Aquela sensação de iminência da queda

Risco de uma parada e um duplo mergulho recessivo aumentou fortemente em muitas economias avançadas

Nouriel Roubini, do Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2011 | 00h00

Apesar da série de eventos de baixa probabilidade e alto impacto que atingiu a economia global em 2011, os mercados financeiros continuaram a subir alegremente até cerca de um mês atrás. O ano começou com elevação de preços dos alimentos, do petróleo e de commodities, fazendo ressurgir o espectro da inflação alta. Depois, as sublevações de massa que eclodiram no Oriente Médio provocaram novas altas dos preços do petróleo. Aí veio o pavoroso terremoto no Japão que prejudicou seriamente tanto a economia japonesa como as cadeias globais de suprimentos. E depois Grécia, Irlanda e Portugal perderam acesso a mercados de crédito, requerendo pacotes de resgate do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia.

Mas a coisa não termina aí. Embora a Grécia tenha sido salva há um ano, o "plano A" claramente fracassou. A Grécia vai precisar de novo salvamento oficial - ou um "bail-in" (salvamento em que credores privados arcam com os prejuízos), uma opção que está provocando acirrados debates entre autoridades financeiras europeias.

Ultimamente, temores com os déficits fiscais insustentáveis dos Estados Unidos também resultaram em uma dura luta interna política que quase paralisou o governo. Uma batalha parecida está fervendo sobre o "teto de endividamento" nos EUA que, se não for resolvida, introduz o risco de um "calote técnico" da dívida pública americana.

Até recentemente, os mercados pareciam descontar esses choques. Afora alguns dias em que o pânico sobre Japão e Oriente Médio causou uma correção, eles continuaram sua marcha ascendente. Do fim de abril para cá, contudo, uma correção mais persistente ocorreu nos mercados de capitais globais movida por preocupações de que o crescimento econômico nos Estados Unidos e mundial possa estar em forte desaceleração.

Os dados de Estados Unidos, Reino Unido, a periferia da zona do euro, Japão, e mesmo de economias de mercado emergentes, estão indicando que parte da economia global - em especial as economias avançadas - pode estar parando, se não entrando num duplo mergulho recessivo. A aversão ao risco global também aumentou na medida em que a opção de "prorrogar e fingir" ou "retardar e rezar" para a Grécia está se tornando menos desejável, e o espectro de um desfecho desorganizado esteja ficando mais provável.

Os otimistas argumentam que a economia global apenas atingiu um "trecho macio". Empresas e consumidores reagiram aos choques deste ano desacelerando "temporariamente" o consumo, os gastos de capital e a criação de emprego. Se os choques não se agravarem (e alguns ficarem menos agudos), confiança e crescimento se recuperarão no segundo semestre deste ano, e os mercados acionários tornarão a subir.

Mas há boas razões para crer que estamos experimentando uma recessão mais persistente. Primeiro, os problemas da periferia da zona do euro são, em alguns casos, problemas de real insolvência e não de iliquidez: grandes e crescentes déficits e endividamentos públicos e privados; perda maciça de competitividade; falta de crescimento econômico; e aumento do desemprego. Já não é possível negar que as dívidas públicas e/ou privadas na Grécia, Irlanda e Portugal terão de ser reestruturadas.

Segundo, os fatores que estão impedindo o crescimento americano são crônicos. Eles incluem uma desalavancagem lenta, mas persistente, dos setores público e privado; aumento nos preços do petróleo; fraca criação de emprego; outra recessão no mercado imobiliário; problemas fiscais graves nos níveis estadual e local; e um déficit e peso de dívida insustentáveis em nível federal.

Terceiro, o crescimento econômico tem se mostrado moroso na Grã-Bretanha nos dois últimos trimestres, com a austeridade fiscal concentrada num momento em que a inflação em alta está impedindo o Banco da Inglaterra (banco central britânico) de flexibilizar a política monetária. Aliás, a inflação pode até obrigar o banco a elevar as taxas de juros no outono (setembro-dezembro). E o Japão já está escorregando de novo para a recessão por causa do terremoto.

Essas economias todas já estavam crescendo anemicamente e abaixo da tendência na medida em que o processo em curso de desalavancagem requeria uma desaceleração dos gastos públicos e privados para aumentar taxas de poupança e reduzir dívidas. E, diferentemente do período 2007-2010, quando cada choque negativo e recuo do mercado eram compensados por mais ação política de governos, desta vez as autoridades estão ficando sem munição e, por isso, podem ser incapazes de desencadear mais reflação e revigorar a economia real.

Essa falta de munição política se reflete na adoção, pela maioria das economias avançadas, de alguma forma de austeridade para evitar um desastre fiscal mais adiante. A dívida pública já está alta, e muitas nações já estão em condições quase lamentáveis, de modo que a capacidade de governos sustentarem seus bancos via mais salvamentos, garantias e contingenciamentos de ativos questionáveis está severamente limitada. Outra rodada da chamada "flexibilização monetária quantitativa" por autoridades monetárias pode não ocorrer, pois a inflação está subindo - ainda que moderadamente - na maioria das economias avançadas.

Se os dados econômicos globais mais recentes refletem algo mais sério que um soluço, e mercados e economias continuarem morosos, as autoridades financeiras poderão se ver de mãos vazias. Se isso ocorrer, o risco de uma parada e um duplo mergulho recessivo aumentaria fortemente em muitas economias avançadas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PRESIDENTE DA ROUBINI GLOBAL ECONOMICS (WWW.ROUBINI.COM), PROFESSOR DE ECONOMIA NA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO STERN DA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK E COAUTOR DE CRISIS ECONOMICS.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.