Aposta renovada no desaquecimento da economia

Análise: José Paulo Kupfer

O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2011 | 03h02

Do segundo para o terceiro trimestre, de acordo com as projeções do Banco Central, divulgadas ontem no Relatório de Inflação, as perspectivas de crescimento da economia para 2011 refluíram para 3,5%, ao mesmo tempo que a inflação avançou para 6,4%, borda do teto da meta. Pode-se, então, concluir que o BC errou na mão ao cortar os juros básicos em agosto e acenar com novos cortes até o fim do ano?

Numa visão em perspectiva, a resposta é: ainda não. Na verdade, quanto mais se estender no tempo o horizonte de avaliação, maior parece a possibilidade de que o BC tenho feito um movimento acertado. Hoje, a inflação pressiona. Daqui a alguns meses, a pressão pode vir no sentido contrário, em razão de desânimo na economia.

Pouco a pouco vão se dissipando as dúvidas a respeito do caráter deflacionário que, num prolongado futuro próximo, dominará o ambiente econômico - tanto lá fora quanto aqui. No caso das economias maduras dos Estados Unidos e da Europa, nem o mais excêntrico analista é hoje capaz de sustentar que o inevitável processo de desalavancagem não terá como consequência uma forte contração econômica. Antes de se desvencilharem das dívidas, consumidores não irão às compras e, assim, empresas não investirão.

Essa não é uma tendência que possa reverter em prazo curto. Explica-se: as políticas monetárias e fiscais conhecidas já foram levadas a extremos e, por isso mesmo, mostram-se agora incapazes de mudar, pelo menos no curto prazo, os rumos deflacionários nos quais a economia global embarcou.

Um pouco já como reflexo do baixo-astral global, mas também por uma ação deliberada de política econômica, que pretendeu, logo no início do governo Dilma, frear o ritmo de atividades, o Brasil vê convergirem para baixo um número cada vez maior de indicadores de crescimento.

Há justificados temores com relação ao impacto inflacionário do salto já contratado para o salário mínimo em 2012 e dúvidas quanto ao comportamento da taxa de câmbio, com seus efeitos nos preços. Desconfia-se também da veracidade dos reiterados anúncios oficiais de contração na política fiscal.

Mas não se pode esquecer que, para convalidar repasses de preços, em quase cem por cento das circunstâncias, a demanda não deve estar em retração. Um crescimento de 3,5% ao ano - se é que não será menos - não é propriamente um indicativo de demanda aquecida.

Não seria politicamente correto reconhecer, mas é num prolongado e baixo crescimento da economia - não só para a internacional, como declarado, mas para a doméstica também - que o Banco Central joga suas fichas.

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