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Apoteose do retrocesso

O 'populismo' saiu de seu hábitat natural na América Latina e disseminou-se mundo afora em 2016

Monica De Bolle*, O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2016 | 05h00

“Todo poder emana do povo. Mas, para onde vai?”

Bertolt Brecht

Nunca antes – será?– houve tantas menções ao termo “populismo” quanto ao longo de 2016. De Donald Trump e Bernie Sanders nos EUA a Marine Le Pen e Geert Wilders na Europa. Da insurgência de alianças de esquerda, como o Syriza na Grécia e o Podemos da Espanha, à consolidação do poder de líderes e partidos da direita extrema no Leste Europeu, como Viktor Orbán na Hungria, entusiasta de Trump, o partido Lei e Justiça na Polônia, Recep Tayyip Erdogan na Turquia. Não esqueçamos de Rodrigo Duterte nas Filipinas – sim, há “populismo” também na Ásia. Da aparente morte do Lulopetismo e do Kirchnerismo ao estrebuchante Chavismo na Venezuela. O “populismo” saiu de seu hábitat natural na América Latina e disseminou-se mundo afora em 2016. Mas, o “populismo”, como mostram esses exemplos, sofre da síndrome de Anna Karenina: todos os regimes “populistas” o são a seu modo.

Há um sem número de livros sobre o “populismo”, termo escorregadio e vago, cheio de facetas e nuances. “Populismo” é comumente usado como sinônimo de “anti establishment”, e associado a sentimentos como “raiva”, “frustração”, “ressentimento”. Não existe uma “Teoria do Populismo”, ou critérios rigorosos e coerentes para defini-lo. A melhor definição moderna do termo é do cientista político holandês Cas Mudde da Universidade da Geórgia, nos EUA: “O populismo é uma ideologia rala que considera a sociedade como dividida entre dois grupos homogêneos e antagônicos – o “povo” e as “elites corruptas” – e que propõe que a política seja expressão da vontade geral do povo”. Entendido dessa forma, é fácil perceber como o “populismo” pode ser apropriado pela direita ou pela esquerda, sobretudo em suas vertentes radicalizadas. Afinal, o populismo tem um quê de simplório e radical, simultaneamente. Trata-se da antítese do pluralismo, já que seus proponentes enxergam nos “outros” valores que não correspondem à vontade legítima do “povo”.

O curioso é que a vagueza da definição política do “populismo”, e, portanto, de julgamentos a seu respeito, não encontre equiparação em sua definição econômica. Políticas econômicas ditas populistas são insustentáveis, intervencionistas, às vezes protecionistas. Elas refletem a “vontade do povo” de alterar as estruturas econômicas, ocasionando a intervenção no funcionamento dos mercados, a elaboração de medidas pontuais que acabam por danificar a produtividade da economia e a capacidade de investir, mas se autojustificam pelo desejo de “redistribuir” para atender aos “menos favorecidos” ou à “maioria silenciosa”.

Imaginem um país que tenha decidido promover políticas para favorecer a renda das famílias, o crescimento e o emprego, e que esteja fazendo isso por meio de aumentos sistemáticos dos gastos do governo e de elevações da carga tributária. Imaginem que essas políticas tenham aumentando sobremaneira o peso do Estado na economia, elevando os riscos no balanço do setor público. Imaginem ainda que o governo, em nome da “vontade do povo”, do “anseio por melhorias na qualidade de vida”, tenha decidido adotar mudanças frequentes e imprevisíveis na política econômica, alimentando a incerteza, interferindo perversamente no ambiente de negócios, reduzindo a confiança e o investimento privado. Imaginem que esse país tenha resolvido estimular o crédito para combater a inevitável desaceleração econômica proveniente da queda do investimento.

Pensaram no Brasil, na Argentina? Lembraram-se do Lulopetismo ou do Kirchnerismo? Torceram o nariz, franziram o cenho, enojaram-se ante a suposta estupidez da esquerda latino-americana? Pois o país descrito acima não está na nossa região. O país descrito é a Hungria de Viktor Orbán, primeiro-ministro pela segunda vez desde 2010. Foi Orbán quem reorientou seu partido, o Fidesz, da plataforma pluralista, pró-Europa, pró-liberalização econômica dos anos 90, para sua atual postura nacionalista, conservadora, eurocética, cabeça da coalizão de direita que hoje governa a Hungria. Delineações muito semelhantes às políticas econômicas de Orbán começam a surgir na Polônia do Lei e Justiça, partido vitorioso nas eleições de 2015.

“Aquele que ri ainda não ouviu as más notícias”, disse Brecht. Em 2017, cabe abrir bem os olhos para o ardiloso retrocesso em curso mundo afora, iniciado nesse sombrio 2016.

* MONICA DE BOLLE É ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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