Após resultado fraco do IBC-Br, analistas preveem recuo maior da economia em 2015

Para especialistas, economia começou o ano com 'pé esquerdo' e PIB pode recuar até 1,5% em 2015

O Estado de S. Paulo

16 de março de 2015 | 09h43

Após o resultado fraco do IBC-Br em janeiro, o mercado intensificou as apostas de um recuo maior da economia em 2015. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), teve queda de 0,11% em janeiro em relação a dezembro, o menor resultado para o mês desde 2012. 

"A queda do IBC-Br reforça nossa expectativa de retração do PIB no primeiro trimestre", escrevem os analistas do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, chefiado pelo economista Octavio de Barros. Os resultados negativos do IBC-Br devem se intensificar nas leituras referentes ao segundo mês de 2015. A avaliação é do economista Rafael Bacciotti, da consultoria Tendências. 

"Tanto a produção industrial como o varejo não têm sinais muito favoráveis e, mesmo com resultados positivos na margem, em janeiro, apresentaram desempenhos negativos importantes na comparação com o ano anterior", destaca o especialista. Segundo Bacciotti, este movimento reforça a percepção de fraqueza da atividade.

Para ele, o primeiro semestre do ano deve registrar um movimento mais intenso de retração da economia em 2015. Na segunda metade do ano, no entanto, deve haver uma leve recuperação. "Esperamos que o primeiro e o segundo trimestres venham mais fracos, com queda de 0,4%, na média", pontuou. "No segundo semestre, o resultado médio deve ser positivo em 0,4%", projetou o especialista. A estimativa da Tendências para o PIB de 2015 é de recuo de 1,2%. 

Atividade fraca. O economista-sênior do Besi Brasil, Flávio Serrano, afirmou que a queda do IBC-Br em janeiro fica abaixo do estimado pela instituição financeira e retrata o quadro recessivo. "Em linhas gerais, o IBC-BR retrata a atividade fraca e mostra um começo de 2015 de contração. É provável que em fevereiro permaneça, já que o varejo não deve contribuir como foi em janeiro, apontando para quadro recessivo para o primeiro trimestre e para o ano", disse.

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"Temos a sensação de uma queda próxima a 1% no PIB e só estamos esperando a divulgação do PIB de 2014 para revisarmos" - economista-sênior do Besi Brasil, Flávio Serrano
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Serrano afirmou que o esgotamento do ciclo de consumo, a restrição ao crédito e a deterioração do estoque de capital - com queda de investimento há mais de um ano e efeito negativo de oferta - contribuem para o cenário recessivo. Por isso, o economista-sênior do Besi Brasil avalia que a projeção do PIB, negativa em 0,5% para 2015, deve ser revista. "Temos a sensação de uma queda próxima a 1% no PIB e só estamos esperando a divulgação do PIB de 2014 para revisarmos", concluiu. 

'Pé esquerdo'. A atividade brasileira começou 2015 mal, com o "pé esquerdo", na opinião do economista-chefe da Icatu Vanguarda, Rodrigo Alves de Melo. "Os indicadores antecedentes também mostram um cenário de atividade bem fraca no primeiro trimestre. A queda de 0,11% (margem) corrobora quadro de fraqueza", afirmou.

Ao avaliar os números divulgados pelo Banco Central juntamente com indicadores de demanda doméstica, o economista ressaltou que a sinalização é de que tanto a oferta como a demanda interna estão enfraquecidas. "Agora, as duas variáveis estão andando mais ou menos próximas. Oferta tem desacelerado junto com a demanda. Reforça um resultado ruim para o PIB do primeiro trimestre", analisou. 

Ajuste fiscal. A economista-chefe da Rosenberg Associados, Thais Zara, também fala em contração da atividade econômica. "Esperamos que o PIB tenha uma contração de 1,5% neste ano. O resultado do IBC-Br não veio tão longe das expectativas", ponderou a especialista. Questionada se a queda do IBC-Br teria alguma relação com as medidas anunciadas pela nova equipe econômica do governo Dilma Rousseff, Thais descartou a possibilidade. "Isso ainda não aparece. Existe uma defasagem", explicou. 

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"Vai ter uma piora, não só em consequência ao ajuste fiscal, mas devido a toda a conjuntura econômica" - economista-chefe da Rosenberg Associados, Thais Zara
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Ela reforçou, no entanto, que os efeitos não só do ajuste fiscal proposto pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, como as consequências na economia da operação Lava Jato devem afetar os resultados do IBC-Br a partir dos próximos meses. "Vai ter uma piora, não só em consequência ao ajuste fiscal, mas devido a toda a conjuntura econômica", disse, apontando ainda os efeitos das investigações sobre desvios na Petrobras em toda a cadeia de óleo e gás.

Com base nesse raciocínio, Thais Zara avalia que a atividade econômica deve registrar quedas ainda mais intensas nos próximos meses, pesando sobre os resultados do PIB ainda no primeiro trimestre de 2015. Mesmo não tendo um número fechado para o Produto Interno Bruto de janeiro a março, a Rosenberg projeta um resultado negativo.

Thais Zara avalia ainda que o desempenho da produção industrial no primeiro mês do ano deve ter sido o principal fator que influenciou de forma negativa a índice da autoridade monetária em janeiro. "Apesar de a indústria ter tido um resultado positivo na margem, houve queda na comparação interanual", afirmou. (Gustavo Porto, Karla Spotorno, Maria Regina Silva e Mário Braga)

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