Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Após inflação elevada em fevereiro, mercado revê projeções

IPCA-15 subiu 1,42% em fevereiro, a maior taxa para o mês desde 2003; analistas irão refazer cálculos para a inflação de fevereiro e março e se dizem desacreditados com a perspectiva do BC de que haja desinflação de dois pontos no primeiro semestre

Álvaro Campos, Francisco Carlos de Assis e Mário Braga, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2016 | 12h33

Depois do Índice de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) de fevereiro vir maior do que o esperado, analistas já recalculam suas projeções para os próximos meses. A inflação do IPCA-15 avançou 1,42% em fevereiro, a maior alta para o mês desde 2003. Com o resultado, a consultoria Tendências afirmou que terá de rever para cima a projeção de alta de 1,05% do IPCA de fevereiro. A RC Consultores também irá fazer novas projeções e diz ter descartado as chances de os preços seguirem a trajetória estimada pelo Banco Central.

A alta em Educação e a desaceleração menor do que o esperado do grupo Alimentação explicam o IPCA-15 de fevereiro acima do esperado, segundo o economista da Tendências Consultoria Marcio Milan. A projeção deles era de 1,16%, mas a inflação foi de 1,42%. Para o IPCA fechado de fevereiro, a Tendências previa 1,05% antes, mas agora deve mudar a projeção. "Esse número vai bem para cima, algo perto de 1,35%", comenta Milan. A previsão para março, de 0,30%, também será elevada, segundo ele.

A RC Consultores revisará para cima sua projeção para o IPCA de fevereiro. "Além de ônibus urbano, com a forte pressão de alimentos observada na leitura de hoje, o IPCA deve ficar acima de 1% em fevereiro", disse o economista. 

Com o resultado do IPCA-15, o mercado ficou mais desacredito nas projeções do BC, que prevê desinflação de dois pontos porcentuais ao longo do primeiro semestre. "É praticamente impossível", afirmou o economista Marcel Caparoz, da RC Consultores, sobre a projeção feita pelo presidente da autoridade monetária, Alexandre Tombini. "Após março, as taxas voltarão a níveis que nos acostumamos a considerar normais, abaixo de 1%, mas que ainda são muito altos", disse o especialista.

Na avaliação de Milan, da Tendências, os dados recentes de inflação mostram que a projeção do Banco Central de que haverá uma desinflação dessa magnitude está cada vez mais difícil de se concretizar. "Para isso acontecer seria preciso um período de números muito favoráveis entre abril e junho, uma conjunção de fatores muito difícil de se concretizar", afirma.

Projeções. O ritmo acelerado da inflação de fevereiro deve diminuir em março, na avaliação do economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal. Os motivos que levaram o IPCA-15 de fevereiro se distanciar da taxa de 0,92% em janeiro já eram conhecidos: pressão de alimentos e dos reajustes das tarifas de ônibus urbanos e das mensalidade escolares. São pressões sazonais que em todos os anos afetam o orçamento das famílias e devem desacelerar em março. "Entretanto, isso não pode ser visto como consolo para um resultado tão alto”, escreveu Souza Leal, porque desde novembro do ano passado o Índice de Difusão não fica abaixo de 70%. Neste mês, a difusão saltou de 75,34% para 77,53%.

“A despeito do grande peso que o grupo alimentação tem nesse cálculo (em torno de 40% dos itens do IPCA são alimentos), esse resultado mostra, indubitavelmente, que a inflação está espalhada”, acrescentou o economista. 

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'A tendência é que, de novo, o ano termine com inflação muito alta' - o economista Marcel Caparoz, da RC Consultores
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De acordo com Caparoz, deve haver algum arrefecimento mais significativo nos preços ao longo do segundo semestre, mas o IPCA de 2016 ficará perto ou acima dos 8%. "A tendência é que, de novo, o ano termine com inflação muito alta", avaliou. O último Boletim Focus mostrou que o mercado acredita numa inflação de 7,62% em 2016, acima portanto do teto da meta do governo (6,5%).

Entre as pressões citadas pelo economista estão os preços dos serviços. "Entre o IPCA-15 de janeiro e a leitura de fevereiro, a inflação de serviços passou de 7,99% para 8,06%. Então, não há nenhum indício forte de que esses preços estejam caindo, o que era esperado com a queda na renda", avaliou.

Para Caparoz, a pressão de custos é tão forte que força o repasse dos preços, apesar da retração da demanda e dos efeitos da alta de juros sobre o consumo interno. "Além disso, você tem o orçamento do governo aumentando em 11%, acompanhando a inflação do ano passado. Então, não adianta você subir juros porque a demanda já está deprimida e a política monetária não influencia os gastos do governo", acrescentou.

Segundo Milan, da Tendências o câmbio também terá um impacto importante na inflação dos próximos meses, sendo que em fevereiro já foi possível observar certo impacto do dólar mais alto. Isso alterou, por exemplo, a sazonalidade favorável que aconteceria em vestuário e artigos de higiene pessoal.

Apesar das surpresas de alta com a inflação neste começo de ano, a Tendências ainda espera corte de juros, prevendo a Selic a 13% em dezembro. Milan explica esse call foi feito depois da decisão da reunião do Copom em janeiro, ao passo que nos últimos dias Tombini e outros diretores disseram que não há espaço para flexibilização da política monetária neste momento. "Ainda esperamos um corte na Selic, mas isso vai depender do que acontecerá com a inflação". Ele prevê alta de 7% no IPCA este ano, mas diz que esse número "tem claro viés de alta". 

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