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Cenário externo derruba os mercados

Bolsa ensaiou alta e dólar queda após vitória de Bolsonaro, mas reflexos de Wall Street apagaram euforia; Bolsa recuou 2,24% e dólar subiu

Anna Carolina Papp, Paula Dias e Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2018 | 09h36
Atualizado 29 Outubro 2018 | 22h23

O primeiro pregão da Bolsa após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) como próximo presidente da República foi uma verdadeira montanha-russa. O Índice Bovespa iniciou o dia apontando euforia, com alta de mais de 3%. Porém, foi perdendo força com a realização de lucros dos investidores, intensificada pelo aumento da aversão ao risco no exterior. Com isso, a Bolsa fechou a 83.796,71 pontos, com queda de 2,24%. Já o dólar, que chegou a cair para R$ 3,58, avançou 1,36%, cotado a R$ 3,70.

Tamanha foi a volatilidade ao longo do dia que o Ibovespa oscilou em um intervalo de nada menos que 5.594 pontos. Na máxima, quando os investidores repercutiam a vitória de Bolsonaro, o índice chegou aos 88.377 pontos (+3,10%). Na mínima, sob forte influência do mercado internacional, cedeu para os 82.783 pontos (-3,43%).

Em Wall Street, as bolsas caíram em meio a informações de que os Estados Unidos se prepararam para impor mais sanções a US$ 257 bilhões em importações chinesas no início de dezembro. “Os investidores internacionais ficaram receosos com a possibilidade de aumento das tarifas de importação dos Estados Unidos em relação à China. Isso pesou nos mercados internacionais como um todo – e pressionou aqui também”, afirma Celson Plácido, estrategista-chefe e sócio da XP Investimentos.

Além disso, outro motivo para a Bolsa ter “virado”, como diz o jargão do mercado, foi a realização de lucros: como a Bolsa havia subido muito em outubro, impulsionada pelo otimismo com a liderança de Bolsonaro na corrida presidencial, muitos investidores aproveitaram para vender ativos e embolsar os do lucros no período. Assim, com o aumento da oferta, a Bolsa cai.

“Depois de uma abertura mais forte, o mercado passou a realizar lucros, em um movimento iniciado pelos investidores que haviam montado posições compradas na última semana, principalmente na sexta-feira, se antecipando à vitória de Bolsonaro”, disse Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença Corretora.

Antes da abertura do mercado, com base desempenho dos fundos de índice (ETFs) brasileiros nas bolsas estrangeiras – e até do Ibovespa futuro –, Plácido, da XP, acreditava que a Bolsa poderia subir cerca de 5%. “Investidores externos de olho em mercados emergentes realizaram os lucros. Outro ponto é que parte da vitória de Bolsonaro já estava precificada nos ativos”, observa.

Reformas

Segundo especialistas, passada a vitória de Bolsonaro, o desempenho do mercado financeiro estará muito ligado ao detalhamento de sua pauta econômica, sobretudo em relação ao equilíbrio das contas públicas. Ontem, duas agências de classificação de risco, Moody’s e Fitch, alertaram para a necessidade de reformas em 2019, sobretudo para o ajuste fiscal.

A analista para mercados emergentes do Commerzbank, You-Na Park, avalia que os investidores podem ter ficado otimistas demais com o cenário para o governo de Bolsonaro e agora pode haver espaço para alguma decepção. Ela prevê uma pausa no rali recente no câmbio no Brasil e acredita que o dólar pode ir a R$ 3,90 nas próximas semanas, em meio a dúvidas sobre a agenda de medidas do presidente eleito.

Já Martin Iglesias, especialista em investimentos do Itaú Unibanco, permanece otimista: acredita que o mercado “tem um bom espaço para andar”, desde que se comece a dar o detalhamento das propostas e a indicação de nomes para a equipe econômica. A instituição projeta dólar a R$ 3,70 no final de 2018 e R$ 3,80 ao fim de 2019. Divergindo um pouco de outras casas, o Itaú espera da Selic em 6,5% ao ano ao final do ano que vem.

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