Marcos Brindicci/Reuters
Marcos Brindicci/Reuters

Peso argentino tem desvalorização de 30%

Após quatro anos de restrições impostas por Cristina, dólar foi vendido a 14 pesos; no último dia de controle, estava em 9,87 pesos

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2015 | 12h55

BUENOS AIRES - No primeiro minuto de dólar livre após quatro anos de restrição do kirchnerismo, a moeda americana apareceu nos mostradores das casas de câmbio do centro de Buenos Aires, às 10 horas, vendida a 15 pesos. Fechou o dia em 14 pesos (13,95 no Banco La Nación), uma desvalorização de cerca de 30% em relação a quarta-feira, quando o dólar oficial estava em 9,87 pesos.

Embora tenha sido considerado uma dia tranquilo para a expectativa que havia, houve problemas práticos nas transações. No centro de Buenos Aires, em pelo menos três casas de câmbio funcionários alegaram que não podiam vender a moeda americana. “O sistema ainda não foi adaptado, não recebemos uma comunicação formal do Banco Central com o limite que cada um poderá comprar”, alegou Ariel Gutiérrez, funcionário de uma delas. 

O sistema funcionava para quem queria trocar dólares por pesos. Nesse caso, cada dólar era comprado por 13,50 pesos no meio da tarde desta quinta-feira. Os cambistas de rua ainda pagavam 14 pesos por dólar. “Se alguém quiser comprar US$ 10 mil temos lá dentro em estoque, o problema é que não sabemos o limite”, disse Gutiérrez.

Segundo o anúncio feito na quarta-feira pelo ministro da Fazenda, Alfonso Prat-Gay, o limite que o funcionário alegava não conhecer é de US$ 2 milhões mensais para pessoas físicas e jurídicas. Na prática, parte dos bancos e casas especializadas queria apenas comprar dólares, não vendê-los. “É como se fosse feriado cambiário. Recebi ordem para não trocar nada enquanto não soubermos direito a cotação”, afirmou o empregado de outra casa especializada, que preferiu não se identificar. 

Problemas semelhantes, decorrentes da instabilidade da cotação liberada após quatro anos, foram testemunhados também por jornais locais. As transações feitas por meio de contas bancárias bancos, sem troca em dinheiro vivo, funcionaram melhor.

“O mercado ainda não funciona com fluidez. Muitos dos que foram comprar encontraram problemas, assim como os exportadores. O preço real vamos ver em 30 dias”, disse Martín Redrado, ex-presidente do Banco Central, ao canal TN. 

Flutuação suja. O governo de Mauricio Macri adotará um sistema de câmbio flutuante sujo, com intervenção do BC. A principal ferramenta de regulação será a taxa de juros, que nos últimos dias subiu para 38% por ano. Essa é a maior crítica de Redrado ao plano. “Não devemos usar só a taxa de juros para controlar, isso seria um esquema muito financeiro”, avaliou, preocupado com o impacto da desvalorização na inflação, de 25% segundo consultorias. Segundo especialistas, a manutenção da alta taxa de juros por muito tempo tende a estimular uma recessão. 

O fim da limitação para compra e venda de dólar era a principal promessa de Macri, que assumiu a Casa Rosada no dia 10. Ele defendia a aplicação da medida já no primeiro dia de seu mandato. A liberação dependia de empréstimos conseguidos com bancos estrangeiros e bancos centrais de outros países. A adequação deve atingir importadores, exportadores e turistas, mesmo que boa parte deles já recorresse o mercado paralelo.

Medida. Ao fazer o anúncio, Prat-Gay estimou um ingresso de US$ 25 bilhões no BC no próximo mês. As reservas oficialmente eram de US$ 24,4 bilhões nesta quinta-feira, 17, consideradas baixas por economistas. 

Além dos bancos estrangeiros, o governo de Macri esperava ajuda de empresários, que adiantaram investimentos, e empresas agrícolas que liquidarão nas próximas três semanas US$ 6 bilhões em grãos estocados. O governo ainda negociou com o BC chinês para transformar yuanes de um swap feito pelo governo anterior em dólares. Prat-Gay evitou o termo desvalorização, dizendo que o kirchnerismo depreciou em 230% o peso e as reservas do BC caíram à metade. 

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