Após PIB ‘forte’, economistas temem queda no 3º trimestre

Com uma base de comparação mais elevada, após a alta de 1,5% no segundo trimestre, os analistas já projetam uma contração na atividade econômica de julho a setembro

Fábio Alves, Agência Estado

30 de agosto de 2013 | 16h59

Depois da surpresa do Produto Interno Bruto (PIB), que apresentou expansão de 1,5% no segundo trimestre ante os primeiros três meses deste ano, é cada vez maior o número de analistas que, em razão do efeito estatístico e também por fatores como estoques mais elevados na indústria, estão agora projetando contração na atividade econômica entre julho e setembro.

Por outro lado, há alguns analistas que já revisaram publicamente as suas estimativas para o PIB do ano inteiro em razão do melhor desempenho do resultado do segundo trimestre, divulgado hoje pelo IBGE. Foi o caso do banco Goldman Sachs. O economista-chefe para América Latina do banco, Alberto Ramos, elevou a projeção de crescimento para a economia brasileira em 2013 de 2,3% para 2,7%, informou o correspondente do Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, em Nova York, Altamiro Silva Júnior.

Segundo um economista brasileiro também baseado em Nova York, as revisões dos trimestres anteriores mais a surpresa do segundo trimestre deste ano aumentam o carrego para o resto do ano. "Assim, o PIB cresceria 2,5% em 2013 dado o nível atual e supondo o terceiro e o quarto trimestres estáveis", afirmou.

Contudo, disse o economista, o PIB do terceiro trimestre deve ser negativo. "Então, talvez revise minha projeção atual (abaixo de 2,5%) um pouco pra cima, mas nada muito dramático", explicou. Para ele, a questão crucial que talvez mude os planos para a política monetária é o terceiro trimestre. "Ainda não temos dados concretos (para o terceiro trimestre) a não ser a significativa deterioração na confiança, também apontando para aumento de estoques", explicou.

 

Já um economista-chefe de uma grande instituição financeira ressalta o fato de que o consumo das famílias teve outro desempenho fraco no segundo trimestre em contraste com um bom desempenho da indústria.

Conforme o IBGE, o PIB da indústria subiu 2% no segundo trimestre contra o primeiro trimestre deste ano. Na comparação com o segundo trimestre de 2012, o PIB da indústria mostrou alta de 2,8%. Já o consumo das famílias registrou alta de 0,3% no segundo trimestre ante o primeiro trimestre do ano, quando havia tido crescimento zero sobre os últimos três meses de 2012.

"A economia estava acelerando no primeiro e segundo trimestres, em particular sob a ótica da produção industrial, mas o consumo das famílias não acompanhou isso", disse a fonte acima. "Então no primeiro e segundo trimestres a indústria se empolgou, achando que a economia estava em recuperação, mas a demanda não veio e, agora, acumulou-se um nível elevado de estoques". Esse economista prevê que, no início do terceiro trimestre, a indústria pisou no freio, tanto que a produção industrial de julho estimada por ele é de uma queda maior do que 1%.

Sobre o resultado do PIB divulgado hoje, um renomado economista de banco estrangeiro disse que, além do "headline" (número principal do indicador) positivo, a composição foi muito boa, com investimentos fortes e consumo bem contido. Ele destaca ainda que o setor externo também contribuiu bem, com crescimento das exportações e freada nas importações.

"Minha visão é que o cenário prospectivo continua bastante negativo, principalmente para o terceiro trimestre. Mas isso todos já sabiam. A novidade de hoje é que essa queda pode acontecer a partir de uma base mais forte", explicou.

Também publicamente alguns analistas já revisaram suas projeções para o terceiro trimestre. O ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e sócio-diretor da Mauá Sekular Investimentos Luiz Fernando Figueiredo afirmou que o crescimento de 1,5% no segundo trimestre "foi mais forte que esperávamos", o que, por um efeito estatístico, o levou a revisar sua estimativa de uma expansão de 0,10% para uma contração de 0,40% para o PIB deste terceiro trimestre, segundo informaram os repórteres Gustavo Porto e Cynthia Decloedt, do Broadcast.

"A surpresa positiva do PIB no segundo trimestre não muda a perspectiva de contração no terceiro trimestre. Talvez até aumente a taxa de variação negativa, pois vai cair de um nível mais alto", resumiu um importante participante do mercado.

Por fim, vale também notar a discrepância do resultado do PIB apurado no segundo trimestre pelo IBGE e o número calculado pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que subiu "apenas" 0,89% em igual período. Muitos analistas atribuem essa diferença à metodologia de cálculos dos dois indicadores, em especial o efeito calendário. Essa não é a primeira vez que os dois índices apresentam grande diferença em relação ao retrato da economia brasileira.

"O IBC-Br deve ser usado como um bom indicador de tendência mas não como previsor do PIB: não somente pela sazonalidade ser diferente, mas mesmo a variação ano sobre ano não casa muito bem", resumiu a fonte.

De qualquer modo, o resultado de hoje não deve mudar o cenário para o ciclo do aperto monetário em curso pelo BC. É preciso esperar os dados concretos do final do terceiro trimestre, que sairá apenas em novembro, para se ter uma melhor noção de como poderá se comportar o nível de "pass-through" (repasse) da desvalorização cambial na inflação e, por tabela, como o BC reagirá a isso.

*Fábio Alves é jornalista do Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado 

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