José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

‘Aqui no Brasil, o povo pensa que não vai dar certo’

Convidados falam das experiências que tiveram ao empreender com poucos recursos em negócios ligados à economia criativa

Roberta Cardoso, Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2016 | 05h00

Todo empreendedor passa por muitos desafios na construção de um negócio. Entre tirar uma ideia do papel e colocá-la na prática, com sucesso, existe um caminho cheio de possibilidades e incertezas. O ponto mais sensível desse trajeto está na viabilização prática de uma ideia. Em um painel realizado durante a ‘Semana de Economia Criativa’, evento realizado pelo Estado, quatro empreendedores debateram sobre criatividade, inovação e viabilização de ideias e projetos nos dias atuais.

“O brasileiro pensa que não vai dar certo. A gente é desencorajado a pensar diferente. Estamos moldados para desacreditar no novo e apostar no que existe”, refletiu Lucas Foster, fundador e diretor executivo do ProjectHub, plataforma que incentiva a criatividade e o empreendedorismo.

Em contrapartida, os que têm fôlego e persistência, esbarram em dificuldades estruturais, como a falta de recursos ou até mesmo a administração deles. Lucas Mello, CEO da LiveAd, agência de comunicação digital, afirma que nem sempre a solução está em aporte financeiro de investidores. Junto com os sócios, o empresário alcançou bons resultados e, de um pequeno negócio, conquistou grandes participantes do mercado mundial. “A gente construiu todos os negócios com pouquíssimo investimento. No início, usávamos a mesa do churrasco do pai de um amigo para trabalharmos.”

No entanto, ele relembra de uma tentativa frustrada, ao aceitar dinheiro de investidores estrangeiros para criar um estúdio de design. O negócio, diferente dos outros que possuía, foi desenvolvido com recursos, bem diferente da realidade que estava acostumado a trabalhar. “Foi o único negócio que não deu certo. E não deu certo porque tínhamos investimento. A gente não estava acostumado a trabalhar com dinheiro.” Depois de um ano, os sócios perceberam que a empresa dava gastos e foi fechada. “Acredito no envolvimento, na doação de horas de sono, na vida que você dá para a sua ideia dar certo.”

O empresário Vitor Knijnik, sócio-fundador da Snack, rede de canais no Youtube, endossa que a figura do investidor anjo é relevante, mas não garante que um projeto vai dar certo. “A figura do mecenas, que vem com a varinha de condão, empodera, e o empresário faz o que quer, está diluída hoje. Todo youtuber, que começou sozinho, é um empreendedor. Ele tem que gravar, editar, se vender e fazer midiaKit”, afirma.

Fator de sucesso. O que faz um negócio ir para frente ou não depende também da resiliência. Para Rafael Vettori, sócio da O Panda Criativo, holding de negócios ligados ao universo criativo, o exercício de expor uma ideia fora da curva acaba ajudando, mesmo quando não se encontra ajuda para torná-la viável. “Quando você tem uma ideia disruptiva, em que você precisa provar que ela é boa para alguém, você se põe muito à prova. E esse é o primeiro teste se seu produto ou serviço de fato faz sentido e merece ser levado adiante.”

Amadurecimento. Fundar uma startup de sucesso é o sonho recorrente de empreendedores. Porém, não basta uma boa ideia. “Inovação sem cliente volta a ser apenas uma ideia”, lembra Sergio Risola, CEO do Cietec, incubadora de micro e pequenas empresas há 18 anos, dois deles na Universidade de São Paulo (USP).

O estreitamento entre universidade e empresa é uma luta global para fomentar a economia criativa. “O apoio é fundamental não só nas instituições de ensino, mas nas entidades de classe também”, reforça Alessandra Conceição de Andrade, coordenadora do Centro de Empreendedorismo da FAAP.

“A economia criativa é feita de pessoas que começam a entender cada vez mais de pessoas. Não é só dividir conhecimento. É adquirir também.”

Até mesmo os erros fazem parte do processo de amadurecimento de uma ideia. Risola cita a FailCon, conferência que surgiu em 2009, em São Francisco, com o intuito de aproximar experiências de fracasso nos negócios. Longe de glamourizar os erros, o evento aproxima empreendedores com as lições aprendidas com as falhas. “É impressionante como faz sucesso. E isso só acontece porque há uma troca de valores entre os participantes. O mundo está mudando. A mentalidade de ter um negócio só pelo lucro também. Muitas pessoas querem montar um negócio para melhorar o mundo”.

No Brasil, os erros fazem parte de quem empreende cedo. “Aqui, o empreendedor que dá certo tem em média 40 anos de idade. Isso mostra as deficiências do jovem, de não acreditar em si”, aponta Risola. 

Mas são justamente as tentativas frustradas que também fornecem maturidade para fazer um negócio prosperar. “Contar com ajuda de uma incubadora e estar mais próximo das universidades é também estar mais próximo dos investidores. E um investimento, mesmo que pequeno, pode mudar a realidade de uma pequena empresa”, alerta Risola.

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