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Aprendendo a usar dinheiro

Em julho o Plano Real chega à maioridade. Há 18 anos o País expulsou a inflação de sua vida e iniciou uma caminhada de progresso que poderia ser mais rápida, mas se movimenta no ritmo possível da nossa ainda imatura democracia. Descrever o que ocorreu nesses 18 anos, só em páginas e páginas intermináveis. Portanto, vamos aproximar a lente e focar na nova classe média ascendente, quase 110 milhões de pessoas que compram, consomem e poupam, quando sobra. Metade delas é estreante no mercado de consumo. É natural que queiram recuperar o atraso e usar seu dinheiro para comprar o que a família passou anos desejando. É a aspiração do passado realizada no presente. E o futuro?

SUELY CALDAS, jornalista; é professora da PUC-Rio; e-mail:sucaldas@terra.com.br, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h06

Por iniciativa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), desde 2008 seis órgãos do governo e 19 instituições financeiras privadas desenvolvem um projeto denominado Estratégia Nacional de Educação Financeira, cujo objetivo é levar para adultos e estudantes conhecimentos sobre hábitos e formas de consumir, poupar, investir e proteger seu dinheiro; planejar seu orçamento; comprar a casa própria; entender a engrenagem dos juros; controlar suas dívidas e conhecer seus direitos de devedor.

Sem um centavo de dinheiro público, apenas com financiamento do Banco Mundial e de instituições privadas, em 2008 esse grupo realizou uma pesquisa nacional em que 36% dos pesquisados declararam ter perfil gastador, 54% não conseguem honrar suas dívidas e só 31% poupam regularmente para a aposentadoria. Aplicada em todo o País, a pesquisa visou principalmente aos brasileiros da classe média ascendente. Por estar situada no meio do estrato social, com renda para gastar e poupar com aperto, é justamente a classe que mais precisa de educação financeira.

"Não tem nada de ideológico. Nem capitalismo, nem socialismo, nem liberalismo. É simplesmente a vida das pessoas, ajudá-las a cuidar de si", define o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, presidente do Conselho de Administração da Bovespa, uma das instituições apoiadoras. "É ensinar a criança desde cedo a administrar seu dinheiro, poupar, consumir com limites, contratar um seguro de vida, previdência, endividar-se de forma saudável. E com meta de fazer disso uma disciplina obrigatória nas escolas públicas", diz Maria Helena Santana, presidente da CVM.

Mas o Brasil não inventou a ideia. Ao aprender com experiências na Inglaterra, EUA, Espanha, Nova Zelândia e Austrália, constatou que o atraso no assunto não é só nosso. Segundo uma pesquisa, na Inglaterra, justamente a capital financeira da Europa, só 20% da população passou em teste de aritmética básica para avaliar o preparo para tomar decisões - 80% mostraram insegurança em decidir onde aplicar seu dinheiro.

A partir de 2008, o comitê que toca o projeto no Brasil estruturou experiências piloto em 439 escolas públicas de 99 municípios, envolvendo 13.236 estudantes do ensino médio. Professores foram preparados e usaram três livros didáticos nas aulas. "A ideia é levar informações e conhecimento para o estudante tomar a decisão certa quando virar adulto, escolher onde aplicar o dinheiro de acordo com suas necessidades, com autonomia e sem paternalismos. Seja comprar sua casa, fazer um seguro de vida, poupar para a aposentadoria, negociar com o banco os juros do cartão de crédito, contrair um empréstimo, comprometer uma parcela da renda com a prestação de um bem. E, sobretudo, planejar e controlar seu orçamento", explica Maria Helena Santana. Incentivador do projeto, Armínio Fraga acredita que, com o tempo, a educação financeira vai enraizar na população a cultura do pensar no longo prazo, ajudando a elevar a taxa de poupança do País - hoje um bloqueador ao desenvolvimento.

A partir de junho, as experiências piloto terão filhotes em todo o País. Após terem avaliado seu impacto nos estudantes, pais e professores, o Ministério da Educação começará a etapa final do projeto de incorporar Educação Financeira no currículo das escolas públicas do ensino médio. Professores e escolas interessados podem consultar detalhes no site www.vidaedinheiro.gov.br.

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