Diretores do BNDES deixam cargos por divergência com novo presidente

Segundo presidente, a 'causa do desconforto' é a posição da nova gestão do banco de se manter aberta ao debate em torno da MP 777, que cria a Taxa de Longo Prazo (TLP)

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2017 | 16h17

BRASÍLIA - Insatisfeitos com a gestão do presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro, os diretores do banco Vinicius Carrasco e Claudio Coutinho pediram demissão ontem, e outros dois diretores podem deixar o cargo. O estopim foram as críticas de Rabello ao modelo proposto para a nova taxa de juros que baliza os empréstimos do BNDES. Em entrevista ao “Estadão/Broadcast”, o presidente da instituição disse que a fórmula pode prejudicar as empresas tomadoras de crédito na instituição, ao reduzir a “previsibilidade” das condições dos financiamentos.

As declarações de Rabello surpreenderam o Ministério da Fazenda, uma vez que a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP, mais próxima às taxas de mercado), substituta da atual TJLP (fortemente subsidiada), é vista como medida importante para melhorar as contas públicas, com a redução dos subsídios aos créditos do BNDES. A mudança também poderia diminuir os juros do mercado e fortalecer o crédito privado de longo prazo. Há preocupação na área econômica porque o mercado até já aceita atrasos na reforma da Previdência, mas não quer surpresas nem retrocessos na política econômica.

Se o mercado achar que esse barulho em torno da TLP entra na categoria de “surpresa ou retrocesso”, vai reagir muito mal, segundo uma fonte. É por isso que integrantes da equipe econômica querem que o presidente Michel Temer, amigo de Rabello, dê uma sinalização pública favorável à proposta da nova TLP, encaminhada ao Congresso Nacional por meio da Medida Provisória (MP) 777.

Para as equipes da Fazenda e do Banco Central, a criação da TLP é um assunto importante de diretriz de política econômica e não pode ser atropelado. No Twitter, o secretário de Acompanhamento Econômico da Fazenda, Mansueto Almeida, reagiu pela manhã dizendo que a TLP traz sim previsibilidade às empresas e vai permitir a redução dos juros no País.

Diante da repercussão, Rabello negou que haja divergências dentro da equipe econômica. “Digo taxativamente que estamos completamente alinhados. Acabei de falar com o Ilan (Goldfajn, presidente do BC), inclusive debati com ele o fato de que a MP é para ser debatida. Eventuais ajustes podem ser feitos, para isso tem deputado, emenda. Se não, seria uma coisa autoritária”, disse ao Estadão/Broadcast.

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Todo o corpo diretor do BNDES foi indicado pela ex-presidente Maria Silvia Bastos Marques, que pediu demissão em maio, e mantido pela atual gestão. Carrasco era diretor de Planejamento e Pesquisa, e Coutinho atuava como diretor da Área de Crédito e da Área Financeira Internacional. Os dois foram os mentores intelectuais da proposta da TLP.

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