Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Área econômica já analisa impacto de acusações e teme que retomada seja interrompida

Para especialistas, a acusação contra o presidente é séria e gera um impasse para o avanço das reformas

Adriana Fernandes, Idiana Tomazelli e Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2017 | 07h19

BRASÍLIA - Embora não tenha havido nenhum posicionamento oficial, a área econômica já discute cenários sobre o impacto na economia da revelação de que o presidente Michel Temer teria dado o aval para comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha nas investigações da Operação Lava Jato. As acusações colocam o governo no corner e têm potencial para interromper as negociações para a aprovação das duas principais reformas econômicas em tramitação no Congresso: a da Previdência e trabalhista.

Há o temor de que o processo de retomada do crescimento do País, que começou só agora no primeiro trimestre de 2017, seja interrompido ainda em sua fase inicial depois de um ano do governo Temer. O clima é de frustração diante desse risco.

Após a divulgação da notícia da delação de Joesley Batista, um dos donos da JBS, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, foi ao Palácio do Planalto para uma reunião com o presidente. Meirelles já tinha cancelado antes todos os compromissos que teria à tarde, depois de participar da 20ª Marcha dos Prefeitos. O ministro foi presidente do conselho de Administração da J&F, holding controladora da JBS.

Entre assessores da área econômica do governo, a notícia revelada pelo jornal O Globo é descrita como "bomba total", apurou o Broadcast. "É mais um empecilho para o crescimento", admitiu outro assessor do Ministério da Fazenda.

Para o cientista político e presidente da Arko Advice consultoria, Murillo de Aragão, a acusação contra o presidente é séria e gera um impasse para o avanço das reformas. "Aumenta a importância do Meirelles e do presidente do BC, Ilan Goldfajn, na condução da economia", disse Aragão, ressaltando que mais importante do que os nomes dos expoentes da economia é a direção da política econômica, que precisa ser mantida. Na sua avaliação, é prematuro fazer um diagnóstico sobre o futuro, mas ponderou que "no mínimo" o governo ficou paralisado pela denúncia. "Tem que se organizar para saber se continua ou se acaba", afirmou o cientista político.

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O economista Paulo Tafner, especialista em Previdência, avaliou que é preciso apurar os fatos, mas reconheceu que as acusações são graves e podem trazer problemas de governabilidade a Temer, justamente em momento de fragilidade econômica. "Sem governabilidade não há reformas", avaliou. "Estamos à beira do precipício." O economista ainda criticou o vazamento do conteúdo da delação de Joesley Batista, que teria gravado o presidente Temer dando o aval sobre Cunha. "Isso demonstra um pouco de descompromisso com o próprio País", disse.

Com os holofotes voltados para a crise de governabilidade, a Câmara dos Deputados vai se ocupar com o pedido de impeachment do presidente Temer, que já foi protocolado pela oposição, comprometendo as votações. Para negociadores das reformas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, haverá "pouco tempo e energia para pensar em uma coisa tão prosaica quanto uma reforma da Previdência", principalmente se a Câmara precisar eleger o próximo presidente da República de forma indireta.

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No caso da reforma trabalhista, o cronograma previa que o relator, senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), apresentaria o parecer na próxima terça-feira. A votação da reforma da Previdência estava sendo projetada para o final do mês. Diante da revelação, já não há mais certeza sobre o calendário e muito menos sobre a aprovação das medidas. Também ficarão prejudicadas as negociações do parcelamento de débitos tributários, o Refis.

Banco Central. O Banco Central afirmou, por meio de nota, que está monitorando o impacto das informações recentemente divulgadas pela imprensa. A instituição afirmou ainda que atuará para manter a plena funcionalidade dos mercados.

Ainda na nota, o BC afirmou que esse monitoramento e atuação têm foco no bom funcionamento dos mercados. De acordo com a instituição, "não há relação direta e mecânica com a política monetária, que continuará focada nos seus objetivos tradicionais".

Confiança. Há, ainda, outro risco que foge totalmente do alcance das autoridades e está sendo monitorado em Brasília: a confiança. Na equipe econômica, há o temor de que as incertezas políticas e a deterioração do mercado financeiro acabe com a recuperação da confiança e interrompam a incipiente reação da atividade econômica.

Diante das dúvidas sobre o futuro do presidente Michel Temer, investidores, empresários e famílias perdem confiança e podem interromper a tão esperada decisão de voltar a comprar e investir. Ao mesmo tempo, a alta do dólar pode piorar ainda mais a situação com aumento da inflação, o que poderia influenciar no processo de queda do juro liderado pelo Banco Central.

Ainda no campo da confiança, há o risco de as denúncias que envolvem a cúpula do grupo J&F - que controla a JBS e outras empresas como o Banco Original - atinjam ainda mais pessoas do governo. O próprio ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, já atuou no conselho de administração do grupo. 

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