Aposentados da Varig ainda esperam acordo

Governo pode pagar perdas da empresa e beneficiar pensionistas que ganham só até 8% do que deveriam

Alberto Komatsu, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

A abertura de negociações entre o governo e a antiga Varig (Flex) para o pagamento da indenização de pelo menos R$ 5 bilhões por perdas com o congelamento de tarifas entre os anos 80 e 90 trouxe esperança para os 8 mil aposentados do Aerus. No entanto, isso não vai apagar o sofrimento dos que tiveram seus benefícios reduzidos a 8% do valor total por causa de um rombo de R$ 3 bilhões no fundo de pensão. Esse é o testemunho de três beneficiários que somam mais de cem anos de serviços para a antiga Varig. O ex-comandante Zoroastro Ferreira Lima Filho, 78 anos, e os ex-comissários de voos internacionais Uyranê Holanda e Sadi Deonilo Bonadeu Barcelos, ambos com 65 anos, tiveram de baixar o padrão de vida e se desfazer de bens para poderem sobreviver com apenas uma parte de seu benefício desde abril de 2006, quando foi decretada a intervenção e liquidação do Aerus. De lá para cá, seus benefícios foram sendo reduzidos, apesar de terem contribuído para o Aerus desde a sua criação, em meados de 1982. Pertencem ao plano 1, de benefício definido, o mais prejudicado com a derrocada do Aerus. Os aposentados que pertencem ao plano 2 estão numa situação menos crítica, pois recebem, em média, cerca de 60%. "A minha maior dificuldade foi aceitar tudo o que aconteceu, por causa do padrão de vida que eu tinha. Me senti roubado, sem poder reagir. Por pouco não entrei em quadro de depressão", afirmou o ex-comissário Sadi, que tem de sustentar dois filhos, uma moça de 19 anos e um rapaz de 17 anos, com R$ 1 mil que recebe do Aerus, quando o certo seriam R$ 6,7 mil. Sadi teve de incluir no orçamento o salário de sua esposa, que é professora, e tem ainda a ajuda do INSS, de R$ 1,7 mil. Mesmo assim, teve de cortar a assinatura de televisão a cabo, demitiu a empregada e negociou um desconto de 50% na mensalidade da escola de seu filho. "Baixei violentamente o meu padrão de vida", afirma o ex-comissário. Holanda, também ex-comissário da Varig, vive situação parecida. Ele recebe atualmente do Aerus R$ 900 por mês, sendo que seu benefício integral era de R$ 5 mil. Ele conta que teve de dispensar sua faxineira, cortou a TV a cabo e deixou de pagar academia de ginástica para os filhos. "Eu fico mais angustiado com o adiamento (do acordo), porque está morrendo muita gente do Aerus. Só neste mês foram dois colegas", afirma Holanda, se referindo à prorrogação da negociação do acordo para o pagamento a indenização para a inclusão do Ministério da Defesa no grupo de trabalho. VENDA DE APARTAMENTOO ex-comandante Zoroastro também teve de abrir mão de bens por causa do encolhimento se sua renda mensal da pensão do Aerus . Seu benefício atual é de R$ 864, sendo que o valor integral deveria ser de R$ 7 mil. Por causa disso, teve de vender um apartamento, se desfez de um de seus carros, ano 2004, permanecendo com um modelo 1992. E cancelou seu plano médico para ser dependente do seguro de sua esposa, Vera. "Estamos numa fase em que não aguentamos mais. Não perdi as esperanças, mas todos sabemos como é a Justiça no nosso País", disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.