Argentina acredita em nova era nas relações com FMI

O governo do presidente Néstor Kirchner está convencido de que se inicia agora uma nova era nas relações da Argentina com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Pelo menos, este foi o balanço feito por fontes da Casa Rosada sobre a visita de dois dias do diretor gerente do Fundo ao país. Horst Köhler despediu-se do presidente, deixando um clima de otimismo do governo sobre a elaboração de um plano econômico direcionado, prioritariamente, ao fortalecimento da economia. Isto significa um novo fôlego diante dos vencimentos da dívida com o organismo de crédito, e de uma visão mais ampla e compreensiva sobre a situação econômica e social da Argentina por parte de Köhler, que tratou o país a "ferro e fogo" desde que a crise começou a aprofundar-se, no último trimestre de 2001.Para os analistas argentinos, o reconhecimento de Horst Köhler de que errou, no passado, com a Argentina, e o contexto internacional propiciam rápidas negociações sobre o novo acordo entre o governo e o FMI. Além da boa vontade demonstrada por Horst Köhler, a situação fiscal e monetária folgada, um contexto internacional favorável e disposição do presidente Néstor Kirchner de chegar a um convênio de médio prazo, são as condições favoráveis para o acordo de três anos, como propôs o chefe do FMI. O ex-secretário de Finanças do governo de Fernando de la Rúa, Daniel Marx, considera que "estão fazendo as coisas certas para chegar a um acordo razoável, incluindo o conhecimento pessoal", referindo-se a Kirchner e Köhler. Ele destaca que as condições atuais são completamente diferentes do que ocorreu em 2002, quando o FMI assumiu posições duras e intransigentes. Para o ex-funcionário do Ministério de Economia, Miguel Bein, "com a economia mundial crescendo muito pouco e as taxas de juros em um piso sem antecedentes nos últimos 50 anos, há um cenário ideal para se apurar um acordo com o FMI e fazer a renegociação da dívida". Ele destaca que se o país esperar mais, a capacidade de negociação vai diminuir. Para o ex-presidente do Banco Hipotecário, Miguel Kiguel, o cenário do país é positivo porque "vem cumprindo bem as políticas monetárias e fiscais, coisa em que o FMI tem fixação, enquanto que a inflação e a cotação do câmbio estão sob controle e o Tesouro não tem sido financiado". O único problema destacado pelo economista diz respeito às reformas estruturais, as quais enfrentam maiores dificuldades devido ao período eleitoral e às resistências, por causa dos interesses corporativistas. Porém, lembra que Horst Köhler deixou o país ontem à noite com a mensagem de que compreende estas dificuldades, o que é traduzido por um tempo de espera para prepará-las. "As reformas vão estar presentes. São de difícil implementação mas necessárias e países como Brasil estão fazendo", afirmou Kiguel. O eventual acordo de três anos, como Horst Köhler anunciou, ontem, que se tentaria negociar com o governo, incluiria a reestruturação dos serviços da dívida que o país tem com o organismo de crédito durante o prazo de vigência do mesmo, segundo fontes do Ministério de Economia. A prorrogação dos vencimentos seria da ordem de US$ 13,5 bilhões de dólares, entre setembro de 2003 a setembro de 2006, o que daria um oxigêneo importante nas contas da administração pública federal. O Banco Central preservaria suas reservas atuais de US$ 11,6 bilhões de dólares ao não ter que pagar os vencimentos de capital e de juros da dívida com o FMI que, de setembro até dezembro próximos chegam à US$ 4,2 bilhões de dólares. A este montante se agregaria a dívida, no mesmo período, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), de US$ 964 milhões, e com o Banco Mundial (Bird), de US$ 1 bilhão de dólares. A equipe econômica acredita que se o acordo com o FMI for fechado, o BID e o Bird também fariam a postergação de seus vencimentos.Como adiantou o ministro de Economia, Roberto Lavagna, na entrevista de ontem no final da tarde, as negociações terão início nas próximas semanas.

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