Após fracasso de Doha, Índia e EUA negam ruptura

Para ministro indiano Kamal Nath, existe 'pausa'; Americana fala em 'reflexão'.

Márcia Bizzotto, BBC

30 de julho de 2008 | 14h39

Após o fracasso na Rodada Doha, representantes da Índia e dos Estados Unidos disseram que não querem perder o foi discutido em Genebra durante nove dias e negaram que tenha havia uma ruptura no processo. As divergências entre os dois países foram apontadas como o principal motivo para o fim das negociações. O ministro de Comércio da Índia, Kamal Nath, pediu que a suspensão das negociações seja tratada "como uma pausa, não uma ruptura", enquanto que a representante comercial dos Estado Unidos, Susan Schwab, defende que a rodada passe por um "período de reflexão"."Provavelmente jogamos a bola mais longe nos últimos dez dias que nos últimos oito anos. Não é uma boa idéia abandonar o acordo", afirmou Schwab, que prometeu transmitir essa opinião a Lamy. "Enquanto isso, os Estados Unidos mantêm suas ofertas. Se outros estiverem preparados para ir em frente e responder a essas ofertas, aqui estaremos."Ao entrar na sala de imprensa para dar sua coletiva, o indiano Nath cruzou com a americana e lhe disse algumas palavras. Em seguida, o ministro indiano afirmou aos jornalistas que ambos os negociadores estão dispostos a seguir negociando suas diferenças. "Convidei ela para almoçar logo mais."DecepçãoAs negociações da Rodada Doha foram oficialmente encerradas na terça-feira após mais de cem horas e nove dias de intensas reuniões. O principal problema foi a divergência entre Estados Unidos e Índia em relação a um mecanismo de salvaguarda, previsto no acordo, que permitiria aos países em desenvolvimento subir tarifas aduaneiras para se proteger de um surto de importações que possa prejudicar sua segurança alimentar.O fim das negociações, que se pressentia no clima tenso que predominava na sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), foi anunciado pelo diretor-geral da instituição, Pascal Lamy. "Foi um fracasso coletivo, mas as conseqüências não serão as mesmas. Para os países em desenvolvimento, a perda desse acordo significa perder uma oportunidade de conseguir que os subsídios internos nos países ricos fossem revisados", afirmou o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson. A seu lado na sala de imprensa, a comissária européia de Agricultura, Marianne Fischer-Boel, visivelmente emocionada, sentenciou que "o mundo será mais imprevisível sem esse acordo".Mandelson destacou o trabalho de sua equipe a favor do acordo e lembrou que enfrentou muitas críticas dentro de casa em relação às concessões que fez com o objetivo de facilitar o acordo e elogiou a postura do ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, nas negociações. Ao lamentar "profundamente" o resultado dessa semana de trabalho, o chanceler brasileiro defendeu que "se há um país que está fora desse jogo de culpa (pelo fracasso), esse país é o Brasil"."O Brasil fez tudo o que podia para permitir esse acordo, inclusive abriu mão de interesses que eram seus. Estávamos dispostos a ceder mesmo em um tema que é de nosso interesse, como as salvaguadas", afirmou Amorim. "É um absurdo que tudo tenha acabado por uma questão de números (que definem as condições para a aplicação das salvaguardas)."O ministro evitou apontar culpados para o naufrágio das negociações e disse que estava disposto a aceitar o que quer que fosse decidido entre Estados Unidos e Índia.Para Pascal Lamy o fracasso foi "decepcionante", mas não foi completo."Tínhamos 20 temas para acertar, conseguimos fazê-lo com 18 e fracassamos ao chegar ao décimo nono. Se chegamos a acertar 18 temas, ficamos com esse material acumulado sobre a mesa para o futuro", insistiu.O diretor-geral da OMC não mencionou o vigésimo tema: os subsídios americanos ao algodão, que poderiam ter sido os responsáveis pelo fim das negociações se o Grupo dos Sete tivesse conseguido superar a questão das salvaguardas.Lamy afirmou que continuará "investindo na criação de um sistema comercial mundial melhor" e que tentará retomar a rodada, mas admitiu que ainda não sabe quando, nem como.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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