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Após impeachment, novo ‘salto’ da Bovespa só deverá vir com reformas

À espera da aprovação de mudanças na economia, investidores devem ficar mais cautelosos; setores financeiro e de infraestrutura lideram indicações

Karin Sato, Hugo Passarelli e Natália Cacioli, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2016 | 05h00

Embalada pela expectativa de mudança de governo, a Bolsa brasileira voltou a subir em 2016 depois de amargar perdas por três anos consecutivos. Concretizada a saída de Dilma Rousseff da Presidência e a entrada de Michel Temer, a valorização das ações deve ser mais gradual e se concentrar em apenas alguns segmentos, como infraestrutura e setor financeiro. Um novo salto generalizado nas cotações deve vir só se as reformas pretendidas por Temer avançarem, avaliam analistas.

Além da espera por mudanças na economia real, os investidores devem ficar cautelosos até outubro, quando serão realizadas as eleições municipais. “Nesse período, o mercado vai olhar muito mais para o Banco Central, com a divulgação do Relatório de Inflação, para os juros nos EUA e também para tudo o que o governo puder fazer sem depender do Congresso”, afirma Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Investimentos.

O presidente da Magliano Corretora, Raymundo Magliano Neto, engrossa esse coro e se diz mais pessimista do que a média do mercado. “Nossa expectativa mudou um pouco, a Bolsa não deve ter crescimento relevante até que o Congresso mostre que está mais coeso”, afirma. A corretora está revendo sua projeção para o Ibovespa, o principal índice da Bolsa, hoje de 60 mil pontos ao fim do ano, possivelmente para baixo. 

Segundo Magliano, outra indicação de que é hora de esperar e observar as negociações políticas é a resistência dos investidores estrangeiros em voltar em peso para a Bolsa. “Setembro seria a época de os estrangeiros reavaliarem suas as carteiras. Percebo que eles estão olhando no longo prazo e só vão tomar essa atitude se essas reformas passarem”, diz.

O analista da Quantitas Marcel Kussaba diz que todas as empresas serão beneficiadas por uma possível virada da economia. As companhias que estão muito endividadas, no entanto, podem ser favorecidas duas vezes. Isso porque devem se beneficiar da possível queda da taxa básica de juros, a Selic, bem como podem ser bem-sucedidas na venda de ativos. “Petrobrás e Cemig são alguns exemplos.”

A expectativa dos analistas e gestores do mercado é de que o governo interino reduza o tamanho do Estado, com a aprovação, num primeiro momento, da PEC que limita o crescimento dos gastos do governo e da reforma da Previdência.

É incerto se essas medidas terão o aval do Congresso, mas a melhora da confiança do empresariado e consumidores já deve impulsionar os investimentos.

Nesse processo, o setor industrial deve ser um dos que responderá melhor, opina o gestor de ativos da América Latina e Estados Unidos da GBM, Gilberto Tonello. Mas considerando que as ações da Randon, da Iochpe-Maxion e da Marcopolo acumulam valorização expressiva, há o risco de o mercado já ter antecipado a virada na economia, deixando pouco espaço para a valorização dos papéis.

Tonello, contudo, ainda vê espaço para as ações de indústrias subirem. “Em termos de EV/Ebitda (múltiplo valor da empresa sobre Ebitda, uma medida para avaliar a atratividade de um papel), as ações estão caras, porque muitas companhias seguem apresentando resultados ruins, com Ebitda fraco”, diz. “Mas quando houver recuperação do Ebitda, ainda acredito que muitas empresas terão um ganho”. O gestor lembra ainda que, ao analisar gráficos de cinco anos, verifica-se que muitas ações ainda não voltaram aos patamares anteriores.

Plácido, da XP Investimentos, vê uma possível valorização nos setores de infraestrutura e financeiro. “No setor financeiro, a inadimplência deve ficar menor e o crédito avançar. Os bancos ganham dinheiro quando os juros caem. O custo da dívida tende a cair e o spread bancário - diferença entre o custo do dinheiro para o banco e quanto ele cobra do consumidor - deve aumentar”.

Ele indica as ações de Itaú Unibanco e Banco do Brasil. No caso da ação do BB, por exemplo, há uma visão geral de que segue descontada, ou seja, negociada abaixo do que realmente vale.

Alguns gestores, porém, acreditam que os papéis dos bancos privados já subiram demais. Para o investidor, essa divergência indica cautela na hora de escolher entre essas empresas.

Kussaba, da Quantitas, vê potencial para valorização da Ambev, cujos volumes foram afetados na crise e podem se recuperar com a retomada do consumo interno, diz. Já Tonello, da GBM, vê Petrobrás com bons olhos, a despeito do avanço de 102% no ano (PN). A expectativa é de que o papel seja impulsionado pela venda de ativos, explica. 

Reformas. O sucesso das reformas propostas por Temer não vai guiar só os investimentos em ações. A esperada guinada na economia diante de eventual aprovação dos ajustes nas contas públicas e Previdência Social vai contribuir para queda da taxa básica de juros, estacionada em 14,25% ao ano há 14 meses. 

Apesar da perspectiva de queda do juro, o Tesouro Direto mantém a atratividade. Para Mauro Mattes, gerente de investimentos da Concórdia Corretora, o Tesouro IPCA, que paga uma taxa mais a variação da inflação no período, é o título mais indicado.

Amerson Magalhães, diretor da Easynvest, destaca que ainda é cedo para concentrar as apostas no Tesouro Prefixado, que paga uma taxa definida no momento da compra. “O governo pode não conseguir aprovações este ano e isso pode diminuir o prêmio pago neste título”.

Roberto Indech, da corretora Rico, indica Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio para quem vai resgatar em um prazo mais longo. Com a retomada da demanda por crédito, a emissão dessas letras, que são isentas de IR, pode voltar

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