Paulo Whitaker/Reuters
'Uma vez aprovada a reforma, abre um caminho para outras andarem. Podemos começar um círculo virtuoso', avalia David Beker. Paulo Whitaker/Reuters

Após reforma da Previdência, risco país cai ao menor patamar desde 2014

Além do avanço no trâmite da reforma, contribuiu para a redução da percepção de risco do investidor estrangeiro sobre o Brasil o cenário de um mercado internacional mais calmo, com a perspectiva de queda de juro nos Estados Unidos e na Europa

Altamiro Silva Junior, Renée Pereira e Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2019 | 04h00

Com a aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara dos Deputados e a previsão de que o texto passe em segundo turno sem dificuldades, a percepção de risco do investidor internacional sobre o Brasil caiu para o menor patamar em quase cinco anos.

O Credit Default Swap (CDS) de cinco anos, espécie de termômetro do risco país, era negociado na sexta-feira, 19, em 128 pontos, patamar que não era registrado desde setembro de 2014 – quando o Brasil era classificado como grau de investimento pelas agências de rating.

Além do avanço na reforma previdenciária, contribuiu para a redução do risco país o cenário de um mercado internacional mais calmo, com a perspectiva de queda do juro nos Estados Unidos e na Europa. A avaliação do mercado é que o risco de uma crise fiscal diminuiu, ao mesmo tempo em que reduziu a chance de haver uma fuga de recursos para os EUA – o que seria provável caso o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) elevasse os juros, como considerava fazer no início do ano.

“O cenário para os emergentes é melhor agora. O dólar não vai se apreciar tanto, o que ajuda esses países. E, uma vez aprovada a reforma, abre um caminho para outras coisas (reformas) andarem. Podemos começar um círculo virtuoso”, disse o chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch no Brasil, David Beker.

Para o economista Leonardo Porto, do Citi, a aprovação da reforma da Previdência num momento de virada no ambiente externo pode colocar o Brasil numa posição privilegiada. Com a provável queda do juro americano, a liquidez mundial deve aumentar e os investidores terão de buscar alternativas. “Esse é o melhor dos mundos para os emergentes, especialmente para o Brasil”, diz Porto.

Ele destaca que a reforma é importante para ancorar as expectativas das contas públicas, uma condição necessária para o crescimento. “Mas não é uma panaceia”, destaca. Para convencer os investidores estrangeiros, o Brasil ainda precisa dar sinais de que outras agendas serão implementadas.

O economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina, Alberto Ramos, ressalta, porém, que a aprovação da reforma em primeiro turno, com um número maior de votos do que o previsto, não garante que outros textos passarão com facilidade. “Foi feito um trabalho (de articulação política) pela Previdência. A base para outras reformas não está tão clara”, diz.

Na lista de melhorias necessárias estão medidas para facilitar o ambiente de negócios, reduzir a burocracia e aumentar a produtividade. Tem ainda a reforma tributária, diz o economista-chefe do Itaú, Mario Mesquita. Na avaliação dele, se o País conseguir dar andamento a essas mudanças, terá vantagem em relação aos demais emergentes. “Além da agenda de reformas do Brasil ser bem vista pelos estrangeiros, os desafios dos outros emergentes são mais intensos. Portanto, o País pode ser beneficiado.”

A queda do CDS do Brasil tem sido uma das mais rápidas entre os emergentes. Em maio, o CDS brasileiro chegou a encostar em 200 pontos, em meio a ruídos entre o Planalto e o Congresso e ao estresse no mercado internacional com a tensão entre China e EUA. Há um ano, as taxas superaram 300 pontos.

Quando a Previdência começou a avançar no Congresso, em junho, as taxas passaram a cair rapidamente. O Brasil hoje tem CDS perto do México (115 pontos), país classificado como grau de investimento. Mas a taxa brasileira ainda está alta em relação a outras economias, como o Chile (36 pontos) e Colômbia (84 pontos). A exceção é a Argentina, que em meio à crise econômica e tensão eleitoral, tem taxa perto de 900 pontos.

Risco de calote

Com o atual nível do risco país, os investidores atribuem probabilidade implícita de calote do Brasil de 2,1% nos próximos cinco anos. Na Argentina, essa chance é de 15%. Um ex-diretor do Banco Central ressalta que o mercado já estava considerando o Brasil com nota um nível acima na classificação das agências de risco quando o CDS estava na casa dos 180 pontos. Esse movimento se acentuou agora e o país é precificado em “BBB”, ou seja, três níveis acima da nota atual.

Na avaliação do economista para América Latina em Nova York da consultoria norte-americana Continuum Economics, Pedro Tuesta, a principal razão por trás da queda do risco país é o avanço da Previdência e a expectativa de que a aprovação vai reduzir os juros, melhrando a nota da dívida do Brasil. Mas a retomada da classificação grau de investimento pode demorar mais tempo. Ele espera o retorno para o seleto grupo de bons pagadores em pelo menos daqui a dois anos.

Pesquisa do Bank of America Merrill Lynch feita este mês com investidores internacionais mostra otimismo com o Brasil: 85% acreditam que o País vai reconquistar o selo de grau de investimento, com metade esperando que isso ocorra até 2021, 20% até 2022 e o restante “até 2023 ou além”. Apenas 5% não veem o Brasil voltando a ter essa classificação.

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Para analistas, reforma abre espaço para queda de juro

Aprovação do texto em 1º turno já trouxe um certo otimismo para o mercado, avalia sócio de gestora

Renée Pereira e Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2019 | 04h00

A gestora Vinci Partners acaba de concluir uma captação de R$ 4 bilhões do terceiro fundo de private equity – que investe em participação em empresas. Cerca de 70% desse volume veio de investidores estrangeiros, cuja maior preocupação estava relacionada à capacidade de solvência do País e ao câmbio. “Boa parte dos questionamentos era sobre a questão fiscal e os desdobramentos nos indicadores econômicos”, diz o sócio responsável pela área de private equity da Vinci, Bruno Zaremba.

Ele avalia que a aprovação da reforma em primeiro turno já trouxe um certo otimismo para o mercado. “O principal ponto é que tira um componente de risco importante da mesa. É um avanço significativo e nossa expectativa é que se traduza em impacto positivo no crescimento ao longo do tempo.” A exemplo de outros economistas, ele acredita que a reforma vai dar subsídios para o Banco Central reduzir a taxa de juros na próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).

“Para nós, isso significa ampliar nossa base de clientes. Hoje os investidores domésticos não são grandes investidores de private equity”, explica ele, destacando que, como os juros eram elevados, não havia a necessidade de buscar ativos alternativos para remunerar o patrimônio. “Estamos falando de trilhões de reais que terão de ser realocados.”

O presidente do banco Fator, Gabriel Galípolo, é mais cético em relação ao choque de confiança que a reforma da Previdência pode provocar no crescimento econômico. Ele entende que mais investidores estrangeiros virão para o País, mas para aplicar na bolsa de valores. “Tenho dúvidas se terá alcance na economia real, que está muito debilitada e sem dinamismo. Não acho que o cara da padaria vai contratar mais um funcionário por causa da aprovação da reforma.”

Queda dos juros

De qualquer forma, ele entende que haverá mais espaço para o Banco Central reduzir a taxa de juros, ainda neste mês. Na prática, isso vai ajudar as empresas a se financiarem no mercado. O problema é que a economia brasileira está sem tração e com elevada capacidade ociosa. Isso significa que a demanda precisa ser retomada para aumentar a produção das empresas.

O chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch no Brasil, David Beker, afirma que empresários clientes do banco indicam não ter pressa para investir, pois suas plantas estão operando com alta ociosidade. A tendência, porém, é começar a haver melhoras nesse cenário com o avanço da reforma, destaca.

O economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, acredita que a reforma da Previdência, com ampla vantagem na votação de primeiro turno, pode ter um efeito psicológico entre os investidores, que precisam de clareza para tomar decisões. A reforma sozinha, diz ele, não garante que o governo vai concluir o ajuste fiscal, mas sem ela seria um desastre.

Beker corrobora a opinião de Mesquita. Segundo ele, no mercado financeiro, os investidores estrangeiros vinham mostrado interesse no Brasil, mas esperavam sinais concretos de avanço na situação fiscal para apostar no País. “Não havia nada sólido para falar para eles. Agora começa a haver, mas o mercado (os ativos) também já está mais caro.”

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