Sérgio Moraes/Reuters
Sérgio Moraes/Reuters

Após nova ameaça de Bolsonaro, ações da Petrobrás têm forte queda na Bolsa

O presidente afirmou que 'teremos mudança, sim' na estatal e cobrou previsibilidade nos reajustes dos preços dos combustíveis; Ibovespa caiu 0,6%, enquanto papéis da petroleira caíram quase 8%

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2021 | 10h34
Atualizado 19 de fevereiro de 2021 | 22h13

O temor de interferência política na Petrobrás, com ameaça reiterada do presidente Jair Bolsonaro ao presidente da estatal, Roberto Castello Branco, fez  as ações da petroleira caírem 7,92%(ON) e 6,63%(PN), as maiores quedas da B3 no dia. O tombo também afetou o Ibovespa nesta sexta-feira, 19, que fechou em baixa de 0,64%, aos 118.430,53 pontos. Descolado do tema, o dólar terminou em queda de 1,02%, a R$ 5,3854.

"Anuncio que teremos mudança, sim, na Petrobrás", repetiu Bolsonaro no começo da tarde. O presidente, no entanto, acrescentou que "jamais vamos interferir nessa grande empresa, na sua política de preço". Os comentários foram feitos um dia depois de ele anunciar que vai zerar os tributos federais sobre o diesel, após novo anúncio de reajuste dos combustíveis pela Petrobrás. Bolsonaro considerou o aumento, o quarto do ano, “fora da curva” e “excessivo”. Durante sua live semanal no Facebook, na quinta-feira, 18, ele reforçou que não pode interferir na estatal, mas ressaltou que a medida “vai ter consequência”.

As ações ON da petroleira caíram 7,92% e as PN, 6,63%. O tombo prejudicou o Ibovespa durante todo o pregão, que caiu aos 117 mil pontos na mínima do dia, e levou o índice a terminar a semana de apenas três sessões com queda de 0,84%. Com isso, os ganhos no mês são de apenas 2,92%, enquanto no ano, a Bolsa voltou ao terreno negativo, com baixa de 0,49%.

A ofensiva de Bolsonaro sobre o comando de estatal lembra episódio recente, envolvendo o Banco do Brasil e o fechamento de agências, que colocou em risco o emprego do presidente da instituição, André Brandão, profissional com perfil de mercado e cuja permanência acabou sendo assegurada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, após o atrito com o presidente em janeiro. Com o temor de uma possível interferência na petroleira, as ações do BB caíram 1,89%.

Agora, a tarefa envolve encontrar previsibilidade para os reajustes de combustíveis, especialmente o diesel, que afeta diretamente os caminhoneiros, tratados como apoiadores por Bolsonaro. Ainda que Castello Branco conte com o respaldo do conselho de administração, uma campanha de desgaste prolongado movida pelo Planalto, teme o mercado, pode resultar em pedido de demissão - e mesmo que isso não venha a se efetivar, os sinais de interferência política nos preços da estatal são um problema em si. "Temos aí uma questão política, é preciso ver por quanto tempo isso vai perdurar", diz Leonardo Milane, sócio e economista da VLG Investimentos.

"Os preços da Petrobrás guardam alguma defasagem, de forma que a tentativa de ingerência já constitui um problema. Para não falar de eventual substituição na presidência da empresa, o que resultaria em queda muito maior do que a vista hoje nas ações, mesmo que o substituto venha a ser alguém com perfil do agrado do mercado. Qualquer mudança agora deixaria evidente a intervenção na empresa", diz Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença.

Nesse cenário, a troca do presidente da petroleira é altamente considerada no Palácio do Planalto. O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, é um dos cotados para assumir a vaga de Roberto Castello Branco. O nome do almirante passou a circular nos bastidores depois das críticas do presidente Bolsonaro a Castello Branco que, semanas antes, havia dito que a greve dos caminhoneiros não era um problema da Petrobrás - mesmo que esse movimento estivesse fortemente relacionado ao aumento do diesel.

"O 'risco Bolsonaro' precisa ser reprecificado pelo mercado, há claramente um 'Bolsonaro não liberal'. O presidente está com vento contrário, em condição que não o agrada, agindo por impulso e buscando contato direto com o eleitor, a dona de casa que sabe o preço do gás, o cara que faz o frete. A situação é complexa para o presidente, tendo de administrar diferentes pressões sem perder de vista o eleitor", observa Pedro Paulo Silveira, gestor da Nova Futura Investimentos.

A política de preços da Petrobrás está no centro dos debates e pressões sobre os gestores da estatal há anos, em diversos governos. Em todos os casos, o alvo das críticas é a decisão de repassar as variações do petróleo no mercado internacional para o consumidor final. "Temos de esperar para ver qual medida será tomada, quão dura será e qual pode ser o nível de intervenção", afirma Bruno Takeo, gestor da Ouro Preto Investimentos, sobre as ameaças de Bolsonaro.

Câmbio

O dólar voltou a acelerar o ritmo de queda no final dos negócios desta sexta-feira, após a baixa perder força no início da tarde. Com isso, conseguiu encerrar o dia abaixo de R$ 5,40, em sessão marcada por enfraquecimento da moeda americana no exterior. Mas ainda assim acabou fechando a semana, mais curta por conta do feriado de carnaval, acumulando alta de 0,21%. No ano, sobe 3,8%, com o real no topo entre as divisas com pior desempenho perante o dólar.

No final da manhã, o efeito de forte fluxo de entrada de capital por conta de uma operação de uma única empresa levou o dólar para as mínimas do dia, a R$ 5,36 e passado este efeito, a divisa voltou a superar os R$ 5,40. No exterior, a moeda americana também reduziu parte do recuo ante divisas fortes e de emergentes e chegou a subir mais de 1% no México e África do Sul. O dólar futuro para março fechou em queda de 0,82%, a R$ 5,3845.

Hoje, o senador Marcio Bittar (MDB-AC) apresentou no Senado uma versão do parecer da PEC Emergencial para destravar o auxílio emergencial, com votação prevista para quinta-feira, 25. O texto trava as despesas quando os gastos do governo atingirem 95% da receita de União, Estados e municípios.

Para o economista em Nova York do Natixis para América Latina, Benito Berber, o câmbio no Brasil está sob renovada pressão desde que o governo voltou a falar em criar programas sociais, na reta final de 2020, o que aumentou o temor dos participantes do mercado de que o teto de gastos fosse ser violado este ano. Um programa de auxílio temporário desde que condicionado a reformas não seria mal recebido pelo mercado. Ele observa que por ora, com nomes alinhados ao governo nas presidências do Senado e da Câmara, a perspectiva é de avanços de reformas pró-mercado, mas não sem concessões, ou o toma-lá-dá-cá, ressalta o economista./ LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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