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Aquarela brasileira

Assim tem sido nos últimos 30 anos, intercalando melhorias e retrocessos. Custa avançar, mas é fácil retroceder

Ana Carla Abrão, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 05h00

Quando eu era pequena, o 7 de Setembro era uma festa. Uma festa cívica. Içávamos a bandeira, usávamos verde e amarelo, desfilávamos de uniforme nas ruas da minha cidade e aprendíamos sobre um Brasil forte, próspero e gigante. Junto com a imagem da bandeira lá no alto do mastro e do hino nacional decorado às pressas, vinha um sentimento de força e orgulho pela nossa grandeza, pela nossa diversidade, nossa força cultural e por nossa mistura de raças e de credos. 

Os anos foram passando, o Brasil foi avançando. Veio, enfim, a redemocratização, mas alguns problemas foram ficando mais complexos, com uma economia que não crescia e as questões sociais se aguçando. As aulas de moral e cívica ficaram para trás, mas a relação entre aquela data e um orgulho quase infantil de fazer parte de uma grande nação permaneceu viva. Afinal, o amor à pátria não é nem nunca foi prerrogativa militar. Assim como o sentimento cívico está para muito além da bandeira e do hino, reafirmando um Brasil diverso, plural e democrático. Um Brasil do samba, do carnaval, do frevo e do maracatu, do sincretismo, da luz e do sol e da eterna primavera de uma aquarela muito além do verde e amarelo.

Outros anos se passaram e o Brasil foi avançando mais, embora menos do que os seus pares. O PIB per capita brasileiro cresceu de forma quase que contínua de meados dos anos 90 até 2013, mostrando a força de um País que se desenvolvia. Mas o mundo ajudava o Brasil, e também crescia – mais do que nós. A partir daí, a curva se inverteu e devolvemos boa parte do que avançamos. Depois de atingirmos 30,5% do PIB per capita americano, em 2013, recuamos até próximo aos mesmos 25% de 2000, segundo dados do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia, da FGV).

Outros indicadores econômicos e sociais mostram o mesmo padrão: melhoramos e devolvemos melhoras, numa montanha russa que insiste em nos trazer de volta ao ponto de partida. Nossa produtividade, a par de efeitos extraordinários e temporários da pandemia, continua estagnada – quando não decrescente. A taxa de investimento, de 17,7% do PIB na última década, também segundo o Ibre, é a menor média em mais de 50 anos. Mais recentemente, sequer tem dado conta de cobrir a depreciação do estoque de capital existente. A taxa de investimento público não passa hoje de 2,58% do PIB, metade do que era em 2010. Assim, viadutos caem, museus ardem, a memória se esvai, a máquina pública se deteriora e o custo Brasil continua nos tirando competitividade. No campo social, a universalização do ensino felizmente nos entregou uma média de anos de escolaridade de países avançados, mas o aprendizado ficou para trás. A pandemia agravou esse quadro, e nada indica que haja algum plano nacional para reverter isso. Aqui também recuaremos, cobrando o maior dos custos. 

Ao menos no saneamento deveremos, não sem grande atraso, dar um salto. Graças ao novo marco aprovado em 2020 e à entrada do setor privado nessa área, que sofre com décadas em que a gestão pública pouco fez. Outra nota positiva é o fomento à inovação e inclusão financeiras, mostrando que o Brasil reage e atrai investimentos sempre que uma boa regulação pavimenta o caminho das oportunidades. Deveria haver muitos outros exemplos desses, mas infelizmente não os há. Ao contrário, a se confirmar uma reforma do Imposto de Renda esdrúxula e uma reforma administrativa corporativista, andaremos mais uma vez muitas casas para trás nesse jogo do desenvolvimento.

Com essa trajetória errática, o Brasil diverso foi ficando, no tempo, cada vez mais desigual. Assim tem sido nos últimos 30 anos, intercalando melhorias e retrocessos. Custa avançar, mas é fácil retroceder. O Brasil continua grande. Mas está mais pobre. E muito dividido. Não há um projeto de nação, não há a força da coletividade, não há uma agenda de prosperidade e de justiça social. Precisamos de uma liderança a nos unir, não a nos dividir. Sem isso, não haverá novos avanços, só retrocessos.

Hoje, 7 de Setembro, o verde e amarelo estará de novo nas ruas. Mas um verde e amarelo que exalta a morte, a divisão, a intolerância, o negacionismo e o retrocesso institucional. Um verde e amarelo que nega nossa aquarela de cores. Um verde e amarelo que nega um Brasil lindo e trigueiro. Independência não é isso. Independência é avanço, não retrocesso. Independência é democracia.

ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE

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