Apostas são de nova alta da taxa Selic

O Comitê de Política Monetária (Copom) encerra hoje sua primeira reunião do ano pressionado, por um lado, pela persistência da inflação e, de outro, pelo custo político imposto ao governo por manter juros elevados. Todas as apostas são de nova alta da taxa Selic e de juros altos, pelo menos, no primeiro semestre, o que acentua o nível de insatisfação com a política do Banco Central. O primeiro a tornar explícita sua discordância foi o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan. Ele defendeu que juros altos não servem para combater uma inflação provocada por preços administrados por contratos ou monitorados, como combustíveis, telefonia e energia, confirmando uma impaciência que vem alimentando há algum tempo quando provocado sobre a questão dos juros. Furlan não se cansa de comentar que o próprio presidente Lula quer uma taxa de juros reais (descontada a inflação) de apenas um dígito este ano. A taxa real está hoje em 11%, considerando-se uma previsão de inflação de 5,7% até dezembro e a Selic de 17.75%. Ontem, foi a vez do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, manifestar sua expectativa que a taxa Selic não suba ainda mais. "Ainda é o começo do ano, e o cenário macroeconômico internacional não está claro", ponderou. "Vamos olhar para ver o que vai acontecer nos próximos dois meses". No entender dele, há espaços para redução dos juros, desde que haja condições internacionais e internas para tanto.O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Armando Monteiro, disse que uma elevação na taxa de juros hoje seria um "sinal negativo" para os agentes econômicos. "É lamentável essa política conservadora e ortodoxa do Banco Central", afirmou Monteiro.O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, já prepararam o terreno dos críticos dos juros altos nas entrevistas desse final de semana. Eles reforçaram os argumentos explicitados na ata da reunião do Copom de dezembro. No documento, os diretores do BC sinalizaram que novas altas estariam por vir e que manter os juros elevados por período mais longo é a forma de assegurar que a inflação futura esteja em linha com a meta desejada pelo governo.O BC vem calibrando a taxa de juros para que o IPCA, índice de preços que serve de referência para o regime de metas de inflação, fique em 5,1% em 2005. No entanto, analistas, investidores e empresários apostam em um porcentual mais alto: 5,7%. Depois das elevações da taxa Selic nos últimos meses, essa projeção chegou até a recuar, mas voltou a subir esta semana, deixando o BC numa situação delicada. As projeções do mercado acabam influenciando os preços correntes e, num momento de recuperação da economia, estimulam reajustes preventivos que a autoridade monetária tenta conter aumentando os juros.As insatisfações de Furlan em relação ao nível atual da taxa Selic são partilhadas pelo setor produtivo. No entanto, se por um lado, os empresários consideram mais uma elevação desnecessária, por outro, parecem ter aceito isso como uma realidade inevitável. "Não há razões para nova alta (dos juros), mas reconheço que com as elevações do mercado em relação à projeção futura de inflação, o governo deve tomar alguma atitude", disse Armando Monteiro Neto. Mesmo assim, ele considera uma nova alta desestimulará investimentos produtivos.O presidente do Serviço Brasileiro de Apoio à Pequena e Micro Empresa (Sebrae), Paulo Okamotto, que tomou posse ontem no cargo, defendeu a política da equipe de Lula, seu amigo pessoal. "Sempre queremos pagar juros menores porque uma taxa alta prejudica os investimentos. Mas temos que entender que, às vezes, a política de juros altos é necessária para manter o controle sobre a inflação", disse. "Não precisamos ficar só chorando porque pior do que ter dinheiro caro é não ter estabilidade e as condições para tomar dinheiro emprestado", completou.O ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, argumentou tangenciando o assunto: os juros altos não impediram o crescimento econômico no ano passado. "Todos nós e também quem faz a política monetária desejamos a queda dos juros, mas é fundamental o controle da inflação", afirmou, destacando os juros atuais e um crescimento da economia entre 4% e 4,5% possibilitam o crescimento dos investimentos em infra-estrutura que o País precisam.

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