André Dusek/Estadão
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Após 2 meses, BC libera apenas 21% do R$ 1,2 tri prometido a bancos na crise

Cada vez mais seletivos com o temor de aumento de calotes, bancos não usam a maior parte dos instrumentos colocados à disposição pelo Banco Central

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - Só 21% do arsenal de R$ 1,2 trilhão anunciado pelo Banco Central para evitar crises bancárias e manter o funcionamento do crédito durante a pandemia do novo coronavírus foram usados até o momento, passados dois meses do lançamento do pacote de medidas feito pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto. O valor liberado aos bancos no período foi de R$ 260,2 bilhões.

O pacote de R$ 1,2 trilhão representaria o equivalente a 16,6% do Produto Interno Bruto (PIB) – um porcentual bastante superior aos 3,8% do PIB ofertados aos bancos após a crise financeira de 2008.

Na época do anúncio, o discurso do BC era de que as medidas permitiriam manter a oferta de recursos para as instituições financeiras, evitando dificuldades e possíveis quebras durante a pandemia. Além disso, a injeção de recursos permitiria que os bancos pudessem atender ao aumento da demanda por crédito por empresas e famílias, neste momento de crise.

Cada vez mais seletivos com o temor do aumento no nível de calotes, os bancos, porém, não usaram a maior parte dos instrumentos colocados à disposição pelo Banco Central, mostram os dados logo após os dois meses do anúncio. A autarquia também demorou na regulamentação de linhas atreladas a letras financeiras e debêntures (título de dívida corporativa). A maior parte  liberada foi em compulsórios (recursos que as instituições são obrigadas a deixar no BC para fazer frente aos riscos dos empréstimos).

“Avaliar o quanto foi disponibilizado e o quanto poderia virar crédito é difícil”, afirma a economista Isabela Tavares, especialista em crédito da Tendências Consultoria Integrada. “Dentro dos bancos, há recursos que podem virar provisão de crédito, porque as instituições estão pensando no risco de aumento da inadimplência.”

Para o economista Ricardo Rocha, professor do Insper, os bancos não estão neste momento com problema de liquidez. “Não é falta de dinheiro para emprestar. O problema é o risco.” Segundo o economista, o problema enfrentado pelas empresas para acessar o crédito passa pela falta de garantias a serem dadas aos bancos. “Como fazer chegar o crédito para quem não tem a garantia? Esta é a dificuldade”, diz ele. 

De acordo com o BC, as concessões de crédito despencaram 16,5% em abril ante março, considerando a série estatística livre de influências sazonais. No caso específico das empresas, essas concessões recuaram 21,1%. Entre as famílias, a baixa foi de 13,2%.

Outro lado

Em nota, o Banco Central afirmou que “até o momento os recursos disponibilizados atenderam plenamente as demandas das instituições financeiras”. De acordo com a autarquia, os recursos liberados foram suficientes para que os bancos “tivessem condições de atender a demanda de seus clientes, mas sem colocar em risco a capacidade de honrar seus compromissos com seus depositantes e investidores”.

O BC pontuou ainda que os números apresentados no anúncio das medidas em março, em um total de R$ 1,2 trilhão, “representam o impacto máximo das medidas”. “Algumas, como liberação de compulsório e de capital já apresentaram resultado integral”, afirmou. “Outras vão depender de duração e severidade de impacto da crise, comportamento dos mercados doméstico e internacional, demanda por parte de famílias e empresas, bem como apetite e gestão de risco por parte das instituições financeiras”.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirmou, por meio de nota, que “na conjuntura atual não existem restrições relevantes de liquidez” no sistema financeiro. Segundo a associação, “a relação entre o potencial de liberação de recursos das medidas e a liberação efetiva dos recursos deve ser analisada com cautela”. Isso porque, de acordo com a Febraban, “parte dessas medidas tem implementação gradual e o seu potencial pleno só poderá ser mensurado a médio e longo prazo" porque ainda está no início da implementação. 

A Febraban disse ainda que “a simples adoção dessas medidas já produz efeitos indiretos importantes, uma vez que sinaliza ao mercado que haverá novas fontes à disposição dos bancos”. Para a entidade, “isto faz com que a liquidez circule de forma mais efetiva, reduzindo/eliminando os chamados empoçamentos de liquidez e contribuindo para dar mais eficiência ao mercado”.

O presidente da Febraban, Isaac Sidney, também se pronunciou ao Estadão/Broadcast, por meio de nota. “A fase mais aguda da crise de liquidez, que se manifestou especialmente logo após a decretação da pandemia pela OMS, no final de março e início de abril, está sendo superada”, disse Sidney. “O Banco Central foi ágil e eficiente na adoção de medidas, não só de liberação de recursos, mas também na disponibilidade de linhas de assistência de liquidez e na implementação de ajustes regulatórios que deram mais flexibilidade para a atuação do sistema bancário."

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