Argentina abre Vaca Muerta à Gazprom

Para driblar deficiência energética do país, Cristina Kirchner assina protocolo de intenções com a estatal russa para exploração de gás

RODRIGO CAVALHEIRO, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2015 | 02h04

BUENOS AIRES - A presidente argentina, Cristina Kirchner, terminou ontem uma visita à Rússia para negociar com o russo Vladimir Putin projetos de energia nuclear, hidrelétrica e petrolífera. Entre os projetos principais está um protocolo de intenções entre as companhias Gazprom e YPF, para exploração e produção de hidrocarbonetos na jazida de Vaca Muerta, na Província de Neuquén, no oeste argentino.

A estatal russa Gazprom domina 18% das reservas de gás do mundo e 72% das russas. Segundo a própria empresa, no fim de 2013, suas reservas seriam de 35,7 trilhões de metros cúbicos de gás. A Argentina enfrenta crise energética que faz com que no inverno algumas indústrias reduzam a produção ou a interrompam para não prejudicar o abastecimento residencial. O governo de Cristina tenta reverter o quadro, que segundo a YPF poderia ser coberto com a exploração de 15% de Vaca Muerta, uma jazida de 30 mil quilômetros quadrados, a segunda do mundo em gás não convencional.

"Temos de manter custos de perfuração baixos e aumentar a produtividade de poços em Vaca Muerta. Não sabemos com que rapidez a podemos explorar", disse em março nos Estados Unidos o presidente da YPF, Miguel Galuccio. O acordo com a Gazprom seria semelhante ao firmado com a americana Chevron.

Na visita, foram assinados mais de 20 convênios. Um deles servirá de base para a construção da sexta central atômica argentina, disse o ministro do Planejamento, Julio de Vido. A Argentina tem três centrais atômicas em funcionamento e outras duas planejadas, uma delas em cooperação com a China. A agência russa de energia atômica Rosatom afirmou em nota que a nova central nuclear contará com uma capacidade de 1.200 MW, e seu diretor, Serguei Kirienko, disse esperar um acordo definitivo para construir a usina até o fim do ano.

"Essa aproximação faz parte de um processo de procurar atores dentro do Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). China e Rússia têm tecnologia que permitirá instalar novas centrais na Argentina", disse ao Estado o chefe da comissão de energia atômica argentina, entre 1999 e 2001, Aldo Ferrer, professor emérito de Economia da Universidade de Buenos Aires. Quanto ao pedido de investimento feito ontem por Cristina a empresários, ele foi mais pessimista. "Não são os empresários russos que vão salvar nossa economia."

Relações comerciais. Segundo a consultoria Abeceb, o comércio entre Argentina e Rússia foi de US$ 2,1 bilhões no ano passado, com saldo negativo de US$ 621 milhões para a Argentina. Para compensar o desequilíbrio, o governo russo mostrou intenção de aumentar as importações do país entre 20% e 30% em um ano.

Putin visitou Buenos Aires em julho de 2014, quando firmou acordos comerciais, militares, de comunicação, energia e cooperação nuclear com fins pacíficos. Na época, ele disse que a Argentina era um dos mais importantes sócios estratégicos russos na América Latina. Moscou quer reforçar seu intercâmbio para superar as sanções comerciais impostas pelos países ocidentais em razão da crise na Ucrânia, que isolou o país após a anexação da Crimeia. Indiretamente, a Argentina foi beneficiada pelas restrições impostas pela Rússia, no último semestre, às importações de alimentos de uma dezena de países.

Em rara entrevista, dada ao canal Rússia Today em espanhol, Cristina afirmou ontem que "ninguém pode reclamar um monopólio da amizade", referindo-se aos questionamentos sobre sua aproximação de Moscou. Também disse ser um absurdo qualificar a Rússia de "ameaça para o mundo". De Putin recebeu solidariedade na questão das Malvinas, cuja soberania disputa com os britânicos. / Com AFP e Reuters

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