Após 25 anos, Alemanha segue dividida economicamente

Após 25 anos, Alemanha segue dividida economicamente

Apesar dos avanços, nível de atividade do leste continua longe do observado no oeste; convergência tem sido modesta

MELINA COSTA, Especial para o Estado

12 de outubro de 2014 | 02h06


BERLIM - No dia 9 de novembro, a Alemanha vai comemorar 25 anos desde a queda do Muro de Berlim, episódio que deu início à reunificação do país depois de quatro décadas dividido entre o capitalismo e o socialismo. Na época, o então chanceler Helmut Kohl declarou, em um discurso célebre, que os recém-criados Estados do leste logo iriam "desabrochar" e se transformar em "paisagens onde vale a pena viver e trabalhar". O plano era que o lado oriental alcançasse um nível de desenvolvimento semelhante ao ocidental em menos de uma década - mas não foi bem assim que a história se desenrolou.

"Nos primeiros anos da reunificação, as promessas foram incisivas demais. Agora vemos que se trata de um longo processo", diz Jochen Staadt, pesquisador da história da antiga Alemanha Oriental na Universidade Livre de Berlim.

Houve, sem dúvida, avanços: a expectativa de vida, a qualidade da infraestrutura e até da pesquisa científica são, hoje, semelhantes nos dois lados do país. O problema é que o nível de atividade econômica no leste continua longe daquele observado no oeste. Segundo levantamento do governo, o Produto Interno Bruto (PIB) gerado pela área que pertencia à Alemanha Oriental corresponde a apenas 67% da produção do lado ocidental. No ano passado, o PIB per capita registrado no leste foi de 23.600, enquanto no oeste o valor foi de 35.400. Além disso, o desemprego é um terço mais alto na antiga Alemanha Oriental.

Convergência modesta. O mais preocupante é o ritmo com que os cinco Estados do leste vêm se aproximando do resto do país. Durante a década de 90, seu PIB per capita praticamente dobrou na comparação com o oeste. Foi nesse período que os Estados socialistas se transformaram em economias de mercado por meio de privatizações, da criação de novas empresas e da adoção do governo e do sistema legal do oeste. Desde a década passada, porém, a convergência tem sido modesta. Segundo dados do governo, nos últimos 13 anos, o PIB per capita do leste passou de 62% para 67% da produção ocidental.

Como se não bastasse, esses dados podem ser otimistas demais. "A população do leste decresce mais rapidamente que no oeste. Se levarmos isso em consideração, percebemos que a convergência dos últimos anos se deu quase que exclusivamente pelo declínio demográfico, e não por causa do crescimento (absoluto) da economia", diz Joachim Ragnitz, diretor do centro de estudos econômicos Ifo Institute, na cidade de Dresden.

Está exatamente aí parte da explicação para os desafios enfrentados no leste. Com o colapso do sistema socialista, cerca de 2 milhões de pessoas perderam o emprego. Hordas de jovens em idade produtiva deixaram suas cidades em busca de oportunidades no oeste. Menos gente trabalhando significa menor poder de consumo e, portanto, atividade econômica mais fraca.

Algumas cidades - como Leipzig, Dresden, Jena e Erfurt - experimentaram um nível de desenvolvimento comparável às grandes cidades do lado ocidental. Depois de pesados investimentos em infraestrutura, Leipzig conseguiu atrair, desde a década passada, projetos como um centro de distribuição da varejista Amazon, um hub para as operações aéreas da empresa de logística DHL e a fábrica de automóveis mais moderna da Europa, pertencente à montadora BMW.

"Outras 20 cidades na Europa competiram por essa planta, mas Leipzig ofereceu a infraestrutura perfeita, com conexões para rodovias, ferrovias e um aeroporto. Além disso, a cidade tem mão de obra qualificada e a administração municipal foi ágil e proativa", diz Jochen Müller, porta-voz da BMW.

Trata-se, porém, de uma exceção. Em geral, a estrutura econômica no leste é formada por empresas de pequeno porte, com pouco acesso a inovação e economia de escala. Soma-se a isso a escassez de grandes polos de crescimento na região, cidades que poderiam influenciar o desenvolvimento dos vizinhos. Tanto a produtividade como os salários são 20% mais baixos na comparação com o oeste, segundo o Ifo Institute.

Investimentos. O resultado é especialmente frustrante diante dos esforços do governo. Na década de 90, a Alemanha estabeleceu um esquema de repasses do governo federal e Estados do lado ocidental, chamado Pacto de Solidariedade, para ajudar na inclusão do leste. Em sua segunda fase, que começou em 2005 e durará até 2019, 156 bilhões serão transferidos. Além de investimentos em infraestrutura, o dinheiro é usado para equilibrar o orçamento das prefeituras, pagar benefícios sociais e, em menor parte, sustentar políticas de desenvolvimento.

Diante da dependência de muitas prefeituras, os parlamentares alemães já discutem um novo modelo de ajuda financeira a ser introduzido depois que o atual Pacto de Solidariedade expirar. Mas nem todos concordam com mais uma década de desembolsos que parecem nunca ser suficientes para a promover a convergência do leste. Afinal, faz sentido esperar que o lado oriental torne-se tão rico e dinâmico quanto o ocidental?

"Alguns Estados do leste são mais pobres que Estados do oeste, mas esse já era o caso antes da 2.ª Guerra Mundial. Os Estados de Brandemburgo e Mecklemburgo-Pomerânia, por exemplo, não são regiões industriais tradicionais", diz Jochen Staadt. "Cada vez mais (com a política de repasses dos últimos anos), o mapa econômico na Alemanha está voltando a ser o que era antes da guerra, com uma divisão mais clara entre o norte e o sul, e não entre o leste e o oeste."

Os desafios do crescimento, portanto, não são mais exclusividade do lado oriental. O vale do Rio Ruhr, no extremo oeste, que costumava concentrar indústrias de aço e a exploração de carvão, tornou-se pouco competitivo com o avanço da globalização nos anos 90 e hoje apresenta uma taxa de desemprego quase três vezes maior que a média nacional. Ali também estão as cidades mais endividadas da Alemanha. Os prefeitos dessa região são, hoje, os principais oponentes da política de transferências oeste-leste. Correndo o risco de serem taxados de pouco solidários, eles chamam a atenção para o fato de que a Alemanha ganhou novos problemas depois da queda do Muro de Berlim.

"Nos primeiros anos da reunificação, as promessas foram incisivas demais. Agora vemos que se trata de um longo processo", diz Jochen Staadt, pesquisador da história da antiga Alemanha Oriental na Universidade Livre de Berlim.

Houve, sem dúvida, avanços: a expectativa de vida, a qualidade da infraestrutura e até da pesquisa científica são, hoje, semelhantes nos dois lados do país. O problema é que o nível de atividade econômica no leste continua longe daquele observado no oeste. Segundo levantamento do governo, o Produto Interno Bruto (PIB) gerado pela área que pertencia à Alemanha Oriental corresponde a apenas 67% da produção do lado ocidental. No ano passado, o PIB per capita registrado no leste foi de 23.600, enquanto no oeste o valor foi de 35.400. Além disso, o desemprego é um terço mais alto na antiga Alemanha Oriental.

Convergência modesta. O mais preocupante é o ritmo com que os cinco Estados do leste vêm se aproximando do resto do país. Durante a década de 90, seu PIB per capita praticamente dobrou na comparação com o oeste. Foi nesse período que os Estados socialistas se transformaram em economias de mercado por meio de privatizações, da criação de novas empresas e da adoção do governo e do sistema legal do oeste. Desde a década passada, porém, a convergência tem sido modesta. Segundo dados do governo, nos últimos 13 anos, o PIB per capita do leste passou de 62% para 67% da produção ocidental.

Como se não bastasse, esses dados podem ser otimistas demais. "A população do leste decresce mais rapidamente que no oeste. Se levarmos isso em consideração, percebemos que a convergência dos últimos anos se deu quase que exclusivamente pelo declínio demográfico, e não por causa do crescimento (absoluto) da economia", diz Joachim Ragnitz, diretor do centro de estudos econômicos Ifo Institute, na cidade de Dresden.

Está exatamente aí parte da explicação para os desafios enfrentados no leste. Com o colapso do sistema socialista, cerca de 2 milhões de pessoas perderam o emprego. Hordas de jovens em idade produtiva deixaram suas cidades em busca de oportunidades no oeste. Menos gente trabalhando significa menor poder de consumo e, portanto, atividade econômica mais fraca.

Algumas cidades - como Leipzig, Dresden, Jena e Erfurt - experimentaram um nível de desenvolvimento comparável às grandes cidades do lado ocidental. Depois de pesados investimentos em infraestrutura, Leipzig conseguiu atrair, desde a década passada, projetos como um centro de distribuição da varejista Amazon, um hub para as operações aéreas da empresa de logística DHL e a fábrica de automóveis mais moderna da Europa, pertencente à montadora BMW.

"Outras 20 cidades na Europa competiram por essa planta, mas Leipzig ofereceu a infraestrutura perfeita, com conexões para rodovias, ferrovias e um aeroporto. Além disso, a cidade tem mão de obra qualificada e a administração municipal foi ágil e proativa", diz Jochen Müller, porta-voz da BMW.

Trata-se, porém, de uma exceção. Em geral, a estrutura econômica no leste é formada por empresas de pequeno porte, com pouco acesso a inovação e economia de escala. Soma-se a isso a escassez de grandes polos de crescimento na região, cidades que poderiam influenciar o desenvolvimento dos vizinhos. Tanto a produtividade como os salários são 20% mais baixos na comparação com o oeste, segundo o Ifo Institute.

Investimentos. O resultado é especialmente frustrante diante dos esforços do governo. Na década de 90, a Alemanha estabeleceu um esquema de repasses do governo federal e Estados do lado ocidental, chamado Pacto de Solidariedade, para ajudar na inclusão do leste. Em sua segunda fase, que começou em 2005 e durará até 2019, 156 bilhões serão transferidos. Além de investimentos em infraestrutura, o dinheiro é usado para equilibrar o orçamento das prefeituras, pagar benefícios sociais e, em menor parte, sustentar políticas de desenvolvimento.

Diante da dependência de muitas prefeituras, os parlamentares alemães já discutem um novo modelo de ajuda financeira a ser introduzido depois que o atual Pacto de Solidariedade expirar. Mas nem todos concordam com mais uma década de desembolsos que parecem nunca ser suficientes para a promover a convergência do leste. Afinal, faz sentido esperar que o lado oriental torne-se tão rico e dinâmico quanto o ocidental?

"Alguns Estados do leste são mais pobres que Estados do oeste, mas esse já era o caso antes da 2.ª Guerra Mundial. Os Estados de Brandemburgo e Mecklemburgo-Pomerânia, por exemplo, não são regiões industriais tradicionais", diz Jochen Staadt. "Cada vez mais (com a política de repasses dos últimos anos), o mapa econômico na Alemanha está voltando a ser o que era antes da guerra, com uma divisão mais clara entre o norte e o sul, e não entre o leste e o oeste."

Os desafios do crescimento, portanto, não são mais exclusividade do lado oriental. O vale do Rio Ruhr, no extremo oeste, que costumava concentrar indústrias de aço e a exploração de carvão, tornou-se pouco competitivo com o avanço da globalização nos anos 90 e hoje apresenta uma taxa de desemprego quase três vezes maior que a média nacional. Ali também estão as cidades mais endividadas da Alemanha. Os prefeitos dessa região são, hoje, os principais oponentes da política de transferências oeste-leste. Correndo o risco de serem taxados de pouco solidários, eles chamam a atenção para o fato de que a Alemanha ganhou novos problemas depois da queda do Muro de Berlim.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Muro econômico foi o primeiro a ser erguido

Em 13 de agosto de 1961, os alemães acordaram para ver Berlim separada por um muro. Para conter as fugas para a República Federal da Alemanha (capitalista), a República Democrática Alemã (socialista) havia fechado as fronteiras setoriais entre Berlim Oriental (RDA) e Ocidental (RFA) e construído um muro. Com quatro metros de altura e 40 quilômetros de extensão, a estrutura circundava toda a Berlim Ocidental e era equipada com dispositivos antifuga que incluíam guaritas de vigilância, cães treinados, redes eletrificadas com alarmes, campos minados e metralhadoras.

'Era embaraçoso ser da Alemanha Oriental'

Para Sabine Rennefanz, depois da queda do Muro, muita gente sente que sua experiência pessoal e profissional foi desvalorizada e humilhada

O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h06

A maioria dos alemães da região oriental se diz satisfeito com a reunificação do país, mas muitos ainda se ressentem da forma como a transição para o capitalismo foi feita.

Sabine Rennefanz é editora do jornal Berliner Zeitung e tinha 15 anos quando o Muro de Berlim foi derrubado. Em seu livro Eisenkinder: Die stille Wut der Wendegeneration (algo como Crianças de Ferro: A Raiva Silenciosa da Geração da Mudança), ela conta o impacto do episódio. De Berlim, Sabine deu o depoimento abaixo ao Estado.

"Primeiro, quando o muro caiu, foi muito empolgante. Mas em 1990 (ano seguinte à queda do Muro de Berlim) tudo ficou mais sóbrio. Era como se a "revolução pacífica" (como ficaram conhecidos os protestos que antecederam a reunificação da Alemanha) tivesse sido tirada, de repente, das mãos dos alemães orientais.

Tanto meu pai como minha mãe perderam o emprego. Eles tiveram problemas financeiros, sentiram-se culpados pela situação e pararam de falar comigo e meus irmãos. Eu estudava em um internato em Eisenhuettenstadt, que era uma cidade modelo para o socialismo. Havia muita desilusão e desemprego por lá também.

Na minha escola, que era uma escola especial para o ensino de línguas, os professores estavam confusos, o futuro estava em xeque. Eventualmente, a escola fechou. Era o meu sonho estudar lá. Então, para mim, o mundo ruiu.

Agora isso não é mais tão flagrante, mas na década de 90 era embaraçoso ser da Alemanha Oriental. Tudo, das roupas e sotaque ao nosso repertório, era ridicularizado. Agora isso é mais sutil, no sentido de que a então Alemanha Oriental quase não aparece na mídia, a não ser para uma cobertura negativa. Não é bom para a sua carreira ser do leste. Angela Merkel e Joachim Gauck (chanceler e presidente da Alemanha, respectivamente), que nasceram na Alemanha Oriental, são exceção. Há mais gente do lado ocidental, proporcionalmente, em altos cargos ministeriais.

Li que, entre 180 presidentes de grandes empresas alemãs, há mais britânicos que gente da antiga Alemanha Oriental. Mas acho que é um erro confundir essa crítica ao atual sistema com um desejo de retorno à República Democrática Alemã (Alemanha Oriental). É muito importante diferenciar entre o sistema, a ditadura e as vidas individuais das pessoas. Muita gente sente que sua experiência pessoal e profissional foi desvalorizada e humilhada. Especialmente, na geração dos meus pais, perdemos muitas mentes boas."

Tudo o que sabemos sobre:
Alemanha

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.