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ANÁLISE: Apreensão do mercado com a China é exagerada

Especialistas avaliam que cenário não repete colapso asiático de 1997, uma vez que os países têm mais espaço para usar políticas para combater a crise financeira; desaceleração da economia chinesa, entretanto, é fator de risco

O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2015 | 10h35

A desvalorização da moeda chinesa e o recente cenário de queda nos mercados de câmbio e de ações da Ásia não devem levar a outra crise financeira asiática tal como a vista no fim dos anos 1990, afirmam analistas. O risco, entretanto, é uma desaceleração econômica da China no longo prazo.

Nesta segunda-feira, 24, a bolsa de Xangai despencou 8,5% e levou na esteira outras asiáticas e a bolsa de Sidney. A Europa também registrou perdas, na casa dos trilhões, e a Bovespa tem forte queda com o movimento de baixa. 

"Nós acreditamos que a apreensão do mercado é exagerada, já que o câmbio na Ásia está subvalorizado e as opções de política são amplas", afirmam analistas do Bank of America Merrill Lynch. Diferentemente de 1997, a maioria dos países asiáticos tem déficit em conta corrente, mas balanços fortes, dependendo menos de empréstimos de moedas estrangeiras, segundo o banco. 

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Nós acreditamos que a apreensão do mercado é exagerada, Bank of America Merrill Lynch
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Mais importante ainda, os países asiáticos também têm mais espaço político para combater uma crise. Muitos países, como China, Coreia do Sul e Índia, podem cortar mais os juros neste ano, enquanto durante a crise de 1997, muitas nações asiáticas tiveram de elevar os juros para defender suas moedas.

Josh Klaczek, do JP Morgan, também argumenta que o cenário é diferente do visto no fim dos anos 1990. O analista diz que a região asiática atingiu um "ponto de inflexão negativa, relativo à qualidade e ao crescimento dos ativos". Segundo ele, porém, apesar de semelhanças com o período anterior a 1997, há diferenças de magnitude e composição. 

Klaczek cita, por exemplo, o fato de a dívida corporativa externa ser bem mais baixa hoje, mas com uma alavancagem geral doméstica maior, ainda que a maior parte dessa alavancagem esteja concentrada em China, Hong Kong e Cingapura. "Essa dinâmica representa uma saída do financiamento estrangeiro na região e o uso do excesso de liquidez para apoiar o consumo e o investimento após a crise financeira global", afirma o economista.

Do lado negativo, Klaczek aponta que a relação entre crédito privado e Produto Interno Bruto (PIB) na Ásia é 29% maior hoje que em 1996. Além disso, diferentemente do que ocorreu em 1998, o Federal Reserve, o banco central norte-americano, pode estar menos em uma posição de agir como um agente capaz de ajudar a conter o fluxo de saída de capital. O analista lembra que o Fed em 1998 cortou os juros três vezes, ajudando a conter a crise nos emergentes. "Mas neste caso, a alta de juros do Fed pode apenas ser retardada, o que deve enfraquecer mais os mercados emergentes", diz Klaczek.

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A alta de juros do Fed pode apenas ser retardada, o que deve enfraquecer mais os mercados emergentes, Josh Klaczek, JP Morgan
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O analista diz que, se por um lado a relação entre crédito e PIB continua elevada na região, a diferença principal com 1996 é que uma parte maior do crescimento tem sido financiada com liquidez doméstica. Nos anos 1990, países como Indonésia, Malásia e Tailândia tinham déficits em conta corrente muito altos, o que resultou em crise quando os fluxos de capital começaram a reverter seu curso e as contas correntes não puderam apoiar as reservas. Agora, esses déficits são menores, na comparação, o que por sua vez permitiu que a Ásia construa maiores colchões de reserva em moeda estrangeira em geral, de acordo com o analista. 

Fator de risco. O principal risco na China é uma desaceleração estrutural de longo prazo ao invés de uma retração mais dura na economia no curto prazo, aponta o economista Larry Macquarie Hu. Em nota, Hu afirma que temores com uma desaceleração mais dura no curto prazo são exagerados e que é prematuro dizer que o banco central do país está sem munição para evitar uma desaceleração mais abrupta.

"O maior desafio é garantir que existam vetores de crescimento novos para substituir os vetores antigos, como as exportações, vendas de imóveis e produtos de baixo custo, que perderam o fôlego. Para sustentar uma taxa de crescimento entre 4% e 5% a longo prazo, a economia precisa de um papel maior do setor privado e de uma revisão dos seus mercados de capitais e de trabalho", diz Macquarie Hu, acrescentando, no entanto, que não será um caminho fácil.

Já o co-diretor de investimento da BlueBay Asset Management, Mark Dowding, aponta que as incertezas sobre o tamanho da desaceleração do crescimento chinês permanecem. "Por enquanto, parece estar claro que o risco de uma retração mais dura aumentou consistentemente e é provável que a política em Pequim terá que ser afrouxada", destacou Dowding.

O co-diretor aponta ainda que a fraqueza em curso nos mercados emergentes e principalmente na China estão "levando a uma deterioração do apetite ao risco em escala global" e acrescenta que ele tem mais confiança nos mercados de renda fixa da zona do euro neste momento, onde ele diz que os rendimentos de títulos devem permanecer baixo devido ao cenário de baixa inflação e flexibilização do banco central.

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Você pode lutar contra as forças do mercado por muito tempo antes de acabar perdendo, Alastair McCaig, IG
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Para a economista do banco UBS, Wang Tao diz que o governo fará o que for preciso para estabilizar o crescimento entre 6,5% e 7%. "O banco central ainda tem espaço para cortar as taxas de juros, reduzir os requisitos de reservas bancárias e manter amplos níveis de liquidez no sistema bancário", pontua a economista.

O banco vê risco de queda na sua previsão de crescimento econômico de 6,8% para 2015, mas sustenta que a recente recuperação das vendas de imóveis reduziu o risco de uma retração mais forte na economia real neste ano. 

Analista de mercado da IG, Alastair McCaig afirma que o cenário atual, pode representar uma lição para o Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês). "Independentemente do que o governo chinês e o PBoC estejam dizendo e fazendo, eles estão atualmente aprendendo a lição que muitos aprenderam antes, a de que você pode lutar contra as forças do mercado por muito tempo antes de acabar perdendo", disse McCaig em nota a clientes. (Com informações da Dow Jones Newswires).

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