Felipe Rau/Estadão
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'Aposta contra o real é uma péssima aposta', diz Gesner Oliveira

De acordo com o professor da FGV e sócio da GO Associados, não há risco de explosão do preço do dólar, e pondera que o Brasil não é uma ilha e que sofre a pressão geral sobre o câmbio

Entrevista com

Gesner Oliveira, professor da FGV-SP

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 15h00

Em função das contas externas e da situação confortável da inflação, o Brasil é um país relativamente blindado à recente pressão sobre o dólar, na avaliação do economista Gesner Oliveira, professor da FGV-SP e sócio da GO Associados. “A aposta contra o real é uma péssima aposta e não há risco de explosão do preço do dólar”, afirma o especialista, ponderando que o Brasil não é uma ilha e que sofre a pressão geral sobre o câmbio. 

Apesar da situação mais favorável, com cerca de US$ 380 bilhões de reservas e inflação muito baixa, ele acredita que a alta do dólar deve ter impacto sobre preços do diesel, da gasolina, dos insumos importados. No entanto, o professor acredita que o movimento do câmbio poderá reduzir  o espaço para cortes maiores na taxa de juros no ano que vem. A seguir, trechos da entrevista.

O sr. acredita que o dólar mudou de patamar? Quais motivos levaram a isso? 

Acho que houve uma mudança de patamar. O próprio mercado reconheceu isso nas projeções reveladas pela pesquisa Focus. Isso decorre de uma situação internacional na qual você continua com um cenário de grande incerteza. Há percepção de que os focos de tensão não serão aliviados imediatamente. Prevalece a visão de que os conflitos entre China e EUA vão perdurar e vai continuar uma demanda grande por ativos mais seguros e o dólar é um deles. Aliado a isso, tem uma situação de queda dos juros. Portanto o diferencial de juros é menor, o que atrai menos capital de curtíssimo prazo. Também  há uma contração do comércio internacional, com o desempenho que ainda é folgado nas contas externas. Existe um ingresso líquido de recursos ainda grande, mas a demanda por dólar está mais forte.

Esse patamar do dólar acima de R$ 4,20 veio para ficar?

É difícil saber o intervalo do dólar. Mas claramente acima de R$ 4 é um patamar que corresponde a essa situação de demanda por ativo seguro no plano internacional, uma outra realidade nas contas externas. Por outro lado, o ciclo da economia brasileira está mudando, a recuperação ganhou corpo. A demanda por importações ganha um pouco de força. A contração no comércio internacional faz a exportação cair. Eu diria que certamente é um patamar acima de R$ 4 com a diferença, comparativamente à Argentina, pois temos uma situação confortável do ponto de vista de reservas internacionais. Há cerca de US$ 380 bilhões de reservas. É um cacife que o banco central argentino não tem, nem o do Chile. Dos países emergentes, o Brasil está uma situação relativamente confortável. 

O que pode fazer o câmbio recuar?

Se houver uma continuidade das reformas e uma aceleração e as expectativas domésticas continuarem melhorando. Eventualmente, poderíamos ter uma mudança desse patamar do câmbio para baixo. 

Existe um componente de desconfiança em relação às reformas e isso afetou o câmbio? 

Não, porque não foi isso que mudou. O que mudou foi o quadro internacional. Tanto que a desvalorização de moedas emergentes foi um fenômeno geral. Agora, se o Brasil aumentar a velocidade das reformas, tudo mais constante, daí existe um efeito positivo. Mesmo assim, a força do movimento internacional é muito grande.

Quais são os desdobramentos do câmbio acima de R$ 4,25 na vida das pessoas e das empresas?

Primeiro há uma mudança de preços relativos, os produtos nacionais ficam mais competitivos. Certos segmentos que no passado tiveram dificuldade com real valorizado, hoje têm uma situação de competitividade melhor. O segundo ponto é a pressão de preços de importados, que é inevitável. Mas estamos numa situação em que a taxa de inflação é historicamente muito baixa. Nunca tivemos expectativas de inflação sistematicamente abaixo da meta, olhando dois anos à frente. E não há grandes pressões inflacionárias, salvo o choque da carne. Então, há espaço para acomodar o choque de preços dos importados.

Existe risco inflacionário?

O risco inflacionário é pequeno mesmo com o impacto da  desvalorização do real. O dólar nesse nível não ameaça o regime de metas e tampouco a política de taxa de juros. Havia analistas fazendo projeções de continuidade de redução da Selic (taxa básica de juros) em 2020. Isso eu tenho a impressão que não deve ocorrer. Deve ter mais uma queda da Selic em dezembro e depois dessa queda, tenho impressão que vai haver  uma acomodação. 

A alta do dólar pode interromper o ciclo de queda dos juros?

De qualquer maneira, o ciclo de queda dos juros está chegando ao seu final. Acho que chega nesse nível e depois há uma certa espera para ver como a economia reage. De qualquer maneira já havia uma previsão de fase final do ciclo de queda dos juros. Com esse aumento do câmbio, isso tende a ser reforçado, pois  se trata de uma pressão inflacionária. Mais cedo ou mais tarde virão pressões sobre o preço do diesel, da gasolina, dos insumos importados. Como estamos com taxa de inflação baixa e com uma economia ainda não muito aquecida, com grande ociosidade em vários segmentos, isso não vai representar uma pressão inflacionária muito preocupante. Porém reduz o espaço para cortes maiores na taxa de juros. 

O sr. acredita que esse nível de câmbio pode acelerar o processo de substituição de importação ou a indústria nacional está muito sucateada para caminhar nessa direção? 

Sempre que a taxa de câmbio sobe, é natural que haja uma substituição de importações. Não é um processo generalizado porque o câmbio é volátil. Sempre abre espaço para o fornecedor local. Com o dólar mais alto, o custo do importado fica maior e compra-se mais internamente.

Qual o reflexo para as empresas que têm custo em dólar? Vão ter as margens mais apertadas pela dificuldade de repasse?

É preciso analisar caso a caso e fazer um estudo mais global. As empresas têm impactos sobre custos. É preciso avaliar a capacidade de repassar para os preços e também é preciso levar em conta o efeito patrimonial. Isto é,  qual é o endividamento da empresa em dólar. Brasil não é uma ilha. Ele sofre a pressão geral sobre o dólar. Mas em função das contas externas e da situação da inflação é um país relativamente blindado a essa forte pressão sobre o dólar. Embora a gente esteja num patamar mais alto, a aposta contra o real é uma péssima aposta. Não há risco de explosão do preço do dólar. 

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