Ryan Donnell/NYT
Ryan Donnell/NYT

Cai a área de plantações geneticamente modificadas no mundo

Baixo preço das commodities levou fazendeiros a plantar menos soja, tanto geneticamente modificada, quanto não

Andrew Pollack, The New York Times

25 de abril de 2016 | 12h17

Os fazendeiros do mundo aumentaram o uso de lavouras geneticamente modificadas de maneira constante e acentuada desde que a tecnologia começou a ser amplamente comercializada em 1996. Mas não mais.

Em 2015, pela primeira vez, a área usada para essas culturas diminuiu, segundo uma organização sem fins lucrativos que acompanha as plantações de sementes transgênicas.

A organização afirma que a principal causa da diminuição de 1%, em comparação com os níveis de 2014, foi a queda do preço das commodities, que levou os fazendeiros a plantar menos milho, soja e canola de todos os tipos, tanto geneticamente modificado quanto não.

Mas os números dos últimos anos mostram que o mercado para essas plantações está quase saturado.

Apenas três países, Estados Unidos, Brasil e Argentina, são responsáveis por mais de 3/4 do total global de áreas. E apenas quatro lavouras, milho, soja, algodão e canola, representam a maioria do uso da biotecnologia na agricultura. Em muitos casos, mais de 90% dessas quatro culturas que crescem nos três países, e em outros grandes produtores como o Canadá, a Índia e a China, já são geneticamente modificados, deixando pouco espaço para expansão.

Os esforços para aumentar o uso de biotecnologia para outras lavouras e outros países têm encontrado dificuldades por causa da oposição dos consumidores e de grupos ambientalistas, de obstáculos regulatórios e em alguns casos científicos.

"A regulamentação cara para culturas biotecnológicas transgênicas continua sendo o principal entrave à adoção", afirma o sumário executivo do relatório da organização, o International Service for the Acquisition os Agri-Biotech Applications (Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agro-Biotecnológicas).

A organização afirma que sua missão é ajudar pequenos fazendeiros de países em desenvolvimento a tirar proveito da biotecnologia, que segundo eles pode aumentar a renda dos agricultores e diminuir o uso de pesticidas. A instituição recebe apoio de várias fundações, empresas, grupos de comércio e governos, incluindo a Monsanto e o governo americano.

Ainda assim, a contagem de área feita pelo grupo é amplamente citada, algumas vezes até mesmo por críticos da biotecnologia.

As conclusões políticas a que o grupo chegou são outra questão. Bill Freese, analista de ciências políticas do Centro de Segurança Alimentar, que geralmente se opõe a culturas geneticamente modificadas, diz que os relatórios da organização são "apenas promocionais".

A diminuição do crescimento da agricultura biotecnológica contribuiu para a consolidação interna da indústria, com a fusão entre a DuPont e a Dow e a compra da Syngenta pela China National Chemical Corp. Também está por trás dos esforços da Monsanto para diversificar, incluindo uma oferta fracassada para comprar a Syngenta no ano passado.

No geral, a área plantada com sementes biotecnológicas caiu 1% globalmente, de 181,5 milhões de hectares em 2014 para 179,7 milhões de hectares em 2015. As plantações foram cultivadas em 28 países e usadas por até 18 milhões de fazendeiros, a maioria pequenos e em nações em desenvolvimento, diz o relatório. Críticos dizem que apesar da expansão durante as duas últimas décadas, as culturas biotecnológicas ainda representam uma pequena fração das terras agriculturáveis do mundo e são cultivadas por uma porcentagem pequena de agricultores.

O valor das sementes foi US$15,3 bilhões em 2015, menos do que os US$15,7 bilhões de 2014. Isso representa 34% do comércio global do mercado de sementes, segundo o relatório.

A maior parte das plantações geneticamente modificadas contém genes de bactérias que as deixam resistentes a certos insetos e tolerantes ao Roundup e a outros herbicidas. Essa tolerância a herbicidas permite que os agricultores pulverizem produtos químicos que matam as ervas daninhas sem prejudicar as culturas.

As plantações foram ansiosamente adotadas desde o momento em que se tornaram amplamente comercializadas em 1996, principalmente nos Estados Unidos. A área global cresceu anualmente, e em muitos períodos aumentou dois dígitos, até a desaceleração nos últimos dois ou três anos.

Os Estados Unidos continuaram a ser o maior produtor dessas culturas em 2015, com quase 71 milhões de hectares plantados, queda de mais de dois milhões de hectares desde 2014. Esse declínio foi compensado principalmente pelo aumento de cerca de dois milhões de hectares no Brasil, trazendo o total a 44,2 milhões de hectares. A área na Argentina, o terceiro maior produtor, cresceu um por cento, para cerca de 24,5 milhões de hectares.

Plantações na Índia, país em que a única cultura geneticamente modificada é o algodão, continuaram em 11,6 milhões de hectares, enquanto que no Canadá caíram cerca de cinco por cento para 11 milhões de hectares por causa da diminuição geral do cultivo de canola, segundo o relatório.

L. Val Giddings, defensor das culturas biotecnológicas, diz que a pequena queda anual é um sinal de maturação do mercado.

"Não estou nem um pouco surpreso de ver essa pequena evidência de ciclos, que são normais na agricultura", afirma Giddings, membro sênior da Fundação de Informação Tecnológica e Inovação, organização de Washington que defende políticas que permitam a inovação.

Os esforços para introduzir características diferentes a culturas variadas vêm se estabelecendo lentamente.

Nos Estados Unidos, duas culturas importantes geneticamente modificadas foram aprovadas desde 2014 - maçãs que não ficam marrons quando cortadas e batatas que produzem menos substâncias químicas que podem causar câncer quando fritas. Mas em resposta a ativistas, algumas empresas de comida, como o McDonald´s, Wendy e Gerber disseram que não pretendem usar um ou os dois produtos no momento.

O desenvolvimento desses mercados será gradual, com apenas 162 hectares de batatas e seis hectares de maçãs plantados em 2015, segundo o relatório.

Desde que Vermont decidiu exigir a rotulagem de alimentos que contenham plantas geneticamente modificadas, algumas grandes empresas, como Campbell, General Mills e Mars afirmaram que vão começar a rotular todos os seus produtos no país inteiro. A Del Monte Foods foi ainda mais longe, dizendo que vai eliminar ingredientes de plantações geneticamente modificadas de seus alimentos.

Na China e na Índia, os agricultores adotaram amplamente o algodão modificado para se tornar resistente a insetos. Mas os esforços para expandir o uso de biotecnologia às plantações de alimentos falharam. A China tem dedicado muita pesquisa para suas versões de milho e arroz geneticamente modificado, mas ainda não os aprovou para uso comercial.

Em 2010, na Índia, o governo impôs uma moratória para o cultivo comercial de um tipo de berinjela local resistente a insetos. Recentemente, o governo disse que iria reduzir as taxas que a Monsanto e seu parceiro local podem cobrar de empresas de sementes de algodão por seus genes, o que levou a Monsanto a ameaçar reavaliar seus negócios no país.

A Europa continua o centro da oposição a essas plantações. As culturas na União Europeia caíram 18% para apenas cerca de 121.400 hectares, quase todos de milho resistente a insetos plantado na Espanha.

O relatório afirma que a área global poderia aumentar se o milho geneticamente modificado fosse adotado na China e em outras partes da Ásia e da África. O Vietnã começou a plantar esse tipo de milho comercialmente em 2015. O relatório também diz que existem 85 novos produtos em potencial sendo testados, incluindo milho que resiste à seca e feijão-fradinho resistente às pragas para a África.

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