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IPO do Grupo Soma, dono da grife Farm, deve movimentar a B3. Farm/Divulgação

Após susto com pandemia, empresas miram em IPOs e retomam planos de abertura de capital

Ofertas iniciais de ações estão ressurgindo com força e já foram duas aberturas de capital em julho; expectativa é de 30 a 40 operações até o fim do ano, com movimento de R$ 50 bi

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 05h00

Nas últimas semanas, em quase todos os dias pelo menos uma empresa veio a público mostrar interesse em abrir o capital e captar dinheiro na Bolsa. Apesar de o Brasil ainda estar vivendo uma grave crise econômica provocada pela pandemia da covid-19, neste mês duas empresas já abriram o capital – a mineradora de ouro Aura Minerals e a companhia de gestão ambiental Ambipar. E, com a recuperação da Bolsa de Valores (que fechou ontem aos 102,8 mil pontos, voltando aos níveis pré-pandemia), esse movimento tende a crescer muito daqui para a frente.

Ainda para este mês, estão previstas as aberturas de capital do Grupo Soma (dona das grifes de moda Farm, Animale e Maria Filó, entre outras) e da incorporadora Riva9. Em agosto devem vir a rede de farmácias d1000 e a You Inc – outra incorporadora.

E o grosso das ofertas é esperado para ocorrer entre setembro e outubro. Devem chegar no mercado a rede varejista de materiais de construção Quero-Quero, a de produtos para animais de estimação Petz, as incorporadoras Cury, Lavvi e Kallas, a Hidrovias do Brasil, a comercializadora 2W Energia e Caixa Seguridade – uma oferta inicial prevista em R$ 15 bilhões. No total, trinta a quarenta operações do tipo estão sendo estruturadas para o segundo semestre, com um potencial de superar nada menos do que R$ 50 bilhões, mesmo em um ano em que o mercado estima uma retração de 6% do Produto Interno Bruto (PIB).

“As empresas querem dar continuidade aos planos interrompidos em março, quando tiveram de se voltar apenas às suas próprias operações”, diz o chefe de mercado de capitais e renda variável para América Latina do Morgan Stanley, Eduardo Mendez. “Agora, tanto as empresas estão buscando captar, quanto os investidores estão disponibilizando o capital.”

Alessandro Farkuh, responsável pelo banco de investimento do Bradesco BBI, afirma que a carteira de ofertas hoje já está parecida à de antes da crise. Segundo ele, os investidores estão abertos a ouvirem as histórias das companhias, mesmo que as críticas em relação aos negócios estejam maiores. “Para as empresas com uma tese sólida, há muito apetite por parte dos investidores”, diz. “Existe, até mesmo, ‘briga’ por alocação nas ofertas.” A disputa ocorre quando as ações precisam ser divididas entre os investidores, já que nos últimos lançamentos a demanda superou o volume oferecido.

Segundo o diretor de Relacionamento com Clientes da B3, Rogério Santana, ainda há muita incerteza em relação à economia global, mas é natural que o mercado de capitais antecipe o movimento de retomada. “Os investidores estão buscando diversificação e isso passa pelo mercado de capitais”, diz.

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Queda dos juros impulsiona ofertas de ações das empresas na Bolsa

Com a taxa Selic no seu patamar histórico mais baixo, cresce o interesse de investidores por ativos com potencial de ganho maior

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 05h00

Quando 2020 começou, o caminho para a expansão do mercado de capitais brasileiro parecia estar pavimentado. A expectativa era de um ano recorde para as aberturas de capital. Tudo isso mudou com a chegada da pandemia da covid-19. Em março, tudo parou e o ano parecia estar definitivamente perdido.

Mas as condições do mercado mudaram muito rapidamente. Por causa da pandemia e da forte injeção de recursos nos mercados por parte dos bancos centrais de todo o mundo, há uma liquidez global sem precedentes na história. Além disso, os juros no Brasil nunca estiveram tão baixos. A taxa básica caiu para 2,25% ao ano, e pode cair ainda mais. Com investidores atrás de rentabilidade, as empresas com planos de expansão e potencial de consolidação pisaram no acelerador.

Bruno Fontana, chefe da área de banco de investimentos do Credit Suisse, diz que os investidores, ao analisarem a empresa que pretende abrir o capital, estão atentos para o plano de crescimento e analisam com lupa qual o destino dos recursos da oferta primária (aquela que injeta recursos no caixa da companhia). “Para as empresas com agenda de crescimento, estamos tendo muita receptividade com os investidores”, afirma.

Segundo o chefe da área de renda variável da Monte Bravo Investimentos, Bruno Madruga, a retomada dos processos de aberturas de capital é muito positiva para a B3 e para os investidores. “Isso mostra que nosso mercado financeiro está se desenvolvendo”.

Ele explica que a entrada de novas empresas na Bolsa vai trazer mais alternativas para o investidor e, consequentemente, mais oportunidades e concorrência no mercado. “O que é muito bom para a Bolsa brasileira crescer”, diz. O especialista destaca ainda que os IPOs (sigla em inglês para oferta inicial de ações) são uma ótima forma de atrair o investidor estrangeiro de volta para o País, o que faz a Bolsa crescer mais ainda. “O mercado primário atrai muito o investidor estrangeiro.”

Nessa corrida pelo mercado de capitais, o advogado da área de mercado de capitais do escritório BMA, Felipe Prado, diz que, neste momento, a pressa das empresas é para fechar os dados do segundo trimestre para entrega ou atualização da documentação junto ao regulador do mercado. “O resultado do segundo trimestre já refletirá de forma mais fiel os efeitos da pandemia e muitas têm mais conforto em fazer a oferta com esse resultado em mãos”, afirma. Outra atualização da documentação das ofertas são os fatores de risco, com aqueles relacionados ao novo coronavírus ocupando a primeira colocação dentre o que precisará ser evidenciados aos investidores.

Mais por vir

O presidente do Morgan Stanley no Brasil, Alessandro Zema, afirma que após esse ciclo de aberturas esperado até outubro, o fim do ano e o início de 2021 também prometem ser aquecidos. Nessa primeira leva, prevê, virão as companhias que já estavam mais bem preparadas, mas outras já estão com a mão na massa para buscarem recursos na Bolsa. “O processo de abertura de capital dura cerca de quatro meses. Então, é possível que algumas ofertas que não puderem vir em setembro ou outubro aconteçam um pouco depois”, diz.

Madruga, da Monte Bravo, tem a mesma avaliação. Segundo ele, por causa da pandemia, as empresas precisam mais do que nunca se capitalizar e, no cenário de juros atual, abrir o capital ficou muito mais interessante./COLABOROU MATEUS APUD, DO E-INVESTIDOR

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