DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Após duas quedas, serviços sobem 2,4% em novembro, aponta IBGE

Na comparação com novembro de 2020, houve alta de 10%

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2022 | 09h14
Atualizado 13 de janeiro de 2022 | 12h42

RIO - O setor de serviços mostrou reação em novembro, recuperando as perdas dos dois meses anteriores de retração. O volume de serviços prestados no País cresceu 2,4% em relação a outubro, alta mais intensa para esse período do ano dentro da série histórica da Pesquisa Mensal de Serviços, iniciada em 2011 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O bom desempenho surpreendeu até mesmos os analistas mais otimistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que previam desde uma queda de 1,0% a uma alta de 1,5%, com mediana positiva de 0,1%. 

"Caminha para ter fechado 2021 com uma cara muito melhor do que entrou o ano", disse Gustavo Cruz, economista e estrategista da RB investimentos.

Cruz vê nos dados uma perspectiva favorável para 2022, lembrando que a pandemia de covid-19 gerou desconfiança na população e medidas restritivas ao funcionamento de estabelecimentos, o que resultou em demanda reprimida.

"Quando há abertura e as pessoas se sentem seguras, vão atrás para consumir serviços", opinou o estrategista da RB Investimentos.

Por enquanto, a recuperação do setor de serviços tem sido turbinada por segmentos não presenciais e pela demanda de empresas, afirmou Rodrigo Lobo, gerente da Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE.

“Não são serviços de caráter presencial. As atividades que tiveram melhor desempenho (ao longo da pandemia) são as que não tiveram necessidade de prestação presencial”, avaliou.

Na passagem de outubro para novembro, quatro dos cinco setores investigados avançaram: informação e comunicação (5,4%), transportes (1,8%), serviços prestados às famílias (2,8%) e outros serviços (2,9%). A única queda foi a do setor de serviços profissionais, administrativos e complementares (-0,3%).

A melhora fez o setor de serviços superar em 4,5% o nível de funcionamento de fevereiro de 2020, antes do agravamento da crise sanitária.

“Os serviços presenciais ainda não operam nenhum deles em patamar superior ao pré-pandemia”, ponderou Lobo. “Os serviços voltados para as empresas que têm aproveitado oportunidades possibilitadas pela pandemia”, completou.

Em novembro, os transportes passaram a operar 7,2% acima do nível pré-pandemia, de fevereiro de 2020, enquanto os serviços prestados às famílias ainda estavam 11,8% abaixo. Os serviços de informação e comunicação estão 13,7% acima do pré-pandemia, mas o segmento de outros serviços está 2,5% aquém. Os serviços profissionais e administrativos estão 4,2% abaixo do patamar de fevereiro de 2020.

Os motores da recuperação do setor de serviços como um todo são os subsetores de tecnologia da informação, transporte e armazenamento de mercadorias, além de serviços financeiros, enumerou Lobo.

“Boa parte do bom desempenho do setor de serviços está atrelada ao dinamismo desse segmento de tecnologia de informação, que ocorre desde maio e junho de 2020. As empresas se viram obrigadas a acelerar seus processos de digitalização”, lembrou o pesquisador, acrescentando que o segmento teve um aumento de receita mais acelerado ao atender uma demanda de empresas “que viram necessidade de mudar a forma de atender seu mercado consumidor”.

Já o “boom” do comércio eletrônico impulsionou o segmento de transporte, logística e armazenamento de cargas, enquanto os serviços financeiros foram incentivados pela renda extra de famílias de classe média e alta, que migraram da poupança para investimentos mais rentáveis.

“Agora (intermediação financeira) vem perdendo um pouco de força em 2021, mas eu diria que é a terceira força de destaque para o setor de serviços no contexto da pandemia”, apontou Lobo.

Segundo o gerente do IBGE, a manutenção do trabalho remoto e as condições sanitárias ainda difíceis impedem uma recuperação plena dos serviços prestados às famílias. Após oito meses de avanços consecutivos, os serviços prestados às famílias acumulam um crescimento de 60,4%, mas ainda não voltaram ao nível pré-covid.

“As pessoas que permanecem trabalhando dessa forma (remotamente), antigamente, elas poderiam almoçar fora, perto de seu local de trabalho. Talvez agora elas ainda consumam mais em supermercado para almoçar dentro de casa do que em restaurante. Ainda tem um deslocamento do consumo. Essa devolução de supermercados aos restaurantes ainda não está completa. Ainda há pessoas com a maior parte da sua renda direcionando aos supermercados em detrimento da alimentação fora do domicílio”, exemplificou.

Por ora, questões como a queda no rendimento obtido do trabalho, elevado nível de desemprego e inflação alta ainda não afetam os serviços às famílias, mas podem ser limitadores adiante, opina Lobo. “Por enquanto ainda não é, porque (a atividade de serviços às famílias) está crescendo em cima de taxas positivas”, frisou.

Passado o choque inicial provocado pela pandemia de covid-19, que provocou um tombo de 8,3% no volume de serviços prestados no País em 2020, o setor pode ter em 2021 um crescimento recorde na série histórica, que nesse tipo de comparação começa em 2012.

“Se tivermos um crescimento de ao menos de 1% em dezembro (de 2021) na comparação interanual (ante dezembro de 2020), a gente fecha o ano com crescimento de 10%, dois dígitos, que será a taxa mais elevada da série”, calculou Lobo.

No entanto, a nova onda da pandemia provocada pela variante Ômicron tem potencial para frear o ritmo de recuperação de serviços presenciais em geral.

“Teve cancelamento de voos, interrupção de cruzeiros marítimos. Isso tende a trazer reflexos negativos para esses serviços investigados. Uma eventual redução de ritmo de consumo de alimentação fora de casa, em restaurante, porque pode ser que as pessoas fiquem mais receosas. Cancelamentos de hospedagem, afetando o setor de hotelaria”, enumerou Lobo. “É claro que a probabilidade de acontecer é clara, evidente. A magnitude que isso vai acontecer a gente ainda vai ter que mensurar”, acrescentou.

Para o economista Eduardo Vilarim, do Banco Original, a tendência para 2022 é positiva para o volume de serviços como um todo, mesmo diante da variante Ômicron.

“A variante é muito mais contagiosa, mas não tende a causar muito mais hospitalizações e mortes. Isso faz com que não haja aumento das restrições à mobilidade, o que é bastante positivo para o setor”, argumentou Vilarim, que prevê manutenção d a trajetória de recuperação dos serviços prestados às famílias ao longo de 2022, devido ao aumento na demanda das famílias por serviços presenciais.

O Banco Original projeta alta de 4,5% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2021, além de uma estabilidade no resultado do quarto trimestre. Para o ano de 2022, a estimativa é de expansão de 0,5%, mas ainda sujeita a revisão para baixo. / COLABORARAM MARIA REGINA SILVA E MARIANNA GUALTER 

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