nunca caminhar para um fim, e uma ameaça de desaceleração global que, para o Brasil, pode ser bastante prejudicial a uma recuperação econômica  ainda tão tímida.

Mas, nessa montanha-russa, que acabou levando o dólar para perto dos R$ 4,20, vieram alguns alívios. O PIB foi o maior deles. O crescimento de 0,4% no segundo trimestre foi uma surpresa positiva, já que, há bem pouco tempo, discutia-se a hipótese de o Brasil estar se encaminhando para uma “recessão técnica” (dois trimestres seguidos de queda na atividade econômica.  E nesta sexta-feira, 30, saíram os dados de desemprego – um recuo de 12%, no trimestre encerrado em junho, para 11,8% no trimestre encerrado em julho.

Nos dois casos, é um avanço meio a conta-gotas. Ninguém saiu gritando nas janelas ou pulando nas ruas com esses números. O próprio secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, foi comedido em seu comentário sobre o PIB: “Não dá para soltar fogos, mas o resultado é um certo alívio”. Para o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, a avaliação pode ser que a economia havia batido no fundo do poço, mas agora começa a retornar, em marcha-lenta.

Lentidão, na verdade, é a tônica das análises em relação à economia brasileira. O Brasil saiu da recessão em 2017, mas ainda está muito longe de recuperar o que perdeu na crise. Segundo cálculos de Juliana Trece, pesquisadora do Ibre/FGV, foram perdidos R$ 486 bilhões durante a crise de 2014/2016, e, até o primeiro trimestre deste ano, havíamos recuperado apenas R$ 148 bilhões. Em suma, há uma enorme dificuldade para a volta do crescimento de verdade.

O difícil é descobrir o porquê dessa frouxidão na retomada e qual a receita para acelerar isso. Os diagnósticos são os mais variados. Na série “Por que o Brasil não cresce?” , que publicamos esta semana, surgiram análises interessantes. Para o economista José Roberto Mendonça de Barros, será preciso consolidar a situação fiscal e aguardar as concessões de infraestrutura. Marcos Lisboa, presidente do Insper, acredita que o País precisa se acostumar com taxas de crescimento abaixo de 3% ao ano. E o economista Eduardo Giannetti sugere até a venda de participações acionárias do BNDES em empresas e usar o dinheiro para terminar obras públicas como uma forma de acelerar a retomada.

O resumo disso tudo: o País ainda tem um longo caminho  a percorrer até que a retomada seja consistente a ponto de reduzir significativamente o contingente de 12,6 milhões de desempregados. O caminho passa pelas reformas estruturais, e isso está avançando , apesar das dificuldades políticas. É preciso torcer para que o Brasil consiga atravessar sem grandes danos o período de turbulências que se forma no mundo. O que vai acontecer ainda é obscuro. Mas pelo menos o PIB do segundo trimestre trouxe algum alento.




 

Alexandre Calais

Alexandre Calais

Jornalista

Está no Estadão desde 2004

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