Após escândalo do FGC, BB assume carteiras de crédito do Cruzeiro do Sul

Novo administrador. Banco, dono do maior volume de empréstimos com desconto em folha, substituirá a IMS Tech, que teve o contrato rompido após denúncia de favorecimento; Além do BB, operações foram adquiridas por Caixa, Bradesco, Banrisul e Banestes

Murilo Rodrigues Alves, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2013 | 03h30

BRASÍLIA - As carteiras de crédito consignado do banco Cruzeiro do Sul - liquidado desde setembro de 2012 pelo Banco Central (BC) - passarão a ser administradas pelo Banco do Brasil. A instituição oficial vai substituir a IMS Tech, que teve o contrato rompido após denúncia de favorecimento.

O Estado apurou que o liquidante do Cruzeiro do Sul, Eduardo Félix Bianchini, escolheu o BB pela experiência que o banco possui com esse tipo de operação. Hoje, é o banco brasileiro com o maior volume de empréstimos com desconto em folha de pagamento.

Também pesou o fato de o BB ser, entre as instituições financeiras, a que comprou a maior parte das carteiras do Cruzeiro do Sul, que juntas podem chegar ao valor aproximado de R$ 4 bilhões. Além do BB, as operações foram adquiridas pela Caixa Econômica Federal, pelo Bradesco e pelos estatais Banrisul (Rio Grande do Sul) e Banestes (Espírito Santo). Quando se analisa todos os compradores, porém, a maior parcela foi comprada pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que detinha mais de 70% das carteiras.

O Fundo e os outros bancos depositaram nas mãos do BB a difícil missão de conseguir recuperar as parcelas não pagas dos empréstimos, com a cobrança dos inadimplentes e o direcionamento das parcelas às instituições credoras.

O agravante é que algumas dessas operações foram desmembradas, isto é, uma mesma carteira foi vendida para duas instituições diferentes, sendo que as primeiras parcelas pertencem a um banco e o restante, a outro. A prática não é proibida pelo BC, mas tornou-se um impedimento para que cada instituição renovasse as operações que comprou do Cruzeiro do Sul, uma vez que dois bancos distintos teriam que negociar com o mesmo devedor.

Pelo trabalho, o BB cobrará menos de R$ 0,11 por contrato de crédito conciliado, valor que cobrava a IMS Tech. Isso será possível por causa do ganho de escala: como tem um volume elevado de renovações desse tipo de operação, o custo para fazer a administração dessas carteiras diminui. O atual liquidante do Cruzeiro do Sul conta com a experiência e as ferramentas que o BB possui para conseguir um bom termo nessas conciliações.

Além de tentar restaurar a "credibilidade do sistema" consignado, o banco público também assumiu essa responsabilidade porque precisa recuperar cerca de R$ 500 milhões dos contratos que comprou do Cruzeiro do Sul.

Pente-fino. A primeira função do BB assim que assumir essa atividade é avaliar todo o trabalho feito pela IMS Tech, que foi colocada em suspeita após denúncia publicada pela revista Época. Segundo a publicação, os acionistas dela foram sócios de Celso Antunes em outra empresa, um mês antes deste assumir a diretoria executiva do FGC. Ou seja: no comando do FGC, Antunes teria favorecido a IMS. Ele e um diretor, José Lattaro, pediram demissão após a publicação da reportagem.

O BB pode contribuir com a sua experiência para solucionar a celeuma que envolveu, inclusive, a diretoria do BC. Segundo denúncias da revista, negadas pela autoridade monetária, os diretores do BC e o presidente da instituição, Alexandre Tombini, sabiam que os diretores do FGC favoreciam os ex-sócios nesses negócios.

Procurado, o BB informou que não pode se manifestar pelo sigilo comercial que cerca a operação. Além disso, a instituição está em período de silêncio, antes de divulgar o balanço do terceiro trimestre deste ano.

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