Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Secretários, parlamentares e Guedes saíram sem falar com a imprensa de reunião no Palácio do Planalto. Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Após reunião no Planalto, governo silencia sobre futuro do Renda Cidadã

Parlamentares, secretários e o ministro Paulo Guedes saíram de reunião convocada de última hora sem falar se já existe uma fórmula mais concreta para bancar o programa

Emilly Behnke e Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 21h35

BRASÍLIA - Depois de uma reunião convocada de última hora nesta quarta-feira, 30, no Palácio do Planalto, governistas e membros da equipe econômica silenciaram sobre o destino do programa Renda Cidadã. O Executivo ainda não colocou no papel a fórmula para bancar o benefício a partir de 2021.

Na noite desta quarta-feira, 30, o presidente Jair Bolsonaro recebeu o ministro da Economia, Paulo Guedes, e os secretários de Fazenda, Waldery Rodrigues, da Receita, José Tostes, e de Previdência, Bruno Bianco. O relator da PEC Emergencial e do Renda Cidadã, senador Márcio Bittar (MDB-AC), e o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), também estiveram no local.

Todos saíram sem falar com a imprensa. Questionado se o relatório da proposta está pronto e sobre a o resultado da conversa, Bittar se limitou a dizer que não poderia dar declarações. Ao chegar na reunião, anteriormente, o parlamentar afirmou que estava concluindo o parecer. A conversa durou aproximadamente duas horas. Mais cedo, Guedes declarou que o governo não usaria dinheiro de precatórios para financiar o Renda Cidadã.

O programa social deverá substituir o Bolsa Família e tem causado impasse no governo. Segundo Guedes, os precatórios não são uma fonte de financiamento "saudável, limpa, permanente e previsível". Na segunda-feira 28, o governo anunciou que o programa social seria bancado com recursos reservados para o pagamento dessas dívidas e para o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).

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Ricardo Barros volta a se reunir com mercado e diz que precatório é solução para não furar teto

Líder do governo na Câmara disse a economistas e especialistas que tem sido difícil encontrar formas de financiamento para o Renda Cidadã, sem ferir as regras fiscais

Denise Abarca, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 21h12

O líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-RR), voltou a se reunir nesta quarta-feira, 30, com representantes do mercado financeiro para esclarecer dúvidas dos agentes sobre o andamento das reformas e o imbróglio envolvendo o financiamento do programa Renda Cidadã. O evento virtual teve participação de vários profissionais de bancos, corretoras e gestoras de recursos.

Em sua participação, Barros expôs claramente as dificuldades do governo em encontrar um consenso sobre a questão do financiamento de programas de distribuição de renda para amparar "milhões de brasileiros que deixarão de receber o auxílio-emergencial de R$ 300 a partir de janeiro" sem ferir as regras fiscais. "É uma equação difícil. Vocês do mercado sabem do que eu estou falando. O governo não quer sinalizar com quebra do teto e quer retomar a normalidade orçamentária e o rigor fiscal o quanto antes, mas não tem parto sem dor, não vai ter solução sem que de algum lugar saiam os recursos", afirmou em áudio ao qual o Estadão/Broadcast teve acesso.

De acordo com Barros, o relatório do senador Marcio Bittar (MDB-AC) está sendo construído para encontrar uma solução que atenda à orientação do presidente Jair Bolsonaro de não elevar a carga tributária, manter o rigor fiscal e o teto de gastos, e que vê o uso dos precatórios como opção de financiamento para evitar o rompimento do teto. Independentemente do que seja definido, ele diz que é uma questão que terá de ser equacionada, uma vez que trata-se de uma despesa com crescimento "exponencial". "É uma despesa que chama a atenção. Quando botamos o teto de gastos, a despesa com precatórios era de R$ 13 bilhões e hoje está em R$ 50 bilhões, com previsão de mais de R$ 60 bilhões para 2022. Com o teto de gastos, não podemos ter uma despesa que anda nessa velocidade, precisamos de tomar providência", disse.

Barros disse que o governo reconhece que precatório "é dívida que tem de pagar e não negamos que tem de pagar", mas não se pode ser surpreendido com uma despesa que é galopante e não dialoga com o teto. "Então, está se propondo repetir solução que Estados já têm. Não é desejável, mas temos de definir entre isso ou furar o teto, que para mim não é melhor solução", afirmou. Ele lembrou que o governo já está atuando para limitar as despesas, congelando, por exemplo, reajustes salariais de servidores em 2021.

Barros disse que a ideia do governo era endereçar a questão do custo do Renda Cidadã dentro da reforma tributária, mas não houve consenso entre os líderes. "Não houve acordo entre todos os partidos e precisamos de 308 votos. O momento talvez seja inadequado para uma medida dessa envergadura. Estamos a 45 dias da eleição, então poderemos retomar isso no momento seguinte", disse.

Em um determinado momento, um dos participantes aproveitou para responder às críticas ao mercado, de acordo com ele, feitas por lideranças políticas na segunda-feira, segundo os quais "o mercado não é Deus". "O mercado só gere recursos dos cidadãos, não temos nenhum incentivo para torcer contra", disse o economista.

Barros lembrou então que é o mercado que financia a dívida pública do governo e não faz sentido o governo fazer movimentos que pressionem a dívida. "Está claro para mim que mercado precisa ser contemplado. Não podemos ter a curva de juros alta como está e para isso o governo precisa tomar providências", disse.

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Guedes diz que governo não usará dinheiro de precatórios para financiar programa social

O ministro afirmou que 'ligaram uma coisa a outra' e que o governo está fazendo uma revisão dos valores a serem pagos por decisão da Justiça para manter as despesas sob controle

Lorenna Rodrigues e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 16h17

BRASÍLIA - Depois de participar na segunda-feira, 28, do anúncio do Renda Cidadã, substituto do Bolsa Famíliao ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta quarta-feira, 30, que o objetivo do governo, ao examinar o uso de dinheiro destinado ao pagamento de precatórios não é financiar o novo programa social, mas manter as despesas sob controle.  

Na última segunda-feira, após uma reunião com o presidente Jair Bolsonaro e ministros, o senador Márcio Bittar (MDB-AC), vice-líder do governo e relator da chamada PEC Emergencial, afirmou que a proposta de emenda à Constituição a ser enviada ao Congresso vai prever o financiamento do Renda Cidadã com recursos do Fundeb (fundo da educação básica) e com verbas reservadas no Orçamento para pagamentos de precatórios.

“Ligaram uma coisa a outra, estávamos estudando (a redução das despesas com precatórios) e disseram ‘esse estudo aqui é para fazer o financiamento de um programa populista’. Não é. Não há essa ligação direta”, afirmou. “Precisamos de programa social bem financiado, por receita permanente. Não pode ser financiado com puxadinho, ajuste. Não é assim que se financia o Renda Brasil, é com despesa permanente.”

Os precatórios são dívidas do poder público reconhecidas pela Justiça — quando alguém ganha um processo na Justiça contra um ente público e tem valores a receber, passa a ter um precatório e entra na fila do pagamento.

Após repercussão negativa e críticas de que o uso dos precatórios seriam “pedaladas fiscais”, Guedes disse que a intenção do governo é revisar os precatórios porque há um crescimento forte da despesa, mas não para o financiamento do programa de renda mínima.

O ministro voltou a se referir ao programa como Renda Brasil, mesmo depois de o presidente Jair Bolsonaro dizer que ninguém mais falaria de Renda Brasil em seu governo e de a proposta ser rebatizada de Renda Cidadã.

“Estamos fazendo o esclarecimento para abaixar barulhos. Sabemos que precatório é dívida líquida e certa, transitada e julgada. Ninguém vai botar em risco a liquidação de dívida no governo brasileiro, governo vai pagar tudo. Agora tem que examinar quando há despesas crescendo exponencialmente, não para financiar programas porque aquilo ali (precatórios) tem crescimento explosivo e não é regular, não é fonte  saudável, limpa, permanente e previsível”, afirmou. “Não se trata de buscar recursos para financiar isso, muito menos de uma dívida líquida e certa. Não faremos isso, estamos aqui para honrar compromissos fiscais e de dívidas”.

Ele repetiu que a revisão nos precatórios não será feita para financiar o Renda Brasil. “Não se trata de buscar recurso para financiar Renda Brasil, muito menos com dívida que é líquida e certa. Temos o direito de examinar do ponto de vista de controle de despesas, o exame não é jamais para financiar programa A ou B”, completou.

O ministro disse que o novo programa é a “linha evolucionária de proteção das camadas mais frágeis da população brasileira” e lembrou a criação do Bolsa Família. “Não estamos nos desviando do nosso programa. Há muito barulho sobre o que vai acontecer, quem é que está financiando o que. Vamos respeitar o teto, é uma questão de responsabilidade fiscal e ante alternativa de estourar o teto em R$ 60, R$ 70 bilhões ou buscar o controlar gastos, estamos examinando gastos, vários gastos”, completou.

Ele afirmou que houve “crescimento explosivo" de precatórios, que estavam em cerca de R$ 10 bilhões por ano no governo Dilma Rousseff e agora estão chegando a R$ 54 bilhões no ano que vem. “Há indústria de precatórios no Brasil. É um crescimento galopante, explosivo. Agora, é natural que para respeitar teto, temos que passar lupa em todos os lugares. Para evitar propostas de romper teto ou financiar programas de forma equivocada, o que nunca foi a nossa ideia”, afirmou.

O secretário especial de Previdência do Ministério da Economia, Bruno Bianco, contemporizou e disse que a proposta demanda “muitos estudos e muitas ideias”. “Não se pode levar a ferro e fogo qualquer tipo de ideia. A imprensa tem que ter uma certa compreensão de que um programa dessa envergadura  demanda muitos estudos, conversa técnicas e políticas e aprovação do presidente da República”, afirmou.

Bianco acabou respondendo perguntas da imprensa sobre o programa que foram direcionadas ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Depois de aparecer de surpresa na entrevista coletiva virtual para comentar os dados de geração de emprego formal, Guedes fez declarações, mas deixou a coletiva sem responder perguntas da imprensa – praxe adotada pelo ministro, que raramente responde as indagações.

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Após Bolsonaro pedir, economistas dão ideias para o Renda Cidadã

‘Estadão’ ouviu especialistas em transferência de renda para apresentar sugestões de como o governo pode aumentar os recursos para bancar o novo programa social

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 05h00
Atualizado 01 de outubro de 2020 | 00h10

BRASÍLIA - Incomodado com a reação negativa do mercado financeiro às propostas de financiamento do Renda Cidadã, o presidente Jair Bolsonaro desafiou os críticos a apresentarem propostas para aumentar recursos com o objetivo de bancar o novo programa social do governo em 2021.

“O Brasil é um só. Se começar a dar problema, todos sofrem. Pessoal do mercado não vai ter também renda, vocês vivem disso, de aplicação. Queremos, obviamente, estar de bem com todo mundo, mas eu peço, por favor, ajudem com sugestões. Não com críticas”, afirmou o presidente.

Na segunda-feira, o anúncio de que o programa que o governo quer criar para substituir o Bolsa Família, a partir de janeiro do ano que vem, seria financiado com o adiamento do pagamento de parte dos precatórios recursos do novo Fundeb (fundo para a educação básica) acabou causando tensão no mercado com o temor de o impasse em torno do Renda Cidadã ampliar os riscos para as contas públicas.

Representantes da área social e da educação também se manifestaram contra as medidas, que classificam de “pedalada fiscal”. Ajustes nas propostas estão sendo feitos, mas técnicos da área econômica ainda esperam que possa ser retornado o debate de mudanças antes rejeitadas pelo presidente, como o abono salarial e outros programas sociais considerados ineficientes.

“Minha crescente popularidade importuna adversários e grande parte da imprensa, que rotulam qualquer ação minha como eleitoreira. Se nada faço, sou omisso. Se faço, estou pensando em 2022”, disse Bolsonaro.

O Estadão aceitou o desafio do presidente e ouviu economistas em contas públicas e especialistas no tema de transferência de renda sobre propostas para viabilizar o reforço de ampliar a rede de proteção no pós-pandemia. 

Em comum, sugestões para reformulação dos atuais programas sociais e revisão dos gastos com medidas duras, que foram rejeitadas pelo presidente e o seu grupo político, como corte de renúncias e subsídios. Entre as medidas, a revisão do abono salarial (benefício de até um salário mínimo pago a quem ganha até dois pisos) que o presidente condenou com o discurso de tirar dos “pobres para os paupérrimos” até a revisão das regras fiscais para acomodar mais recursos para os mais vulneráveis depois do auxílio emergencial

Uma das propostas é a formulação de um modelo de proteção que abarque a pobreza transitória e o alerta também da impossibilidade prática de unificar programas sociais em poucos meses.

Há também um plano bienal de enfrentamento da calamidade pública para o custeio da renda básica emergencial em 2021, sem colocar em risco outras políticas públicas igualmente relevantes. 

Veja abaixo o que disse cada um dos especialistas consultados pelo Estadão:

'Certo é juntar programas sociais existentes' - Samuel Pessôa, pesquisador sênior do Ibre/FGV

“O uso do Fundeb não é um problema grave, em si, por se tratar de um gasto que já seria feito. A questão é como redirecionar recursos de uma função fora do teto de gastos para uma que teria de ser dentro dele. Mas a ideia de usar precatórios é horrível, seria financiar o programa com mais endividamento. A solução mais acertada, na minha opinião, é a que junta programas sociais existentes (Bolsa Família, seguro-defeso, abono salarial, entre outros), defendida por entidades, como o Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP). Outras sugestões que já foram discutidas – como congelar os benefícios da Previdência por dois anos ou rever os aumentos para servidores – parecem acertadas também, embora politicamente inviáveis. O problema é que existe hoje uma demanda para aumentar o gasto e é possível que a única solução aceitável acabe sendo um aumento de impostos, para sobrar o dinheiro que vai financiar o programa.”

'Expandir a reforma administrativa' - Zeina Latif, consultora e doutora em Economia pela USP

“O que foi proposto pelo governo na última segunda-feira é um desastre. Usar o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) é um oportunismo para furar o teto de gastos. No caso dos precatórios, adiar o pagamento de dívidas é uma sinalização ruim e essa não é uma fonte segura para um programa de natureza permanente, como o de renda mínima. Eles estariam apenas postergando pagamentos. O que deve ser feito é remanejar recursos de outros programas sociais, expandir a reforma administrativa para, em alguma medida, atingir os atuais servidores e todas as categorias, além de congelar o valor de benefícios previdenciários para rendas mais elevadas. É preciso ter muito cuidado no desenho do programa, não se pode repetir os mesmos erros do auxílio emergencial, que foi mal focalizado. E é preciso pensar em um programa que tenha algum tipo de inserção produtiva.”

'É possível cancelar despesas' - Felipe Salto, diretor executivo da Instituição Fiscal Independente do Senado

“O financiamento de políticas públicas deve ser transparente e pautado em regras claras, princípios que possam nortear a administração pública, de um lado, e sinalizar à sociedade e ao mercado a capacidade de garantir as condições de solvência do Estado. No caso do Renda Cidadã, a depender de sua dimensão, é possível cancelar despesas para comportá-lo de maneira fiscalmente responsável no Orçamento. Como se sabe, o teto de gastos corre risco de ser rompido em 2021. Isso não é o mesmo, porém, que abandonar a regra. Se os gatilhos forem acionados, será possível ganhar tempo para aprimorar o teto sem malabarismo e contabilidade criativa. O corte de subsídios creditícios, a possibilidade de se adotar medidas no gasto com pessoal, a exemplo da redução de jornada, e a não postergação da desoneração da folha são três medidas que poderiam ajudar a abrir espaço orçamentário para um programa focalizado ou mesmo uma complementação ao Bolsa Família.”

'É preciso cautela típica do pós-guerra' - Élida Graziene, procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo

“A necessidade de revisão do teto dado pela Emenda 95/2016 se tornou o centro do debate no projeto de Orçamento para 2021. Se, em 2020, vivemos sob o orçamento de guerra, em 2021, precisaremos pautar políticas públicas seguindo a cautela típica do pós-guerra. Não é possível voltar ao horizonte fiscal de 2019, até porque a insegurança sanitária, social e econômica trazida pela covid-19 não será eliminada com os fogos de artifício do réveillon. Um plano bienal de enfrentamento da calamidade pública traria fôlego e racionalidade fiscal para debatermos a necessidade de equalizar a continuidade do custeio da renda básica emergencial sem colocar em risco outras políticas públicas relevantes. Planejar a transição, sobretudo diante da frágil capacidade de arrecadação de todos os entes da Federação, é esforço de justiça fiscal que pode ser feito de forma transparente e equilibrada até para que seja resguardado o custeio dos serviços públicos essenciais.”

'Otimizar programas sociais' - Manoel Pires, coordenador do Observatório Fiscal do Ibre

“O programa Renda Cidadã encontra muitas dificuldades para obter financiamento adequado e o presidente pediu uma contribuição para viabilizá-lo. Pelo lado das despesas, é possível otimizar a cobertura de programas sociais. O abono salarial pode ser destinado para as pessoas com mais tempo no mercado de trabalho. Atualmente, basta trabalhar 30 dias para ter acesso ao benefício. O salário-família e o seguro-defeso deveriam ser revistos. O governo destina muitos recursos para as estatais que podem ser mais eficientes, algumas devem ser fechadas e outras privatizadas. Na reforma administrativa, é necessário regulamentar o teto do funcionalismo. Pelas receitas, existem renúncias no imposto de renda que geram benefícios para camadas mais protegidas. Na estratégia de reforma tributária, o governo anunciou a tributação sobre dividendos, mas não implementou. A tributação sobre direitos de imagem e rendimentos com tributação exclusiva podem ser revistos.”

'Base deve vir do cadastro único' - Letícia Bartholo, gestora governamental e ex-secretária adjunta de Renda de Cidadania

“Nos últimos meses, o debate em torno da transferência de renda assistencial ganhou força com o fim próximo do auxílio emergencial e pululam propostas de novos programas sociais. Fosse a discussão menos ensimesmada e sentassem à mesma mesa os diferentes perfis, a conversa levaria à definição de aspectos consensuais que me permito indicar: 1) o aparato institucional para ampliação das transferências deve ter como base o Cadastro Único e o Sistema Único de Assistência Social; 2) a articulação entre políticas sociais feita pelo Bolsa Família é exitosa e deve ser respeitada; 3) a intensa volatilidade de renda entre os mais vulneráveis exige um modelo de proteção que abarque a pobreza transitória; e 4) a regra fiscal em vigor requer revisão para que o desafio seja cumprido minimamente. Entre achar que nada pode ser feito e que tudo pode ser feito, está o mundo real. E, se ele não é binário, também o debate não pode ser.”

'Discussão deve estar combinada com reforma tributária' - Leandro Ferreira, presidente da Rede Brasileira de Renda Básica

Não há razão para que a discussão sobre a revisão das regras fiscais seja interditada enquanto convivemos com níveis alarmantes de pobreza e concentração de renda. A reforma das transferências de renda deve ser o ponto de partida dessa revisão, que deve incluir correções tributárias, no sentido de maior progressividade que permita o financiamento não só da renda de cidadania, mas, também, de serviços públicos em geral. Um bom caminho é a revisão de benefícios tributários e deduções do Imposto de Renda de Pessoa Física e Jurídica. Ganha força a ideia de benefícios universais como a renda básica. Temos que nos valer do que já existe para chegar lá, como o Bolsa Família, sem que isso signifique aumentar o risco de vulnerabilidade de quem é atendido por políticas públicas, como abono e seguro-desemprego. As propostas do governo até aqui apontaram para uso de recursos voltados à garantia de outros direitos, como saúde, educação e trabalho. É preciso combinar essa discussão com a da reforma tributária para garantir equidade.

'Programas não chegam ao mais pobres' - Vinicius Botelho, pesquisador associado do Ibre/FGV; Fernando Veloso, pesquisador do Ibre/FGV; e Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper

O Programa de Responsabilidade Social visa a atender as famílias em situação de pobreza extrema, estrutural, e as famílias que, embora consigam se sustentar, estão sob o risco de perda abrupta de renda, seja por uma doença, uma pandemia ou morte de familiar. À exceção do Bolsa Família, a maioria dos programas está desatualizada e é incapaz de chegar aos mais pobres. Somado a ele o que é gasto atualmente com abono salarial, seguro defeso e salário família, temos um orçamento inicial de R$ 57 bilhões, que poderia ajudar a combater a pobreza imediatamente, enquanto o País avança em outras reformas, que liberarão recursos fiscais e permitirão ampliar o programa. Nossa proposta tem três módulos: (a) o benefício de Renda Mínima, com o objetivo de eliminar imediatamente a pobreza extrema; (b) a Poupança Seguro Família: um depósito mensal por parte do governo para trabalhadores de baixa renda, que poderia ser sacado em situações de queda de renda; (c) pacote de iniciativas para o desenvolvimento intelectual e educacional das crianças e jovens de baixa renda.

'Políticas de equidade tributária' - Márcio Holland, professor da FGV/EESP

“São vários programas de transferências de renda para família pobres, mas o hiato de cobertura ainda é elevado. Uma solução inclusiva não passa por apenas agrupar as políticas atuais. É preciso ampliar as transferências de renda para os mais pobres, aproveitando a oportunidade para promover a cidadania fiscal, ampliação da base fiscal, e inclusão financeira. Fala-se muito em realizar uma reforma tributária que aumente a eficiência econômica. Mas é preciso colocar políticas de equidade tributária em pé de igualdade. Nenhuma reforma econômica valerá a pena se não endereçar esse problema. Recursos para tal devem vir de ampliação da tributação dos mais ricos, redutor nas deduções de declaração do IRPF. Também é preciso aumentar, de modo relevante, a tributação sobre o patrimônio, bens e doações. Caso esses recursos ainda assim não sejam suficientes, pode-se criar um tributo na linha da CPFM, de alíquota bastante baixa e ajustável. Proponho que se crie mecanismos de declaração do IR cidadã com transferências dos dados do Cadastro Único para as bases da RFB e, com isso, permita identificar, por CPF, o volume exato de transferência de renda do Estado para as famílias carentes.”

'Importante é cortar os gastos' - José Márcio Camargo, economista da Genial Investimentos

“O governo propôs financiar o programa Renda Cidadã, com recursos derivados do pagamento de precatórios e recursos direcionados para o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). Se o dinheiro do Fundeb for utilizado para viabilizar o acesso a creches das crianças de famílias beneficiadas pelo programa, é uma excelente ideia. A utilização de precatórios é mais problemática. Precatórios são dívidas do Estado já transitadas em julgado. Financiar um programa de transferência de renda com esses recursos, seria financiar um gasto corrente com mais dívida, o que contraria o princípio do teto de gastos e penaliza os credores. Se o programa for permanentemente financiado dessa forma, o volume da dívida com precatórios vai aumentar indefinidamente. O que é insustentável. Manter o teto é fundamental. Viabilizar uma fonte de renda quando o auxílio emergencial acabar, também. Porém, usar um atalho para driblar a regra do teto só vai gerar mais risco fiscal, inflação e desemprego. É preciso cortar gastos.”/COLABORARAM EMILLY BEHNKE E DOUGLAS GAVRAS

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