Raimundo Paccó/FramePhoto - 10/3/2017
Raimundo Paccó/FramePhoto - 10/3/2017

Após nove presidentes, BR-163 segue sem asfalto

Rodovia que vai de Cuiabá a Santarém ainda tem 100 km de trechos de terra

Lu Aiko Otta e André Borges, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2018 | 04h00

BRASÍLIA - O governo de Michel Temer vai terminar sem a conclusão de uma das mais importantes obras de infraestrutura do País: o asfaltamento da BR-163, conhecida como Cuiabá-Santarém.

Essa rodovia, que conecta o centro produtor de grãos aos portos da região Norte, ficou conhecida em todo o País em fevereiro de 2017, quando as chuvas provocaram atoleiros e filas de caminhões carregados de soja. A obra não será concluída até dezembro, segundo admitiu ao Estado o ministro dos Transportes, Valter Casimiro.

Com isso, Temer será o nono presidente da República a deixar o Planalto sem concluí-la. A lista não conta o ex-presidente Emílio Garrastazu Médici, que inaugurou a rodovia em 1973, e Tancredo Neves (1985), que não chegou a assumir o cargo. Desde então, a falta de dinheiro, os problemas com contratos e as condições climáticas ruins já superaram a óbvia necessidade de conclusão da obra nos governos de Ernesto Geisel (1974-1979), João Figueiredo (1979-1985), José Sarney (1985-1990), Fernando Collor (1990-1992), Itamar Franco (1992-1995), Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), Lula (2003-2011) e Dilma Rousseff (2011-2016).

Segundo um cálculo feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em 2013, a conclusão do asfaltamento da BR-163 permitiria uma economia de R$ 1,4 bilhão por ano em custos de transporte. O estudo aponta que a rodovia inverteria a rota de escoamento das exportações de grão dos portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR) para os da região Norte. “Tudo o que foi asfaltado até agora já está sofrendo deterioração”, diz o secretário-executivo do Conselho de Infraestrutura da CNI, Wagner Cardoso.

Além do intenso tráfego de caminhões pesados, o trecho da rodovia mais importante para o escoamento do agronegócio está em uma região de muita chuva. Ele defende que o governo faça um contrato de longo prazo para a manutenção da via.

Depois de mais de 40 anos desde sua inauguração, a BR-163 ainda tem perto de 100 km de terra. “O trecho que deu problema no ano passado será entregue este ano”, informou Casimiro. “O trecho que está com o Exército, não.”

São perto de 60 km de estrada, na região de Moraes de Almeida (PA), cujas obras foram assumidas pela Força Nacional depois que a empreiteira contratada para o serviço saiu. Essa foi a solução mais ágil para o problema, explicou o ministro. A expectativa é que o asfaltamento desse trecho fique pronto em 2019.

Orçamento

“Não falo como ministro, mas como técnico do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes): ficarei muito orgulhoso quando vir a 163 e a 319 pavimentadas”, disse Casimiro. A BR 319 liga Manaus a Porto Velho e ainda tem trechos de terra.

O governo encaminha ao Congresso, na próxima semana, a proposta de Orçamento para 2019. O valor prometido não é suficiente para fazer a manutenção de toda a malha rodoviária. O Dnit terá R$ 6,8 bilhões, mas precisaria de R$ 10 bilhões para manter a totalidade das rodovias federais em bom estado e fazer investimentos.

Relembre

Promessas de pavimentação da BR-163 se arrastam há vários governos:

1973. Dentro do Plano de Integração Nacional (PIN), Emílio Garrastazu Médici inaugurou a rodovia para ligar o Norte ao Centro-Oeste e Sudeste.

1999. O governo FHC planejou pavimentar toda a BR-163, mas não cumpriu a promessa.

2004. No governo Lula, a atual candidata a presidente Marina Silva (PSB), na época ministra do Meio Ambiente, começou a esboçar o “BR-163 Sustentável”, mas a pavimentação também não saiu do papel.

2009. No segundo governo de Lula, a rodovia foi incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), foram licitados nove trechos pequenos para a pavimentação.

2014. Dilma Rousseff concedeu outros trechos e injetou recursos por meio do PAC. Mas no fim do primeiro mandato, acaba o dinheiro. 

2017/2018. Michel Temer colocou o Exército para asfaltar 60 km, depois que a empresa contratada desistiu. A obra só será entregue em 2019.

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