Após testes, novo Airbus está quase pronto para voar

Aposta da fabricante francesa para concorrer com Dreamliner, da Boeing, aeronave passou ilesa por provas e surpreendeu mercado

Marco Evers, Der Spiegel/O Estado de S.Paulo

07 Maio 2014 | 02h09

O piloto de teste Wolfgang Absmeier, de 54 anos, acumulou centenas de horas de voo no A350, o jato high-tech novo em folha da Airbus. Ele levou o protótipo aos limites extremos de suas capacidades sobre o Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. O piloto voou rápido demais e lento demais - e sempre conseguiu reassumir o controle do gigantesco avião.

O que mais o surpreendeu durante o grande número de voos de teste? "A surpresa", diz o piloto alemão, "foi que não houve surpresas". Isso é realmente espantoso. Normalmente, uma série de falhas técnicas é parte inevitável do desenvolvimento de um novo avião. O super jumbo A380 e o avião de transporte militar A400M da Airbus foram prejudicados por anos de atrasos e bilhões de euros em melhorias necessárias. Mas o A350 - a respostas da Europa ao avião poupador de combustível 787 da Boeing, que experimentou defeitos de nascença similares aos do A380 e do A400M - parece estar decolando com um atraso apenas modesto e custos razoáveis.

Desde que ele alçou voo pela primeira vez, em junho, diz Absmeier, o A350 voou sem nenhum grande problema. Dois dos quatro protótipos decolam da fábrica da Airbus em Toulouse quase todos os dias. O programa de teste requerido para aprovação inclui 2,5 mil horas de voo, das quais os aviões já voaram 1,5 mil. Se não surgir nenhum problema que exija modificações sérias, o jato de fuselagem mais larga - com capacidade para cerca de 300 pessoas a depender da configuração - estará apto para entrar em serviço mais para o fim deste ano.

Na área de produção, técnicos trabalham no avião Nº 006, o primeiro a sair da nova linha de montagem do A350. Cinquenta e três por cento da estrutura do A350 são feitos com materiais mais leves que o alumínio usado anteriormente. O resultado é uma melhoria significativa na eficiência de combustível. Como os materiais high-tech não corroem nem sofrem fadiga de material, a expectativa é que os custos de manutenção também devem baixar.

O avião 006 deve ser entregue em dezembro, com apenas um ano de atraso, à Qatar Airways, o primeiro cliente. A companhia encomendou 80 A350. Com um orçamento de desenvolvimento total estimado em mais de US$ 17 bilhões, isso representa um pouso perfeito.

Com o A350, começa uma nova era para a Airbus. Este jato de longo alcance já promete ser um sucesso de vendas para a companhia. A Airbus tem 812 encomendas de empresas aéreas respeitadas como Cathay Pacific, Singapore Airlines e Lufthansa. Nas próximas duas ou três décadas, o modelo deverá constituir uma parte significativa dos negócios da Airbus.

Milhares de empregos na Alemanha também dependem do sucesso do programa do A350. Partes da fuselagem e do estabilizador vertical são construídas em instalações perto de Hamburgo. Os flaps de pouso vêm de Bremen, onde as asas de construção britânica também são equipadas com fiação elétrica e hidráulica.

Absmeier e seus colegas voaram no avião ao Polo Norte e a La Paz, na Bolívia, que tem o aeroporto mais alto do mundo. Agora, porém, o período de testes deve ficar ainda mais difícil. Neste mês, o aparelho irá ao McKinley Climatic Laboratory, uma lendária câmara de tortura para aviões. O jato será esfriado a menos 43 graus Celsius num hangar especial da Força Aérea americana. Todos os sistemas terão de continuar funcionando sem nenhum problema. Logo depois, o avião será aquecido a até 46 graus e terá de passar pelos mesmos testes.

Testes. O A350 já suportou seu teste mais impressionante pouco depois do Natal. O teste consiste em puxar para cima as pontas das asas ao grau mais extremo imaginável em voo. Depois, os engenheiros aumentam a carga em outros 50%. O avião deve ser capaz de suportar este maltrato - um, dois, três segundos. Após o quarto segundo a asa pode (e deve) quebrar. Mas no caso do A350 a asa não quebrou.

Absmeier vem trabalhando no A350 desde 2005, muito antes de a Airbus ter tomado a decisão final de fabricar o avião. "Deixamos a parte difícil para trás", diz ele. Segundo ele, um dos fatores-chave do sucesso dos voos de teste é que todos os materiais, componentes e programas de computador foram testados durante o longo período de planejamento do A350.

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