Argentina acusa economistas pela crise

Para ministro do governo Cristina Kirchner, muitos são ‘agentes encobertos de empresários e dirigentes políticos’ e conspiram contra o país

Marina Guimarães, correspondente,

04 de fevereiro de 2014 | 21h59

BUENOS AIRES - Depois de acusar empresários e alguns setores da imprensa de especular e conspirar contra os interesses da Argentina, agora o governo da presidente Cristina Kirchner diz que os vilões do país são os economistas.

Segundo o chefe de Gabinete de Ministros, Jorge Capitanich, "muitos economistas que falam em muitos meios de comunicação são agentes encobertos de empresários e dirigentes políticos que não se atrevem a mostrar a cara".

Em sua já tradicional entrevista diária à imprensa, o ministro disse que "é preciso buscar os responsáveis pelos aumentos de preços, os empresários inescrupulosos". A grande reclamação da população é com o preço da carne, principal alimento na mesa do consumidor nacional, que subiu entre 15% e 20% em apenas uma semana.

"É bom que o povo argentino seja aliado do governo para combater os empresários que remarcam os preços sem motivos. Essa é uma luta diária", disse ele. O ministro afirmou que "há um conjunto de especuladores" aumentando os preços.

"Necessitamos combater a especulação dos industriais, fornecedores e comerciantes que abusam da população." Em 6 de janeiro o governo deu início a um novo plano de congelamento para tentar ganhar a corrida contra a inflação. Desde dezembro, segundo levantamento das consultorias privadas, a inflação tem ficado acima de 4% ao mês. Em 2013, a alta acumulou mais de 28%, conforme o Índice Congresso, elaborado por sete consultorias privadas.

O congelamento foi feito com preços já corrigidos em dezembro. Mas a grande disparada das remarcações ocorreu depois da semana de 20 a 24 de janeiro, quando o peso sofreu desvalorização de 17,17%. Em todo o mês, o dólar aumentou 23%. Na semana passada, o ministro anunciou multas para 31 estabelecimentos comerciais. Nesta terça-feira, 4, a crise foi com a Shell, que elevou o preço de seus combustíveis em 12%.

O diretor-presidente da companhia, Juan José Araguren, também foi acusado por Capitanich de "conspirar contra os interesses do país". Aranguren considerou a palavra "forte demais" e justificou que o reajuste foi um repasse parcial dos aumentos de 23% nos custos.

A verdade é que o governo não tem conseguido controlar os preços - nem os supostamente congelados nem os demais. A desvalorização da moeda provocou uma corrida de preços e de reivindicações salariais.

Comércio exterior. Depois de multar estabelecimentos comerciais por elevar preços, o governo informou que deu início a "um processo de investigação exaustivo sobre as empresas de comércio exterior" por não internalizar a receita de exportação. Segundo Capitanich, as empresas teriam ocultado uma receita de US$ 6,8 bilhões.

"Trata-se de companhias de mineração, cereais, alimentos, automóveis e petrolíferas, que, segundo os registros do BC, exportaram e não registraram a entrada das divisas correspondentes", disse o ministro na coletiva. Segundo ele, "a manobra preocupa o governo porque não é um volume menor".

O ministro se reuniu ontem com o setor exportador e ficou estabelecido um mecanismo de planejamento para internalizar as divisas obtidas pelas vendas externas, "estimadas em um total de US$ 27 bilhões". Na reunião com os empresários "que representam entre 37% a 50% de todas as exportações" do país, segundo Capitanich, houve uma conversa "com muita franqueza". Na sexta-feira, o governo também havia determinado às importadoras que busquem financiamento para suas compras no exterior.

O governo luta para estancar a sangria das reservas. Conforme os últimos números disponíveis do BC, relativos à sexta-feira e divulgados ontem, as reservas totalizavam US$ 28,003 bilhões. O valor é 8,44% inferior à marca verificada em 31 de dezembro, de US$ 30,586 bilhões. Desde 28 de outubro de 2011, início dos controles cambiais na Argentina, o BC perdeu US$ 18,015 bilhões de suas reservas.

Na semana passada, o governo flexibilizou os controles e passou a permitir a compra limitada de dólares para poupar. O canal permitiu a compra de quase US$ 100 milhões até o momento, conforme dados da Administração Federal de Rendas Públicas (Afip), equivalente à Receita Federal.

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