Nilton Fukuda/Estadão
A estrutura sindical reúne cerca de 300 mil trabalhadores em todo o País Nilton Fukuda/Estadão

Após reforma trabalhista, sindicatos demitem para sobreviver

Dieese estima que, até o ano que vem, pelo menos 100 mil trabalhadores diretos e indiretos ligados a atividades sindicais devem ser afetados

Douglas Gavras , O Estado de S. Paulo

25 de novembro de 2017 | 16h00

O fim da contribuição sindical obrigatória, extinta com a reforma trabalhista, forçou centrais e sindicatos a se adaptarem aos novos tempos de vacas mais magras. Eles têm demitido, vendido ativos e organizado planos de demissão voluntária (PDV) para se adequar a uma perda estimada em um terço da receita. Até 2018, 100 mil trabalhadores diretos e indiretos devem ser afetados, estima o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

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A estrutura sindical reúne cerca de 300 mil trabalhadores em todo o País, segundo o Dieese. Desse total, 115 mil são funcionários diretos e o restante presta serviços às entidades. Os cortes devem ser diluídos no próximo mês e ao longo do ano que vem. Mas eles já começaram.

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O Sindicato dos Comerciários de São Paulo, que tinha 600 empregados, organizou há dois meses um PDV, que teve adesão de 67 deles. Mas isso não evitou outras 35 demissões. “Se a perda é estimada em um terço da receita, cerca de 100 mil trabalhadores podem ser afetados até o fim de 2018. O sindicato vai ser obrigado a demitir e a transformar funcionários diretos em prestadores”, avalia Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese.

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A própria instituição, mantida com recursos sindicais, espera um orçamento menor para 2018. Neste ano, é de R$ 45 milhões. Em 2018, no cenário mais otimista, será de R$ 30 milhões. O Dieese, que compila estatísticas de emprego e custo de vida, estuda que pesquisas conseguirá manter a partir de 2018.

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Associados. Além da perda da contribuição sindical, as entidades já tinham de trabalhar com uma realidade mais dura. O Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP), por exemplo, viu seu número de associados desabar com a perda de postos da construção na crise. A entidade tinha 230 funcionários no início do ano. Agora, são 158.

Uma das estratégias das entidades é “voltar para a rua”, para aumentar a receita com novas filiações, inclusive transferindo parte dos funcionários da sede para as equipes que vão até os locais de trabalho e têm contato direto com os trabalhadores. “O impacto é grande, mas a contribuição obrigatória tinha de acabar mesmo. Não era uma coisa justa e só servia para alimentar alguns sindicatos que faziam muito pouco. A contribuição precisa ser discutida”, diz Antonio de Sousa Ramalho, presidente do Sintracon-SP.

As principais centrais apoiam um projeto de lei que regulariza a contribuição negocial em substituição ao imposto sindical. Elas também sentem o fim do recurso obrigatório. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) organiza um PDV e a União Geral dos Trabalhadores (UGT) demitiu funcionários e vai para uma sede menor.

 

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Central UGT vai se mudar para um andar do Sindicato dos Comerciários. AMANDA PEROBELLI|ESTADAO

UGT trocará prédio alugado por apenas um andar

Central já demitiu 12 dos 50 funcionários e prepara mudança de endereço para cortar custos e resistir ao fim do imposto sindical

Dougas Gavras , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Central UGT vai se mudar para um andar do Sindicato dos Comerciários. AMANDA PEROBELLI|ESTADAO

Terceira maior central do País, com 1.310 sindicatos associados, a União Geral dos Trabalhadores (UGT) vai trocar de endereço para resistir à perda de receita com o fim da contribuição obrigatória. A nova sede terá cerca de um terço do tamanho da anterior. A partir do mês que vem, a central vai deixar o prédio de oito andares que aluga atualmente no centro da capital paulista e vai passar a ocupar um andar e meio do edifício do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, perto dali, por um aluguel simbólico.

A entidade, que tinha cerca de 50 funcionários diretos, já demitiu 12 pessoas. “As centrais não sabem o que vão fazer sem a contribuição sindical, elas não estavam preparadas para isso”, diz o presidente da UGT, Ricardo Patah. “Estamos diminuindo quadro, revendo as atividades que desenvolvemos e vamos nos adequar a esse novo tamanho de orçamento, criando outras formas de receita.”

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Ele diz que a UGT vai ter de buscar receita baseada em serviços, como atendimento médico, “que o associado vai precisar mais do que nunca, agora com a nova CLT. A realidade mudou, e as centrais vão precisar dialogar mais e ir mais para a rua juntas, sobretudo se passar a reforma da Previdência”.

As centrais eram mais dependentes da contribuição sindical que os sindicatos. Em algumas, o aporte obrigatório representava mais de 90% da receita anual.

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A Força Sindical, cuja receita dependia 95% do imposto sindical, começou a cortar seu quadro de funcionários em abril e diz ter reduzido em 20% sua mão de obra. O secretário-geral da entidade, João Carlos Gonçalves, o Juruna, diz que a central não defendia a contribuição obrigatória, mas uma contribuição voluntária, aprovada pelas categorias em assembleia. “Sempre topamos debater formas de financiamento justas para as centrais.”

No ano passado, a Força recebeu R$ 46,6 milhões de contribuição sindical – o segundo maior valor, atrás da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que recebeu R$ 59,8 milhões. Em terceiro lugar, aparece a UGT, com R$ 44,8 milhões. A CUT nacional, que emprega cerca de 200 trabalhadores, anunciou um Plano de Demissão Incentivada (PDI).

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Segundo o presidente da central, Vagner Freitas, esse programa é uma diferença da instituição no trato com os seus funcionários. “A comissão dos trabalhadores da CUT, sem a nossa participação, aprovou por unanimidade a proposta e hoje os trabalhadores estão aderindo.” O prazo final para a adesão ao plano é 4 de dezembro. 

Ajuste. Já a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), que tem 34 funcionários na sua sede nacional, não planeja lançar um plano de demissão voluntária, segundo o presidente da central, Adilson Araújo. “Se tivermos de fazer um ou outro ajuste, será feito”, diz. A central reúne 789 sindicatos.

Ele admite, porém, que haverá uma queda drástica de receita com o fim da obrigatoriedade do imposto sindical. Mas a prioridade, diz, é transformar esse cenário, reduzindo despesas e gerando receitas. Como exemplo de corte de gastos, Araújo cita a proposta de criação de uma rede nacional de comunicação, com um único parque gráfico. Outra possibilidade é ter uma espécie de “Smiles sindical”, um clube de serviços para os trabalhadores, com acúmulo de pontos. Além disso, há intenção de abrir uma escola a distância para a formação de sindicalistas.

A Nova Central Sindical de Trabalhadores, por outro lado, informou, por meio de sua assessoria, que não fez alterações de planejamento por conta do fim do imposto sindical. A central reforçou o trabalho com a base, cerca de 2,5 milhões de trabalhadores, para que eles percebam no dia a dia a importância do sindicato e continuem com a contribuição voluntária nos próximos anos. 

 

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Maria Cristina Sodatti, que entrou no PDV do Sindicato onde trabalhava e está desempregada JF DIORIO|ESTADÃO

Demanda por PDV em sindicato fica acima da expectativa

Gestora de RH, Maria Cristina Sodatti, de 63 anos, pretendia deixar entidade em dois anos, mas antecipou a decisão

Douglas Gavras , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Maria Cristina Sodatti, que entrou no PDV do Sindicato onde trabalhava e está desempregada JF DIORIO|ESTADÃO

A gestora de recursos humanos Maria Cristina Sodatti, de 63 anos, só planejava deixar o Sindicato dos Comerciários de São Paulo aos 65. No meio do ano, quando começou a surgir o boato de que a entidade faria o primeiro Plano de Demissão Voluntária (PDV) de sua história, ela se resignou. "Sabia que, sendo aposentada, se eu não me inscrevesse no PDV para sair há dois meses, seria demitida mais tarde. No fim, foi uma decisão mais lógica que difícil."

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No sindicato há 16 anos, Maria Cristina diz que sabia que a queda de receita de cerca de um terço com o fim do imposto sindical seria sentida. “Era uma entidade que sempre investiu muito em atendimentos médicos e odontológicos, em treinamento. Trabalhando no RH, eu tinha a vantagem de perceber que a redução seria muito grande. Pensei: vai chegar uma hora em que muitas das funções atuais não vão mais ser necessárias. A gente não poderia mais contratar nem investir tanto em treinamento e desenvolvimento, são processos que devem ser suspensos. Eu olhei aquilo e pensei: saio agora ou logo depois.”

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Demanda. O número de inscritos no plano de demissão do sindicato, 67, surpreendeu. “Teve gente que fez aposta, achavam que não iria ter nem dez inscritos, mas foi além das expectativas – o que não evitou a necessidade de novas demissões. Mas todo o processo foi bem transparente. Eles nos chamaram e expuseram tudo.”

Os funcionários não acreditavam que a situação dos sindicatos chegaria onde chegou após a reforma trabalhista entrar em vigor, conta. Acreditavam que haveria uma alternativa ao fim do imposto sindical ou que os cortes seriam graduais. A perda repentina de uma fatia tão grande da receita assustou. “Eu nunca apostei na alternativa de que o governo fosse cumprir a palavra às entidades sindicais e estudaria uma forma de financiamento.”

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“Eu acompanhava as conversas mais de perto e já estava ciente de que o sindicato teria de fazer uma redução grande de despesas. O tamanho do quadro de funcionários acaba entrando logo em discussão, porque um corte logo reduz a assistência médica, o vale-refeição, o transporte. O impacto é grande.”

Ela agora cursa a sua terceira graduação, em História, e pretende voltar ao mercado de trabalho. “Gostaria de trabalhar em uma startup, ter colegas mais jovens e com uma cabeça arejada. Ainda tenho algo a contribuir.”

 

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