Após protesto, Abreu e Lima demite centenas

Sindicato que reúne empresas não comenta; trabalhadores dizem que foram demitidos por justa causa de obra de refinaria em Pernambuco 

Monica Bernardes e Sergio Torres, de O Estado de S.Paulo,

20 de agosto de 2012 | 22h30

RECIFE/RIO - Doze dias depois do protesto de operários que terminou com sete ônibus incendiados e equipamento destruídos, o Complexo Industrial de Suape voltou a viver momentos de tensão. Sem prévia notificação, centenas de trabalhadores da obra da Refinaria Abreu e Lima foram surpreendidos ontem quando chegavam para iniciar o expediente, após 20 dias de greve, com a informação de que estavam demitidos por justa causa.

Em nota, o Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada-Infraestrutura (Sinicon) não fala nas demissões, mas evidencia que elas existiram no seguinte trecho: "Com relação às novas contratações, as mesmas ocorrerão de acordo com a necessidade de cada empresa". No comunicado, o Sinicon, representante dos 16 consórcios empresariais que atuam na construção da refinaria, limita-se a informar que "desconhece o número de 1.000 trabalhadores demitidos".

A Petrobrás, que considera a Abreu e Lima fundamental para aumentar a produção de derivados, não comentou sobre as demissões, sob a justificativa de que as explicações caberiam às empresas a seu serviço. A refinaria deveria estar pronta desde 2010, conforme o planejado em 2005, a um custo de US$ 2,3 bilhões. O novo prazo de inauguração é o segundo semestre de 2014. O preço também mudou. As obras, agora, estão orçadas em US$ 20 bilhões.

De modo reservado, líderes da greve articulam novos protestos, com piquetes e bloqueios de estradas de acesso ao complexo. Pelo menos 30 seguranças particulares foram contratados.

Assim que informados da dispensa, os demitidos bloquearam uma das portarias. Centenas de outros trabalhadores, que já haviam iniciado o turno, pararam e se juntaram aos colegas para cobrar explicações pelas demissões. A Polícia Militar foi acionada, mas não houve confronto.

Ao longo do dia, a informação sobre a quantidade de operários demitidos variava entre 500 e 1.000. O Sinicon não informou o número de demissões. Segundo informações extraoficiais, as dispensas atingiram funcionários dos consórcios Conest e Ipojuca e das construtoras Alusa, Galvão, Barbosa e CMB, que atuam na refinaria e na petroquímica Suape, também em construção.

Segundo o Estado apurou, os demitidos são suspeitos de terem participado dos protestos do último dia 8. O reconhecimento teria sido feito por imagens gravadas pelas câmeras de segurança. Há 51 mil operários no complexo, dos quais 4 mil na refinaria e 7 mil na petroquímica.

Representante dos operários, mas contrário à greve desde que a Justiça do Trabalho, no dia 7, chancelou um acordo que dá 10,5% de reajuste à categoria, o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias da Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplanagem (Sintepav-PE) disse desconhecer as demissões. A entidade divulgou apenas que, se houver irregularidades, agirá para que os direitos sejam respeitados.

A ausência de representantes sindicais irritou os trabalhadores. "A gente parou por orientação do sindicato. Agora não aparece ninguém para nos defender. Estamos desamparados, entregues à própria sorte", reclamou o soldador Jair Silva, 47. Ele, um filho e um sobrinho foram demitidos.

 

Houve trabalhadores que passaram mal ao saber das demissões. O auxiliar de ferreiro Antônio Santos, 53, chegou a desmaiar. "Tenho quatro filhos pequenos para criar. Cheguei aqui e descobri que não tenho mais emprego. Estão dizendo que participei do quebra-quebra, mas estava de licença médica. Estou pagando pelos erros dos outros."

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