R. E. Adorno/Reuters-1974
R. E. Adorno/Reuters-1974

Após 37 anos, usina de Yacyretá é inaugurada

Hidrelétrica criada por Juan Domingo Perón, da Argentina, e Alfredo Stroessner, do Paraguai, virou ''monumento à corrupção'' e custou US$ 15 bi

Marina Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 Março 2011 | 00h00

Depois de 37 anos de escândalos, a central hidrelétrica de Yacyretá finalmente foi inaugurada na sexta-feira pelos governos da Argentina e do Paraguai. Os presidentes Cristina Kirchner e Fernando Lugo, no entanto, ainda negociam o tamanho da dívida paraguaia com o sócio no tratado binacional, assinado em 1973, pelo então presidente argentino Juan Domingo Perón e o ditador paraguaio Alfredo Stroessner.

Ambos os governos justificaram o tratado pela crescente demanda de energia dos dois países em plena crise do petróleo. Mas as obras só foram iniciadas dez anos após a assinatura do acordo inicial. Foram inúmeras inaugurações antes de chegar à cota final de 83 metros da represa em relação ao nível do mar. A primeira turbina foi inaugurada em 1994.

A própria Cristina Kirchner reconheceu os problemas que envolveram a obra conjunta. "É surpreendente que tenham transcorridos 37 anos desde a assinatura do tratado (?). É uma parábola do que ocorreu aos argentinos, aos paraguaios e à região", disse a presidente. Cristina afirmou que a obra "esteve parada durante anos porque um país que não produz, que não tem operários, nem indústria, não necessita de energia".

Segundo Cristina , as demoras na elevação da cota ao nível definitivo provocaram risco de uma deterioração irreversível das turbinas. A referência à paralisação da obra lembrou os anos 90, quando a Argentina era governada por Carlos Menem. O ex-presidente qualificou a obra como "um monumento à corrupção".

Críticas. A comissão técnica mista de Yacyretá foi criticada pelos especialistas, assim como todo o processo que envolveu o projeto, por ter representado um custo superior ao previsto. Localizada no Rio Paraná, na fronteira entre ambos os países, Yacyretá custou US$ 15 bilhões.

Para o analista econômico argentino Enrique Szewach, a conclusão de Yacyretá é uma boa notícia, embora faltem obras complementares, mas também é a história de um fracasso coletivo.

"Um fracasso em matéria de planejamento, administração, eficiência, combate à corrupção, etc", afirmou Szewach. Ele disse que a Argentina possui uma longa lista de outras "estátuas em homenagem ao mesmo deus da corrupção".

Desde o início da obra, os ambientalistas também se opuseram ao projeto. Mais de 80 mil pessoas tiveram de abandonar a região e as águas da represa cobriram importantes nichos do turismo local, como as praias da cidade de Posadas, de acordo com dados de organizações não governamentais.

O presidente paraguaio, Fernando Lugo, considerou que a inauguração "é um salto gigantesco em direção à integração energética". Mas também fez suas críticas: "Muitos se aproveitaram das demoras para lucrar com os fundos destinados à obra.

O custo foi bem superior ao previsto inicialmente e causou enormes danos aos contribuintes argentinos e paraguaios", afirmou Lugo durante seu discurso na sexta-feira.

Já a presidente argentina disse que Yacyretá é uma "obra muito importante, definitiva para ambos os países porque vai produzir energia para sustentar o crescimento econômico".

"Sem energia não vamos poder continuar crescendo no atual ritmo", ressaltou Cristina, anunciando que em setembro vai inaugurar a central nuclear de Atucha II.

A usina hidrelétrica de Yacyretá vai produzir quase 60% da geração de energia elétrica da Argentina- corresponde a 22% do total da eletricidade consumida por ano - e atender a uma demanda similar no Paraguai.

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