Leo Lara/Fiat Chrysler
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ESG

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Após dois meses de queda, produção industrial sobe 7% em maio

Resultado se deve à base de comparação baixa de abril e já reflete a flexibilização das medidas de isolamento contra o coronavírus; na comparação com maio de 2019, a indústria teve retração de 21,9%

Daniela Amorim, Cícero Cotrim e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2020 | 09h14
Atualizado 03 de julho de 2020 | 09h59

RIO  e SÃO PAULO -  Depois de cair ao menor nível da história em abril, com retração de 18,8%, a produção industrial subiu 7% em maio na comparação com o mês anterior, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira, 2. O resultado foi beneficiado pela base de comparação baixa e pela flexibilização das medidas de isolamento social contra o coronavírus em algumas partes do País.

“É natural esse crescimento (de maio) em função de o mês de abril ter sido muito caracterizado por uma interrupção e paralisações de plantas produtivas. Então, com a volta da produção em maio, mesmo que de forma parcial, isso tem algum tipo de acréscimo em relação aos meses anteriores”, justificou André Macedo, gerente na Coordenação de Indústria do IBGE.

O crescimento ainda foi insuficiente para reverter a queda de 26,3% acumulada nos meses de março e abril. Com isso, o setor fabril permanece no segundo patamar mais baixo desde o início da série histórica da Pesquisa Industrial Mensal, 34,1% abaixo do nível recorde alcançado em maio de 2011.

“Mesmo considerando esse crescimento mais intenso observado em maio, mesmo considerando o espalhamento entre as atividades, ainda assim o setor industrial tem um espaço importante a percorrer para zerar essas perdas do período da pandemia da covid-19”, ressaltou Macedo.

O pesquisador do IBGE lembra que a indústria operava em maio 21,2% abaixo do patamar em que estava no mês de fevereiro, antes que tivesse início no País a crise sanitária provocada pela pandemia do novo coronavírus.

De abril para maio, houve aumento na produção em 20 das 26 atividades industriais pesquisadas. As influências positivas mais relevantes foram de veículos automotores (244,4%), derivados do petróleo e biocombustíveis (16,2%) e bebidas (65,6%). As três atividades representam juntas um quarto da indústria.

A despeito da expansão recorde na fabricação de veículos automotores, o setor automobilístico ainda opera 72,8% abaixo do patamar de fevereiro, período pré-crise. “A indústria automobilística praticamente paralisou sua produção no mês anterior (abril)”, justificou Macedo.

Na comparação com maio de 2019, a indústria brasileira ainda teve uma queda de 21,9%, com perdas em 22 dos 26 ramos industriais. Para 2020, analistas preveem uma retração mediana de 9,8% na produção industrial, o que seria a mais intensa da história.

E esse quadro não deve mudar substancialmente nos próximos meses. As projeções preliminares na comparação com o mesmo período do ano anterior indicam queda na produção até março de 2021, embora em magnitude menor.

"Nossa recuperação vai ser muito lenta", diz a economista-chefe da gestora de recursos Reag Investimentos, Simone Pasianotto, citando a situação da pandemia de coronavírus no País, que ainda não se estabilizou. "A produção industrial é a atividade que tem a engrenagem mais morosa, porque precisa que a demanda se consolide, que os pedidos se formalizem, para investir e aumentar a produção", acrescenta a economista, que prevê encolhimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 7,3% este ano.

A pesquisadora Mayara Santiago, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), diz que é possível que o setor esteja deixando para trás os efeitos mais negativos da crise, mas a perspectiva é de uma recuperação tímida.

"Talvez estejamos começando a sair do olho do furacão, mas o nível de produção continua muito depreciado em maio. Todos os indicadores que temos sinalizam uma leve recuperação, mas com índices ainda muito fracos", resume a economista.

De acordo com Mayara, a tendência é de que as taxas interanuais sem tornem cada vez menos negativas ao longo dos meses, mas é certo que o País terá um saldo negativo de produção industrial no ano. No segundo trimestre, o Ibre já estima contração histórica de 19,80% na produção industrial em termos interanuais, o que levaria a uma retração de 15,3% no PIB da indústria e de 11,5% no PIB brasileiro como um todo.

Para o ano, o Ibre espera retração de 10,2% no volume da produção industrial. O efeito é uma retração de 7,2% no PIB industrial, puxado em especial pela queda da indústria da transformação (-11,5%), e um encolhimento de 6,4% no PIB geral.

Para André Macedo, do IBGE, a manutenção da flexibilização das medidas de isolamento social no combate à covid-19 pode levar a algum tipo de melhora da produção industrial no País nos próximos meses.

“Uma maior flexibilização pode se traduzir em resultado melhor à frente, mas sempre tendo a ressalva de que é um crescimento que se dá sobre uma base de comparação depreciada”, ressaltou Macedo.

No caso de uma eventual piora da crise sanitária e necessidade de novo endurecimento das medidas de isolamento, o fechamento de plantas industriais poderia novamente ter reflexos sobre a produção, lembra o pesquisador.

“(A indústria) Pode ter também problemas de natureza de demanda menor do âmbito doméstico. Com os dados do mercado de trabalho, com contingente importante de pessoas fora dele, o ritmo da produção também vai estar diretamente associado à dinâmica desse demanda doméstica. E tem a questão do mercado externo, as exportações, para onde (a indústria) vai escoar a produção. São vários fatores que podem de alguma forma acelerar ou evitar a recuperação dessa produção industrial”, alertou Macedo.

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