Argentina ameaça produtores de cevada; busca elevar safra de trigo

A Argentina pressiona para que produtores plantem mais trigo, com a ameaça de adotar limites para as exportações crescentes de cevada, que virou a alternativa para aqueles que buscavam contornar os obstáculos aos embarques do cereal, disseram fontes da indústria.

Reuters

08 de março de 2013 | 18h20

Com uma inflação estimada em cerca de 30 por cento neste ano por economistas e face à crescente demanda mundial por alimentos, a Argentina, um dos maiores exportadores mundiais de grãos, restringe as exportações de trigo e milho para garantir o abastecimento interno.

Mas os produtores dizem que as políticas intervencionistas prejudicam suas margens de lucro e, por isso, voltaram-se para o plantio de cevada, cuja exportação não enfrenta controle do governo.

Enquanto o cultivo da cevada na Argentina vem subindo, a safra de trigo nesta temporada deve ser de apenas 9,4 milhões de toneladas, bem abaixo das 14,1 milhões de toneladas de 2011/12.

O secretário de Comércio Interior da Argentina, Guillermo Moreno, temido no setor privado por ser o principal encarregado para garantir a execução das políticas intervencionistas, disse esta semana aos exportadores que um aumento maior na área de cevada em detrimento do trigo não seria tolerado.

"Ele disse que, se os produtores continuarem a produzir a cevada em vez de trigo, vai aumentar os impostos sobre a exportação de cevada e também restringir as exportações", disse à Reuters uma fonte da indústria que participou de reunião na noite de quarta-feira.

"É uma ameaça. Se o plantio de trigo continuar caindo, segue atrás de uma cultura substituta, qualquer que seja", acrescentou a fonte, falando sob condição de anonimato. "Mas o verdadeiro problema é o modelo político, porque quanto mais intervenção tiver no mercado de trigo, menos hectares os produtores vão plantar", disse ele.

Esta versão foi confirmada por um outro líder da indústria que também estava na reunião. Nem Moreno nem os líderes com quem negocia falam publicamente sobre suas discussões.

TRIGO

Argentina precisa de cerca de 6 milhões de toneladas de trigo por ano para consumo doméstico. O governo aprovou a exportação de 3 milhões de toneladas do cereal no ciclo 2012/13, que é menor do que o inicialmente esperado, pois a cultura foi duramente atingida pelo mau tempo.

A maior parte das exportações argentinas de trigo segue para o Brasil e África do Norte. Com 3,48 milhões de hectares, a área cultivada com o cereal em 2012/13 no país foi a menor nos 44 anos de registros do governo.

Já a produção de cevada subiu para cerca de 5 milhões de toneladas, divididas igualmente entre a cervejeira e a variedade que é utilizada para alimentar animais.

A colheita foi inferior a 800 mil toneladas em 2005/06, antes do governo de restringir as exportações de trigo.

Quase toda a cevada da Argentina é enviada para fora. O Brasil é o maior cliente da cevada para a produção de cerveja, enquanto a forrageira vai para a Arábia Saudita, principalmente para alimentar os camelos.

O Brasil também é o maior cliente do trigo argentino, mas neste ano tem tido que recorrer ao cereal do hemisfério norte para complementar suas necessidades, após a redução na colheita no país vizinho.

O governo argentino impõe um imposto de 20 por cento na exportação de cevada, um grão considerado secundário na Argentina, abaixo dos 23 por cento que se aplica ao trigo e 35 por cento aplicado na soja.

Os agricultores dizem que os limites sobre as exportações de trigo dificultam o planejamento e reduzem a competitividade do cereal.

"Se o governo continua a insistir com cotas de exportação arbitrárias, eles não serão capazes de chegar a mais de 5 milhões de hectares plantados com trigo antes de começarem as intervenções, em 2007", disse David Hughes, um produtor que administra terra no província de Buenos Aires.

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