Valeria Gonçalvez/Estadão
Valeria Gonçalvez/Estadão

Após 26 anos, Galló prepara sucessão da Lojas Renner para o fim deste ano

Executivo que ajudou a transformar varejista em dificuldades, dona de oito lojas em 1992, em gigante de R$ 22 bi, com 525 pontos de venda, diz que enfrentou desafios suficientes sem mudar de emprego

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2018 | 04h00

Prestes a deixar o comando da Renner após 26 anos, o executivo José Galló, 66 anos, vai entregar aos acionistas uma varejista bem diferente daquela em que ingressou. Em 1992, ao assumir seu atual cargo, o valor do negócio, que tinha oito lojas, era de US$ 918 mil (R$ 3,3 milhões), lembrou o executivo, em entrevista ao ‘Estado’. Hoje, a Renner é avaliada em R$ 22 bilhões na Bolsa, ou US$ 6 bilhões, na taxa de câmbio de ontem. A companhia agora tem 525 unidades, incluindo as bandeiras YouCom e Camicado. “Em vez de mudar de empresa, mudei a empresa”, disse o executivo.

O contrato de Galló vence no fim do ano. O processo de sucessão está em curso e ele diz que provavelmente seu substituto virá de dentro do negócio. “Um executivo contratado no mercado tem ao redor de 20% de chance de dar certo numa empresa como a Renner, de cultura forte”, afirmou o executivo. Após deixar o dia a dia do negócio, Galló continuará com sua cadeira garantida no conselho de administração. “Aposentadoria é uma palavra que não está no meu vocabulário”, afirmou.

De 1992 para cá, a Renner passou por várias fases, de acordo com Galló. Nos primeiros anos, era uma empresa familiar em dificuldades. No fim dos anos 1990, virou subsidiária da gigante americana JC Penney. Com a saída do grupo, tornou-se a primeira “corporation” do País (negócio com ações negociadas em bolsa sem controlador definido). Sempre associada ao atendimento à família, a Renner aos poucos assumiu seu lado “fast-fashion”.

No último ano, entrou mais fortemente nos meios digitais, enquanto continuou a avançar em pontos físicos, tanto com a marca principal quanto com a aquisição e criação de outras, como Camicado (de decoração) e YouCom (moda jovem). O processo de criação de novas marcas ainda está em curso: antes de deixar o cargo, Galló vai preparar o lançamento da Ashua, de roupas plus size, em 2019.

No primeiro trimestre, o lucro da Renner foi de R$ 111,4 milhões, expansão de 66% em relação ao mesmo período de 2017, com alta de 6,3% nas lojas abertas há mais de um ano. Para o executivo, apesar dos riscos relacionados à eleição, a economia melhorou. Embora o emprego não tenha registrado a alta esperada, ele destacou que o nível de endividamento está baixo e que reformas importantes foram realizadas, a começar pela trabalhista (leia mais ao lado).

Em relatório divulgado no início do mês, o banco Brasil Plural disse que a empresa “está no caminho para obter resultados mais fortes que os esperados no ano, o que pode ser forte catalisador para o preço das ações.”

Além da Renner. Antes de deixar o cargo, Galló está ampliando a aposta da Renner em sustentabilidade. Na quarta-feira, a empresa lançou a coleção Re Jeans, criada a partir de matérias-primas recicladas, que inicialmente estará disponível em 85 lojas. Para garantir que esse movimento cresça, o executivo diz que o trabalho foi ampliado para os mais de 300 fornecedores da empresa e para os colaboradores administrativos e de lojas. “A ideia é transcender a empresa, é que o colaborador leve esses conceitos para a família.”

QUATRO PERGUNTAS PARA ....

José Galló, presidente da Lojas Renner

1.Como o sr. vê a situação política do País?

Estamos em um momento de incerteza, a começar pela política. A cinco meses da eleição, não temos um candidato. E tem a Copa do Mundo, período em que ninguém fará nada. Vamos ter de 40 a 50 dias para escolher um candidato. É bastante preocupante.

2. E a situação econômica?

Essa é a parte boa. Estamos com a inflação sob controle, a menor taxa de juros dos últimos 20 anos. A confiança do consumidor está patamar razoável, após ter subido nos últimos dois anos. E o consumidor brasileiro está menos endividado, pois sabe que precisa do crédito. Tivemos também a reforma trabalhista e a PEC do teto dos gastos do governo.

3. E a reforma da Previdência é importante?  

Sim. Tirou-se o tabu da reforma da Previdência, apesar de ela não ter saído. Tivemos dois anos de grande evolução. Evoluímos, considerando variáveis microeconômicas e reformas, mais do que em 15 a 20 anos. O melhor dos mundos, daqui em diante, é um presidente que seja bom gestor e que encare também as reformas tributária e política.

4. Por que é necessária a reforma política?

Porque é gravíssima a situação. O verdadeiro significado da política é convencer um grupo de pessoas sobre determinadas ideias. Não é roubar, corromper, se aproveitar da situação.

 

 

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