Marlon Costa|Estadão
Marlon Costa|Estadão

Após queda histórica, varejo pode ter estabilidade em 2017

Setor só deve ganhar fôlego na segunda metade desde ano com a melhora na oferta de crédito

Gustavo Porto, Maria Regina Silva, Thaís Barcellos, Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2017 | 16h54

Após apontar no ano passado a queda mais acentuada da série histórica, iniciada em 2001, o volume de vendas no varejo pode caminhar para a estabilidade em 2017 graças à melhora no crédito, segundo analistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado. Em 2016, o varejo restrito recuou 6,2% e o ampliado (incluindo veículos, peças e construção civil) 8,7%, com a contribuição das quedas de 2,1% e de 0,1%, nesta ordem, em dezembro. O cenário traçado pelos especialistas mostra ainda que o setor persistirá no campo negativo no primeiro semestre e só ganhará fôlego na segunda metade de 2017.

Um dos fatores a contribuir para a retomada do setor virá da queda dos juros e consequentemente da melhora da oferta de crédito ao consumo, defende Fabio Silveira, sócio da MacroSector, que descarta uma recuperação puxada por renda, ainda freada pelo desemprego e pela recessão. "Podemos fechar 2017 entre uma estabilidade e um crescimento de até 1%", disse Silveira. "O consumo ainda deve ser a ponta mais fraca da atividade econômica este ano", emendou o analista da GO Associados Luiz Fernando Castelli.

Segundo Castelli, as melhores condições de crédito permitirão que o consumo de bens duráveis se recupere com mais força do que o de bens não duráveis este ano. Isso deve fazer com que o varejo ampliado, cuja queda foi 2,5 pontos porcentuais maior que a do restrito em 2016, tenha um desempenho melhor em 2017. "A reação de bens não duráveis só deve vir após a estabilização do desemprego". Bernard Gonin, da Rio Gestão de Recursos, reforça a posição de Castelli de que o enfraquecimento do varejo deve persistir por mais tempo. "O setor deve ser o último a se recuperar", disse.

O economista Carlos Lopes, do Banco Votorantim, também avalia que apesar dos resultados fracos das vendas do varejo em 2016, os sinais são de estabilização, principalmente no conceito ampliado. Como duráveis é um segmento que depende mais de crédito e foi o que teve pior desempenho em relação à renda, também deve ter mais condições de ter uma recuperação mais rápida. "O crédito deve estabilizar e a renda ainda terá mais dificuldade em recuperar. Apesar de ruins, as vendas do varejo estão com jeito de estabilidade", afirma.

Na mesma linha de pensamento, o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno considera que mesmo após a queda histórica em 2016 ainda há espaço para o varejo restrito cair no primeiro semestre deste ano. Depois, as vendas nesse conceito devem voltar a apresentar leituras positivas na base anual, contribuindo para uma taxa  zero no final do ano. A recuperação efetiva da atividade só deve acontecer em 2018, ponderou.

Em relação ao varejo ampliado, a perspectiva de Rostagno para este ano ainda é de queda, embora menor que a de 2016, ao contrário da avaliação de Castelli, da GO Associados, que prevê uma estabilidade. "Esse conceito incorpora itens que demandam crédito, mas os bancos ainda estão cautelosos na oferta de financiamentos e as famílias ainda estão muito endividadas, então esse segmento deve ser o último a se recuperar", acredita Rostagno.

Já o economista-sênior da área internacional da Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia apontou, em relatório, que a tendência nas vendas no varejo, se mantida, sinaliza para um crescimento marginal durante a segunda metade de 2017. Ele lembra que os dados de hoje mostram que a queda nas vendas do varejo é menor a cada trimestre, o que pode sinalizar um ciclo de retomada a partir de julho.

"O fraco mercado de trabalho continuará a pesar sobre as despesas, mas a queda da inflação, as baixas taxas de juros e melhoria da confiança sugerem que uma recuperação gradual é uma boa aposta", concluiu Abadia. 

Dezembro

Além do cenário para este ano, economistas destacaram que a queda de 2,1% no volume vendas do varejo restrito em dezembro teve como fator principal a antecipação das compras em novembro por conta da Black Friday. No mês anterior, as vendas subiram 1% sobre outubro.

No entanto, Gonin, da Rio Gestão de Recursos, citou como destaque negativo a queda de 3,3% nas vendas em supermercados e hipermercados entre novembro e dezembro. Segundo ele, mesmo com inflação arrefecendo, o rendimento menor, o desemprego elevado e o comprometimento elevado da renda familiar podem explicar o recuo em supermercados. "Houve queda muito forte em hipermercados. Ainda não dá para saber se foi pontual, se vai voltar a subir, se foi efeito da Black Friday, ou se reforça mesmo uma fraqueza", avaliou. 

Para a economista Jessica Strasburg, da CM Capital, o recuo de 3,3% em supermercados e hipermercados pode indicar "a total falta de confiança dos consumidores" para ir às compras, devido ao desemprego ainda em alta. 

Até mesmo o destaque positivo no indicador de dezembro, é visto sem otimismo pelos economistas. Silveira, da MacroSector avalia, por exemplo, que a alta de 2,1% nas vendas de materiais de construção no último mês do ano, após alta de 7,7% em novembro, é apenas "uma recuperação de um patamar abissal" da queda no passado. "A base de comparação é tão ruim que nem dá para falar em retomada", completou Castelli, da GO Associados. 

FGTS. Os recursos oriundos de saques das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) que serão injetados na economia, estimado entre R$ 30 bilhões e R$ 35 bilhões do total de R$ 43,6 bilhões disponíveis, devem ter impacto limitado no setor varejista. Silveira, da MacroSector, considera que o destino dos recursos do FGTS deva ser a reestruturação financeira, com o pagamento de contas e dívidas pelos credores. "Depois de tantos anos, o brasileiro aprendeu a pagar primeiro as contas e depois ir às compras", explicou.

Já Jessica Strasburg, da CM Capital, tem uma opinião diferente e afirma que a liberação dos saldos das contas inativas do FGTS - cujo cronograma foi divulgado hoje - pode contribuir positivamente para os dados de venda no comércio varejista durante 2017. 

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