AP Photo/Victor R. Caivano
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Argentina amplia ‘tarifaço’ a partir de abril

Água, gás e transporte terão reajuste de até 500%; moradores de Buenos Aires serão os mais atingidos

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2016 | 08h21

BUENOS AIRES - Depois de receber contas de luz com aumentos de até seis vezes em março, argentinos acostumados aos subsídios dos 12 anos de kirchnerismo enfrentarão um novo tarifaço em abril. Água, gás e transporte público sofrerão reajustes de até 500%, em um pacote que atingirá principalmente moradores de Buenos Aires e região metropolitana.

A série de anúncios de reajuste está prevista para começar amanhã e terminar ainda no primeiro semestre. A decisão de concentrar os aumentos no início do mandato de Mauricio Macri, mesmo em meio a protestos contra uma inflação estimada em 33,9% nos 12 últimos meses, faz parte da promessa do governo de controlar os preços no segundo semestre. A repactuação dos salários com sindicatos depende da meta de manter o índice em 25% anual, o que até economistas ligados ao governo consideram difícil.

Com o corte de parte dos subsídios, o reajuste na água vai variar entre 300% e 500%. O gás subirá 124% para os consumidores residenciais, mas esperam-se alterações de 300%. A passagem de ônibus da capital argentina passará de 3,50 pesos (R$ 0,86) para 6 pesos (R$ 1,25) em média (o valor exato depende da distância) e a de trens metropolitanos saltará de 2 pesos (R$ 0,50) para 5 pesos (R$ 1,25).

Embora o transporte público seja o segmento com maior defasagem em comparação com o cobrado em outras capitais do continente, a alteração de suas tarifas é a que deve atingir mais a faixa mais pobre da população e causar maior resistência. Macri tem apresentado leve e constante queda de popularidade desde que assumiu em dezembro. Sua aprovação, segundo três dos principais institutos de pesquisa, está entre 50% e 60%.

“A inflação tem aumentado a insatisfação dos que já eram contrários a Macri, por isso sua aprovação segue alta. A classe média que o apoiou deixou de sair para jantar, comprar roupa, mas não foi atingida no básico. Entre os mais pobres sim, há uma insatisfação crescente porque o acesso à comida está mais difícil. E quando o aumento tocar o transporte, pode-se esperar tensão social séria”, disse ao Estado o cientista político e consultor Raúl Aragón.

A meta do governo é reduzir o impacto dos subsídios sobre o déficit fiscal estimado em 7% do PIB. Conforme o Centro de Implementação de Políticas Públicas para a Equidade e o Crescimento (CIPPEC), o impacto das ajudas passou de 1,4% do PIB em 2006 para 4,8% em 2015.

O governo argumenta que é insustentável manter o sistema implementado por Cristina Kirchner, mas as críticas pela falta de gradualismo provocaram problemas dentro da própria coalizão de centro-direita que levou Macri ao poder. A deputada Eliza Carrió, considerada uma das mentoras da aliança que tirou o peronismo da Casa Rosada, desabafou pelo Twitter, razão pela qual foi chamada ontem por Macri para uma conversa particular na residência oficial de Olivos. “É verdade que é preciso sair dos subsídios, mas não dessa forma, sem pensar na sociedade. Não concordo com reajustes brutais de água, gás e transporte em meio a uma inflação tão alta, não podemos afogar a sociedade”, tuitou a deputada, conhecida por denunciar corrupção no governo kirchnerista. Macri afirmou em entrevista ao canal TN ontem à noite que a “adequação” é necessária para garantir energia, água e gás de forma regular. “Hoje não podemos garantir o abastecimento básico o serviço era quase grátis”, justificou.

Conforme o CIPPEC, a inflação defasou o valor do transporte. O preço real da passagem caiu 30% entre 2003 e o ano passado. “Pode parecer barato, mas para um trabalhador que precisa pegar dois ônibus e um trem para chegar em casa é muito no fim do mês”, reclamou o pedreiro Alfonso Chinche, que ganha o equivalente a R$ 2,4 mil por mês e vive numa favela da zona sul de Buenos Aires.

 

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