Eric Baradat/ AFP
Jerome Powell, presidente do Fed, o banco central americano Eric Baradat/ AFP

Após corte da taxa de juros americana, maioria do mercado passa a ver queda da Selic em março

Fed, o banco central dos Estados Unidos, cortou a taxa em 50 pontos-base, para faixa entre 1,0% e 1,25%, para tentar conter efeito do coronavírus

Cícero Cotrim e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 18h36

O corte extraordinário nos juros dos Estados Unidos realizado hoje pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), em meio aos temores com o coronavírus, mudou completamente e de forma imediata as apostas do mercado financeiro para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) deste mês, que passaram a indicar queda da Selic.

Menos de um mês após o BC afirmar que “vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária”, o mercado passou a enxergar como mais provável um novo corte de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic em março, de acordo com a maiorias das estimativas do levantamento relâmpago do Projeções Broadcast. E ainda casas que preveem corte mais robusto, de 0,50 ponto - mesma magnitude do corte do Fed.

Das 27 instituições consultadas, apenas nove projetam manutenção da taxa básica de juros na atual mínima histórica, de 4,25%. Entre as que esperam novos estímulos monetários, 15 acreditam em cortes de 0,25 ponto porcentual e outras três, de 0,50 ponto. Após o Copom de fevereiro, 39 das 41 casas ouvidas previam permanência da Selic.

A expectativa de novos cortes de juros por parte do Fed e de outros bancos centrais, inclusive, sustenta a perspectiva de que o ciclo de afrouxamento monetário do Brasil deve ultrapassar a reunião do Copom de março e levar a taxa Selic abaixo do nível de 4,0% no final de 2020.

A Capital Economics, o ING e o Asa Bank avaliaram que o banco central americano deve realizar mais um corte de 0,25 ponto porcentual na sua reunião do dia 18 de março, o que poderia abrir espaço para novas rodadas de cortes no Brasil.

Para o fechamento de 2020, nove instituições estimam manutenção da Selic no nível atual, enquanto sete projetam taxa de 4,0% e outras onze veem os juros abaixo deste nível. Para o ano que vem, o intervalo das estimativas vai de 4,25% a 6,5%.

“O que o Fed fez hoje foi dar uma opção de graça: ele abriu espaço para o BC do Brasil dar um corte de pelo menos 0,25 ponto e ainda parecer conservador”, avalia Luis Otávio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, uma da casas que cortou as projeções para a Selic em março de 4,25% para 4,0%.

Ele afirma que os efeitos do surto de coronavírus sobre a economia brasileira devem se manifestar mais como um choque de oferta, mas que uma redução nos juros poderia beneficiar o capital de giro das empresas que forem prejudicadas por uma redução de demanda no curto prazo.

De acordo com Leal, a tendência é o BC brasileiro seguir as expectativas do mercado na reunião de março, a menos que a autoridade monetária afirme explicitamente que não pretende realizar outro corte. “Tem uma semana, até o início do silêncio do Copom. Olhando o histórico do BC, se ele não falar nada, é porque vai com o mercado”, afirma.

O economista diz, no entanto, que não enxerga continuidade do ciclo de cortes depois de março, mesmo que o Fed e suas contrapartes do restante do mundo anunciem mais estímulos monetários à economia. “Pode ser que o BC aqui seja mais conservador. Com o dólar nesse nível de R$ 4,50, mesmo se a economia crescer perto de 1,5% neste ano, não há muito espaço na inflação, olhando para 2021”, afirma.

Apesar de reconhecer que o corte extraordinário dos juros pelo Fed aumenta as chances do BC reduzir a Selic, o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, afirma que este ainda não é seu cenário-base. "O real está se desvalorizando de maneira forte, com descolamento do movimento internacional, justamente por causa das apostas de cortes por aqui", diz.

Um corte de juros neste momento, avalia Rostagno, pode até ser contraproducente para a atividade econômica, já que uma moeda volátil e fraca prejudica o crescimento, porque traz incerteza para as empresas e afugenta investimentos.

Por causa disso, e sem sinais mais claros do efeito do coronavírus sobre a economia brasileira, Rostagno acredita que o BC pode esperar um pouco mais para tomar uma decisão com o cenário mais claro. Por ora, ele mantém a expectativa de manutenção da Selic em 4,25% até o fim do ano, mas com viés de baixa.

Já o economista-chefe da Garde Asset, Daniel Weeks, sustenta que, mesmo que o dólar continue no nível de R$ 4,50, a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve ficar em 2,75% este ano e em 3,30% no ano que vem. Para Weeks, a Selic deve terminar 2020 em 3,50%.

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BC diz que monitora atentamente impacto do coronavírus na economia brasileira

BC disse que vai avaliar nas próximas duas semanas os efeitos do surto na trajetória da inflação para decidir os rumos da taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 4,25% ao ano

Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 19h07

BRASÍLIA - Após mais um dia de reações do mercado e de governos diante da propagação do coronavírus e seus possíveis impactos para a economia global, o Banco Central divulgou uma nota nesta terça, 3, enfatizando que “monitora atentamente os impactos do surto de coronavírus nas condições financeiras e na economia brasileira”. 

De acordo com a autoridade monetária, “à luz dos eventos recentes, o impacto sobre a economia brasileira proveniente da desaceleração global tende a dominar uma eventual deterioração nos preços de ativos financeiros”.

O BC avisou, no entanto, que vai avaliar nas próximas duas semanas os efeitos do surto na trajetória da inflação para decidir os rumos da taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 4,25% ao ano. A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) ocorrerá nos dias 17 e 18 de março.

Na nota, o BC ainda citou o 15º parágrafo da última ata do Copom (de fevereiro), que dizia que: “o eventual prolongamento ou intensificação do surto implicaria em uma desaceleração adicional do crescimento global, com impactos sobre os preços das commodities e de importantes ativos financeiros. O Copom concluiu que a consequência desses efeitos para a condução da política monetária dependerá da magnitude relativa da desaceleração da economia global versus a reação dos ativos financeiros.”

Na última decisão do Copom, quando cortou a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, o colegiado informou “ver como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária”.

Entretanto, com o aprofundamento das incertezas em torno dos efeitos do surto de coronavírus nas últimas semanas, a maior parte do mercado passou a apostar em um novo corte na Selic neste mês.

O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anunciou nesta terça-feira em medida extraordinária, um corte nos juros dos fed funds em 50 pontos-base, para a faixa entre 1,0% e 1,25%. A instituição disse em breve comunicado que os fundamentos para a economia dos Estados Unidos "continuam fortes", mas que o coronavírus representa "riscos à atividade econômica".  

De 27 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast após a decisão de hoje do FED, apenas nove projetam manutenção da taxa Selic na atual mínima histórica, de 4,25%. Entre as que esperam novos estímulos monetários, 15 acreditam em cortes de 0,25 ponto porcentual e outras três, de 0,50 ponto. Após o Copom de fevereiro, 39 das 41 casas ouvidas previam permanência da Selic.

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FMI e Banco Mundial adotarão 'formato virtual' para encontros de primavera por coronavírus

Os organismos afirmam em nota conjunta que continuam "totalmente comprometidos" com um diálogo produtivo entre seus participantes

Gabriel Bueno da Costa, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 16h36

A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, e o presidente do Banco Mundial, David Malpass, anunciaram em comunicado hoje que concordaram em implementar um plano conjunto para que os encontros de primavera das entidades ocorram em um "formato virtual". A decisão foi fruto das "crescentes preocupações de saúde" relacionadas ao coronavírus.

Os organismos afirmam em nota conjunta que continuam "totalmente comprometidos" com um diálogo produtivo entre seus participantes e que reforçarão as capacidades de conexão virtual para garantir as consultas.

"Nós também continuaremos a compartilhar as análises do FMI e do Banco Mundial", comentaram. "Com este formato adaptado, estamos confiantes de que nossos países membros serão capazes de se envolver de modo eficaz em questões prementes da economia global nessas reuniões de primavera", dizem as autoridades.

"As inscrições para todas as categorias de participantes (delegados, observadores, convidados e imprensa) foram suspensas e todas as confirmações antes enviadas serão cancelas", diz o comunicado.

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Dólar fecha em nível recorde e Bolsa termina em queda

BC dos EUA faz corte extraordinário de juros para tentar conter efeitos do coronavírus; Bolsa não conseguiu sustentar a o impulso e fechou em queda de 1,02%, aos 105.537,14 pontos

Maria Regina Silva, Gabriel Bueno da Costa e Iander Porcella, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 11h09
Atualizado 03 de março de 2020 | 18h25

A decisão do Fed de cortar a taxa de juros em 50 pontos-base, para faixa entre 1,0% e 1,25% afetou o câmbio: o dólar, que chegou à máxima de R$ 4,5084 antes do anúncio do corte de juros, teve uma queda momentânea, para voltar a subir em seguida. A moeda à vista fechou em alta de 0,55%, a R$ 4,5117, no novo nível recorde. 

Bolsa

O Ibovespa renovou a máxima e ultrapassou os 108 mil pontos logo após um inesperado corte na taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) nesta terça-feira 3, na tentativa de abrandar os impactos do coronavírus sobre a economia global.

Mas as Bolsas não sustentaram o impulso dado pelo anúncio da autoridade monetária americana. Depois de atingir a máxima de 108.702,84 pontos, acompanhando a alta acima de 1% em Nova York, o Ibovespa fechou em baixa de 1,02%, a 105.537,14 pontos.

Em Nova York  os índices acionários também caíam, puxados por ações do setores bancário e de tecnologia. O Dow Jones fechou em queda de 2,94%, aos 25.917,41, o Nasdaq teve queda de 3,14% e encerrou aos 8.671,41 pontos, e o S&P 500 cedeu aos 2,85% e terminou aos 3.002,00 pontos. 

O Fed cortou a taxa de juros em 50 pontos-base, para faixa entre 1,0% e 1,25%. A instituição diz em breve comunicado que os fundamentos para a economia dos Estados Unidos "continuam fortes", mas que o coronavírus representa "riscos à atividade econômica".

"Diante desses riscos e em apoio à busca das metas de máximo emprego e estabilidade de preços, o Comitê Federal de Mercado Aberto decidiu hoje reduzir a faixa dos fed funds", diz a nota. "O Comitê monitora de perto os acontecimentos e suas implicações para a perspectiva econômica e usará todos os instrumentos para agir como apropriado para apoiar a economia." O comunicado informa ainda que a decisão de política monetária foi unânime.

De manhã ministros de Finanças e presidentes dos bancos centrais do G-7 discutiram o avanço do coronavírus - em comunicado, o grupo disse estar pronto para combater  disseminação da doença, mas não anunciou medidas de estímulo.

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Presidente do BC inglês defende ação coordenada contra efeitos do coronavírus

Para Mark Carney, impacto do Covid-19 deve ser menos persistente do que o choque com a crise financeira internacional de 2008

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 09h59

LONDRES - O presidente do Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês), Mark Carney, disse nesta terça-feira, 3, estar confiante de que, se as ações coordenadas dos bancos centrais e ministros de finanças forem corretas para minimizar os impactos da disseminação do coronavírus sobre a economia global, os efeitos positivos aparecerão. Ele fez a avaliação sobre a teleconferência que está marcada para esta manhã com as autoridades das principais economias do mundo durante sessão no Comitê do Tesouro do Parlamento do Reino Unido

"Os julgamentos e considerações são sobre quais medidas podem ser mais efetivas", disse. Ele salientou que a inflação no Reino Unido e no mundo está baixa e que os juros também estão comedidos. "Então, precisamos obter o máximo de qualquer decisão (de política monetária)."

O presidente do BoE destacou que a perspectiva é a de que o Covid-19 cause perturbações, mas não destruição à economia. Sobre o Reino Unido, que lançará um plano de ação contra a epidemia nesta terça, ele enfatizou que, além da fase de contenção do vírus, há também um trabalho para tentar retardar sua proliferação.

Na avaliação de Carney, o impacto sobre a economia deve ser menos persistente do que o choque com a crise financeira internacional de 2008. "O sistema financeiro está mais resiliente agora do que em 2008", comparou, dizendo, no entanto, que são duas crises de natureza diferentes e que, tecnicamente, não podem ser comparadas. Até porque, na sua avaliação, há a expectativa de que haverá poucas repercussões no longo prazo, considerando que, em algum lugar do mundo, será encontrada uma cura ou uma vacina contra o vírus.

Ele comentou que as taxas de juros baixas ajudaram a manter a economia mundial em equilíbrio, e salientou que tem tido contato frequente com colegas de outros países e instituições, incluindo G-7 (grupo das 7 maiores economias do mundo), G-20 (grupo das 20 maiores economias do mundo) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Carney afirmou que o BOE fará todos os esforços para apoiar a economia e o sistema financeiro britânicos no caso da disseminação do coronavírus no país. "O papel do BoE é ajudar as empresas do Reino Unido, as famílias a administrarem durante de um choque econômico." 

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