Após um ano de crise, bancos repaginam risco para lucrar

Instituições norte-americanas adequam seu capital em relação às operações e já mostram balanços positivos

Cynthia Decloedt, da Agência Estado,

14 de setembro de 2009 | 10h10

A sensação de que a terra parou de tremer um ano após o colapso do banco norte-americano de investimento Lehman Brothers reflete meias verdades. Nesse um ano, mais de 89 instituições financeiras fecharam nos EUA e as que sobreviveram tiveram de conviver com o escrutínio das autoridades para manter suas portas abertas, em meio à crítica da opinião pública, uma montanha de ativos podres, corte de salários e empregos. Grandes bancos exibem lucros, mas voltaram a oferecer, com roupa nova, os mesmos produtos arriscados que estiveram na base do colapso do Lehman, que completa um ano exato nesta segunda-feira, 14.

 

Veja também:

especialUm ano após auge da crise, economia se recupera

especialPIB cresce 1,9% e Brasil sai da recessão

especialAs medidas do Brasil contra a crise

especialDicionário da crise 

especialComo o mundo reage à crise

 

Depois de receber mais de US$ 200 bilhões em apoio do governo norte-americano, a grande maioria dos bancos chegou ao final do segundo trimestre mostrando em seus balanços números muitos bons. Estão também mais ajeitados no que se refere à adequação de seu capital em relação às suas operações, mais enxutos e já começaram a devolver aos "contribuintes" norte-americanos o lhes foi emprestado por meio do Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp) para que também não fechassem as portas.

 

Assim, os bancos não têm colocado mais os nervos dos investidores em Wall Street à prova. Na verdade, desde a temporada de balanços do segundo trimestre, os mercados acionários ganharam um impulso que levou os principais referenciais das bolsas globais de volta aos níveis anteriores ao desaparecimento do Lehman Brothers, um marco da pior crise financeira e econômica dos EUA desde a Grande Depressão, da década de 1930.

 

O jornal norte-americano The Wall Street Journal disse essa semana que os cinco maiores bancos norte-americanos - Bank of America, Citigroup, Goldman Sachs, JPMorgan e Morgan Stanley - tiveram um lucro de US$ 23,3 bilhões nos seis primeiros meses de 2009, um pouco menos da metade do ganho acumulado no mesmo período de 2007, "o auge do boom de Wall Street". Mas, na comparação com o primeiro trimestre de 2008, já às vésperas da quebra do Lehman Brothers e quando as instituições ainda driblavam a crise do subprime (as hipotecas de tomadores de empréstimo com baixo histórico de crédito), o desempenho foi excelente. Nesse período, os cinco bancos tiveram um prejuízo, juntos, de US$ 6,7 bilhões, segundo os cálculos do WSJ.

 

Por trás desses ganhos recentes estão operações financeiras que incluem, alguns suspeitam, produtos tão "exóticos" quando àqueles que conduziram o mundo financeiro à ruína. Foi especificamente durante o segundo trimestre que o balanço dos cinco maiores bancos brilhou, em todos os casos, graças a receitas obtidas nas mesas de operações com ações, títulos de dívida, câmbio, commodities, produtos financeiros e com operações para captar dinheiro a empresas e bancos menores. Foi nesse período que o JPMorgan, segundo maior banco dos EUA, saiu do prejuízo pela primeira vez desde 2007.

 

A revista Business Week, em sua edição de 14 de agosto, e o Wall Street Journal mostraram que os grandes bancos, entre suas operações, estão novamente apresentando a seus clientes produtos arriscados sob uma nova aparência. A Business Week diz que nos últimos meses, o Bank of America, o Citigroup e o JPMorgan repassaram a empresas novas linhas de crédito com custo baseado não só no juro, mas também em Credit Default Swap, um derivativo (instrumentos de investimento derivados de um ativo) que representa o custo para garantir o risco de tal empresa dar um calote em sua dívida. Ou seja, se a economia norte-americana não vingar como é esperado e a saúde da empresa tomadora do empréstimo piorar, o custo do empréstimo também vai subir.

 

Wells Fargo e o Fifth Third, outros grandes bancos norte-americanos, têm oferecido empréstimos de altíssimo custo, chamados payday-loan, para consumidores pessoa física ou pequenas empresas em dificuldade de caixa. Segundo o site norte-americano do Centro de Concessão de Empréstimo Responsável, alguns empréstimos chegam a apresentar juro de 400%. Esse tipo de empréstimo normalmente era concedido somente por pequenas instituições de crédito, sem status de banco, operando em pequenos centros urbanos. Mas com a crise financeira, alguns grandes entraram no negócio para engordar receitas.

 

A Business Week ressalta não haver uma indicação de que esse tipo de empréstimo esteja fadado ao desastre. Mas, observa que o fato tem chamado a atenção dos reguladores, legisladores e advogados que temem que os bancos estejam se envolvendo novamente em empréstimos perigosos a tomadores com baixa capacidade de pagamento ou estejam vendendo ativos "tóxicos" a investidores que não compreendem o risco que estão tomando.

 

Nesse sentido, autoridades no mundo todo têm se posicionado para um aumento da rigidez nas regras envolvendo os mercados financeiros onde se compra e vende derivativos e que opera quase que completamente sem uma regulamentação e supervisão. As autoridades também discutem como exigir dos bancos que operem de modo mais seguro e evitar que, em busca de um polpudo prêmio no final do ano, executivos se lancem em engenharias financeiras capazes de gerar, a partir de um ativo de péssima qualidade, lucros espetaculares.

 

Foi assim que tudo começou. Grandes e suntuosas instituições de investimento de Wall Street procriaram uma série de veículos de investimento baseados em hipotecas residenciais de tomadores, muitos deles pessoas físicas até sem emprego. A falência do Lehman Brothers foi a evidência de que essa não tinha sido uma boa ideia.

 

Em entrevista sobre o colapso do Lehman concedida à revista de negócios norte-americana Fortune, no último dia 8, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, disse: "O Lehman foi o sintoma de quão poderosa a crise era, não a causa ou o que a precipitou".

 

Na reunião de 5 de setembro do grupo das 20 maiores economias do mundo (G-20), os ministros das finanças desses países formalizaram pedidos feitos em abril para aumentar o capital dos bancos e mapear as estruturas de remuneração das instituições. No dia seguinte, os representantes dos principais bancos centrais do mundo e reguladores que compõem o Comitê da Basileia para Regulação Bancária deu mais um passo em direção a reformas já definidas sobre regras quanto ao capital dos bancos.

 

A grande mudança definida pelo comitê foi que pelo menos metade do capital Tier1 (capital principal) seja composto por ações ordinárias e lucros retidos, com capacidade para absorver rapidamente perdas com empréstimos. Os bancos terão de deduzir do capital Tier1 itens como baixas contábeis e bens intangíveis de seu principal capital. O Comitê da Basileia não definiu ainda se irá elevar o nível mínimo de exigência de capital, atualmente em 8% dos depósitos, mas os grandes bancos já trabalham acima disso.

 

Esse esforço das autoridades para evitar brechas que podem ter causado a recente crise acabará encurtando o lucro das instituições, avaliam analistas. Ontem, o JPMorgan disse que o retorno por ação - uma medida de lucratividade - dos bancos de investimento em 2011 irá cair para 11%, de 15% em sua previsão anterior, em consequência do provável impacto das propostas para regulação da indústria. O banco previu também que os bancos terão de reduzir o custo total por empregado em 15% em 2011 em relação aos níveis de 2009.

 

Por enquanto e apesar das contínuas críticas contra a remuneração dos executivos, destaca The Wall Street Journal, os cinco maiores bancos de Wall Street reservaram aproximadamente US$ 61 bilhões para remuneração e benefícios para seus empregados, um número timidamente menor aos US$ 65 bilhões no primeiro semestre de 2008 e apenas um pouco inferior aos US$ 77 bilhões do primeiro semestre de 2007.

 

Mas a possibilidade de remuneração e lucro menor não é certamente o principal risco que as instituições enfrentam. Entre outros riscos, os especialistas em setor bancário olham para o mercado de hipotecas comerciais, que podem apresentar problema semelhante às hipotecas residenciais subprime, para o potencial de alta da taxa de desemprego norte-americana e suas implicações sobre os empréstimos e sobre o fardo das baixas contábeis que os bancos têm compulsoriamente sido obrigadas a colocar em seus balanços.

 

A agência de classificação de risco Moody's previu que os bancos norte-americanos registrarão US$ 470 bilhões em perdas contábeis relativas a empréstimos e aplicações em ativos este ano e no ano que vem, US$ 415 bilhões relativas a empréstimos. Segundo a Moody's, esse volume corresponde a 7,5% dos empréstimos concedidos no final de 2008. No primeiro semestre, os bancos contabilizaram como perdas US$ 70 bilhões ou 1,3% dos empréstimos concedidos até dezembro de 2008. A Moody's estima que um adicional de US$ 345 bilhões de perdas contábeis sobre empréstimos no segundo semestre deste ano e em todo o ano de 2010, equivalente a 6,2% do total de empréstimos concedidos até o final de 2008. Em termos porcentuais, isso é quase o dobro do que os bancos colocaram de lado para enfrentar perdas futuras com empréstimos até 30 de junho.

Tudo o que sabemos sobre:
crisebancoslucro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.