Após vendas históricas, investimento recorde

Montadoras vão investir neste ano no País quase US$ 1 bilhão a mais do que em 2009

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

A indústria automobilística brasileira vai investir, somente neste ano, US$ 4,4 bilhões (cerca de R$ 8 bilhões), o equivalente a quase 40% de todo o montante anunciado por montadoras e fabricantes de autopeças para o período 2010 a 2015. O aporte, recorde anual, supera em aproximadamente US$ 1 bilhão todo o dinheiro gasto pelas companhias do segmento no ano passado, quando o País registrou o melhor ano da História, com mais de 3,1 milhões de veículos novos comercializados.

"O dinheiro será aplicado principalmente em novos produtos, engenharia e desenvolvimento e em capacidade produtiva", informa o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider.

A capacidade produtiva das montadoras, hoje de 4 milhões de veículos ao ano, será ampliada, mas a Anfavea ainda não calculou os números oficiais. Consultores projetam uma capacidade extra de pelo menos 1 milhão de veículos.

Segundo Schneider, a ampliação da capacidade não significa necessariamente novas fábricas, pois a maioria das empresas tem área disponível. Por enquanto, duas montadoras anunciaram novas plantas. A japonesa Toyota está construindo fábrica em Sorocaba e a coreana Hyundai em Piracicaba, ambas no interior de São Paulo, com início de operação previsto para 2012.

Caixa próprio. Nos últimos meses, as montadoras e as autopeças anunciaram investimentos de cerca de R$ 20 bilhões (US$ 11,4 bilhões) para os próximos cinco anos. Parte do dinheiro virá de empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e parte do caixa das próprias empresas instaladas no País, algumas delas dispensadas de remeter lucros para as matrizes.

Desde que mostrou capacidade de crescer em meio à crise internacional, quando a maioria dos demais mercados mundiais viu suas vendas de carros despencarem, o Brasil ganhou sinal verde das matrizes para ampliar negócios no País.

No ano passado, as vendas internas de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus aumentaram 11,4% em relação a 2008. Para este ano, a projeção é de novo crescimento de 9,3%, embora no primeiro trimestre os números estejam quase 18% melhores que os de igual período do ano passado.

A previsão de Schneider é de desaceleração do crescimento daqui em diante, em parte por causa do fim do subsídio oferecido desde dezembro de 2008 por meio de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis com motor até 2.0 de potência. Ainda assim, a projeção da Anfavea é de encerrar 2010 com um novo recorde de 3,4 milhões de veículos vendidos no País.

Quarto maior. Com as vendas em alta, o Brasil pode se consolidar como quarto maior mercado mundial de veículos, posição que já alcançou no primeiro trimestre deste ano. Com 788 mil veículos vendidos, o País passou a Alemanha (729 mil unidades) e a Itália (726 mil). Nos primeiro bimestre a Itália ocupou o posto, com 10 mil unidades à frente do mercado brasileiro. Os três primeiros no ranking são China, EUA e Japão.

No início de março, Roland Berger, presidente mundial da consultoria de mesmo nome, havia antecipado ao Estado projeções de que o Brasil será o quarto maior mercado de carros em 2010, desbancando a Alemanha, no posto há sete anos.

Para Schneider, manter-se no quarto lugar no ranking é uma projeção "em cima de um mundo que não está normal". Segundo ele, os dois mercados que competem diretamente com o Brasil - a Alemanha e a Itália - estão sob efeito de altos incentivos fiscais e, com o fim dos benefícios, tendem a cair.

"Diferentemente do que ocorreu no Brasil, onde o programa de estímulo atraiu consumidores novos, que tiveram condições de comprar o primeiro carro zero, lá fora os incentivos serviram mais para a antecipação de compra", diz o executivo. "Quando o estímulo acaba, o mercado tende a se acomodar com queda, como ocorreu na Alemanha e deve ocorrer na Itália."

Para lembrar

O novo ciclo de investimentos que está ocorrendo no setor automobilístico é visto pelo mercado como o mais importante desde o final dos anos 90, quando ocorreu um boom de novas fábricas no País. Só Volkswagen, Ford e General Motors vão investir R$ 13 bilhões até 2015. A Fiat deve anunciar seu novo plano nas próximas semanas.

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