J. F. Diorio/Estadão
J. F. Diorio/Estadão

Após questionamento do Financial Times, IBGE afirma que revisões de dados não mudam resultado do PIB

Jornal britânico colocou em xeque a divulgação dos dados do governo sobre comércio exterior, que foram revisados pelo Ministério da Economia em um curto espaço de tempo

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2019 | 19h27

RIO - O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do terceiro trimestre, divulgado na terça, 3, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), só incorporará as revisões de dados das exportações brasileiras na divulgação do fechamento do ano, prevista para o dia 4 de março de 2020. No entanto, não deve haver mudança significativa no desempenho da atividade econômica do período, acredita o instituto.

“O panorama não vai mudar em nada. Não muda a avaliação conjuntural. O PIB vai continuar a crescer por conta do consumo das famílias e da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida dos investimentos no PIB)”, garantiu Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE.

A explicação do IBGE foi feita após a publicação de um artigo do jornal britânico Financial Times, que colocou em xeque a divulgação dos dados do governo. Sob o título "Falha nos dados econômicos brasileiros desperta preocupações entre analistas", o texto questionava a confiabilidade das estatísticas em decorrência das recentes revisões feitas pelo Ministério da Economia sobre os dados das exportações - que poderiam levar a uma revisão também do resultado do PIB.

O que aconteceu

Em 28 de novembro, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia anunciou uma revisão dos dados das exportações brasileiras em novembro. As exportações somaram US$ 13,498 bilhões até a quarta semana de novembro, e não US$ 9,681 bilhões, como informado originalmente pela Secex, uma diferença de US$ 3,817 bilhões. Após a correção, o saldo da balança comercial no mês passou de um déficit de US$ 1,099 bilhão para um superávit de US$ 2,717 bilhões. A divulgação impactou na cotação do dólar.

Na última segunda-feira, dia 2, o órgão voltou a retificar informações anteriores, desta vez os dados de setembro e outubro. O valor exportado em setembro passou de US$ 18,921 bilhões para US$ 20,289 bilhões, enquanto o de outubro saiu de US$ 18,231 bilhões para US$ 19,576 bilhões. Com a nova correção, o volume de exportações aumentou US$ 6,488 bilhões no total, 3% do valor exportado no ano. Segundo a Secex, um erro de programação na transmissão de dados pelo sistema do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) levou a uma contabilização menor dos dados de exportação brasileira. O Banco Central (BC) foi notificado e também corrigirá os dados do setor externo com os novos números.

Produto Interno Bruto

O PIB brasileiro cresceu 0,6% no terceiro trimestre em relação ao segundo trimestre do ano. No mesmo período, as exportações recuaram 2,8%. Esses dados foram divulgados pelo IBGE na terça-feira, 3, um dia depois da retificação da Secex sobre os dados do comércio exterior de setembro, que entraram no cálculo das Contas Nacionais Trimestrais.

“Eles avisaram sobre a correção dos dados de setembro na segunda-feira à tarde. Obviamente que não tinha como incorporar isso para divulgar no dia 3. Teríamos que rodar e calcular de novo produto por produto”, justificou Rebeca Palis, sobre a não incorporação da correção nos dados do PIB do terceiro trimestre.

“Não acredito em manipulação (de dados). Acho que foi erro de programação. Inclusive seria uma manipulação contra o Brasil, porque dizer que a exportação caiu é ruim para o País. Se fosse aumentando o resultado da exportação ou do PIB, poderia até desconfiar. Mas não foi”, avaliou Claudio Considera, coordenador do Monitor do PIB no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Para Considera, o IBGE deveria ter adiado em dois dias a divulgação do PIB, para que tivesse tempo de incorporar os dados corrigidos pela Secex, evitando assim ruído e confusão em torno dos números. O Monitor do PIB, calculado com a mesma metodologia das Contas Nacionais do IBGE, tem como objetivo antecipar os rumos da atividade econômica.

O Ibre/FGV fará uma revisão nos dados do PIB do terceiro trimestre na divulgação do Monitor do PIB referente a outubro, prevista para o próximo dia 17. Claudio Considera acredita que não deva haver mudança no resultado global do PIB, apenas na composição sob a ótica da demanda, mais especificamente nas variações dos estoques e das exportações. Parte do que foi considerado como estoque pelo IBGE deve ser revisto como volume exportado.

“Posso quase te afirmar que não terá mudança nenhuma. Pelo lado da oferta não terá impacto nenhum. Do lado da demanda pode ter alguma alteração na composição, talvez em alguma variação de consumo das famílias e investimentos”, previu Considera.

O IBGE já incorporou na última divulgação dos dados do PIB outra revisão promovida pela Secex, desta vez nas informações referentes ao primeiro semestre do ano. Na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, houve revisão significativa no primeiro trimestre de 2019 na exportação de bens e serviços, que passou de alta de 1,0% para queda de 1,6%. No segundo trimestre de 2019, as exportações saíram de aumento de 1,8% para 1,3%.

Rebeca Palis confirmou que uma revisão nos dados primários da exportação pela Secex e provavelmente no balanço de pagamentos pelo Banco Central foram responsáveis pela correção acentuada e pouco usual. Segundo a coordenadora de Contas Nacionais, revisões nesses dados são comuns, mas desta vez foram mais acentuadas.

Em nota, o IBGE informou que as estimativas trimestrais para o PIB “são ancoradas, principalmente, no desempenho das atividades econômicas, até por disporem de mais informação conjuntural, e que essas não sofrerão alterações significativas”.

Sindicato Nacional dos Servidores do IBGE

O Sindicato Nacional dos Servidores do IBGE (Assibge) divulgou nota defendendo a lisura do trabalho do corpo técnico do instituto e lembrando que o artigo do Financial Times “não apontou manipulação de dados, e sim um contexto de precarização técnica”. Um dos analistas ouvidos pela publicação britânica acredita que o Ministério da Economia possa ter sido vítima das medidas de corte de custo que ele mesmo decretou, com congelamento de contratações, servidores se aposentando e técnicos sobrecarregados.

“Embora não seja o produtor dos dados impactados pela falha de programação, o IBGE foi afetado pelo erro, na condição de usuário da informação, uma vez que os dados da Secex são utilizados para apuração do PIB pelo IBGE. A acusação de manipulação de dados, incompetência ou mesmo negligência em uma revisão de dados constitui pura leviandade e um imenso desrespeito aos servidores desses órgãos, principalmente em tempos em que toda a produção de conhecimento sofre ataques cotidianos”, declarou a Assibge, em nota.

O sindicato menciona ainda que o caso causa preocupação, embora “não recaia sobre o IBGE nenhuma suspeita ou dúvida sobre a capacidade técnica”.

“A falha nos dados da Secex pode ser resultado do processo da precariedade orçamentária e do desmonte do quadro de pessoal dos órgãos técnicos, processo que também vitima o IBGE e representa um risco real ao sistema estatístico nacional”, escreveu o sindicato.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.