Argentina abre precedente perigoso, diz Financial Times

O jornal Financial Times afirma em editorial publicado hoje que a Argentina jogou pesado, mas que o risco compensou. De acordo com o jornal londrino, ao empurrar aos credores privados um acordo "lamentável" de reestruturação da dívida de US$ 100 bilhões, a Argentina reescreveu as regras do jogo das finanças dos mercados emergentes. A Argentina, opina o jornal, provou que os países em débito têm muito poder em suas negociações com os detentores de bônus. "Isso aumentou o risco envolvido nos empréstimos a emergentes e deverá elevar os juros cobrados sobre os títulos da dívida desses países", alerta.Para o Financial Times, a prioridade agora é lidar com os 24% de credores que rejeitaram o swap da dívida, que detêm US$ 20 bilhões em dívida ou US$ 25 bilhões, somando os juros. O jornal acredita que, se a Argentina cumprir a ameaça de ignorar estes credores, abrirá caminho para décadas de litígio, o que inviabilizará um novo acordo com o FMI. O melhor, segundo a publicação, seria reabrir a oferta por um período limitado. "O Fundo deverá esclarecer que retomará os empréstimos à Argentina apenas sob condições rígidas", afirma. A reestruturação da dívida bem sucedida é uma condição necessária para um acerto com o FMI, mas não suficiente. Um novo acordo com o FMI terá de incluir metas de superávit primário por vários anos, o que foi vergonhosamente omitido por pressão dos EUA da última vez, às custas dos investidores, diz o FT. O FMI, prossegue, deverá também exigir reformas estruturais nos setores de infra-estrutura e bancário, além de obrigar a Argentina a fazer pagamentos líquidos substanciais ao Fundo de talvez US$ 1 bilhão por ano sobre a dívida de US$ 14 bilhões. O que a Argentina fez tem implicações para os mercados emergentes como uma classe de ativo, alerta o FT. "Não mostrou que os mercados podem ser desafiados com impunidade (a Argentina passou por um inferno para chegar lá). Mostrou, na verdade, que o custo do default (calote) é menor do que se pensava e que o benefício, em termos de potencial redução da dívida, é maior", argumenta o FT. O jornal considera que a Argentina criou um novo referencial para quantos credores podem esperar perder com default: cerca de 70%, muito acima das reestruturações de dívidas soberanas anteriores.Segundo o FT, o exemplo da Argentina aumenta "um pouco" a probabilidade de outros países emergentes declararem default no futuro, mas aumenta "muito" a expectativa de perda com o default, o que deve elevar o spread (prêmio) cobrado sobre os títulos da dívida de países emergentes.

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