Joshua Roberts/Reuters
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Argentina antecipa pagamento da dívida para conter "especulações"

Disputa. De acordo com o governo de Cristina Kirchner, os fundos abutres estariam espalhando boatos de que o país não tem condições de quitar papéis que vencem em 2015; por isso, a Argentina anunciou que vai antecipar o pagamento para a semana que vem

ARIEL PALACIOS / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2014 | 02h04

O ministro da Economia, Axel Kicillof, anunciou ontem que o governo da presidente Cristina Kirchner, com o objetivo de "acabar com todas as especulações" sobre um eventual novo "calote" argentino, fará um pagamento "antecipado e voluntário" dos títulos Boden 2015 da dívida pública. Segundo Kicillof, os fundos abutre (denominação aplicada aos credores que não aderiram às reestruturações da dívida feitas pelo governo Kirchner em 2005 e 2010) estão gerando rumores negativos sobre a capacidade de pagamento da Argentina no ano que vem.

Kicillof anunciou que os donos dos títulos poderão receber o pagamento na próxima semana. "Aqueles que tiverem os Boden 2015 nas mãos poderão vir entre os dias 10 e 12 de dezembro para que o governo lhes pague um preço similar aos que esses títulos possuem nos mercados: a Argentina paga e tem os recursos para isso", disse.

Pelo vencimento dos Boden 2015 - entre capital e juros - a Argentina teria que pagar em outubro do ano que vem um total de US$ 6,7 bilhões. Para isso teria que recorrer aos cofres do Banco Central, entidade cujas reservas encolheram de US$ 52 bilhões em 2011 para os atuais US$ 28,89 bilhões.

No entanto, vender os Boden 2015 implicará em um desconto por parte da Casa Rosada. Segundo o ministro, para cada US$ 100 de valor nominal, o governo pagará US$ 97. Os credores que optarem pelo prazo de pagamento original, em outubro, receberão US$ 107 para cada US$ 100.

Kicillof sustentou que "são bônus que vencem em outubro de 2015. Isto é para demonstrar que temos capacidade e vontade de pagamento. A Argentina, ao contrário do que dizem por aí, não está fora dos mercados. Os bancos de investimento querem comprar bônus da Argentina", disse Kicillof.

O governo Kirchner também anunciou que emitirá US$ 3,25 bilhões em títulos Bonar 24. Kicillof disse que os credores terão a alternativa a de trocar o Boden 2015 pela Bonar 24, que possui juros de 8,75% em dólares. Este bônus amortiza o capital entre 2019 e 2024. O plano do governo é conseguir o maior número de adesões, de forma a aliviar os pesados pagamentos relativos ao Boden 2015.

Pagamentos. No ano que vem, o governo Kirchner terá de fazer uma série de pagamentos. Deve saldar débitos com o Clube de Paris, pela dívida que ficou em estado de calote entre 2001 e 2013, com a empresa espanhola Repsol, pela indenização relativa ao confisco da petrolífera YPF, com o Centro Internacional de Arbitragem sobre Diferendos em Investimentos (Ciadi). No total, o Estado argentino deverá pagar US$ 13,8 bilhões, o equivalente a 47% das reservas atuais do BC.

A Argentina entrou em estado de calote parcial no dia 30 de julho, quando - por impedimento do juiz federal de Manhattan, Thomas Griesa - não conseguiu entregar os US$ 539 milhões relativos ao pagamento dos juros dos títulos dos credores reestruturados que possuem jurisdição nos Estados Unidos. Griesa havia determinado que, na hipótese de a Argentina não pagar o US$ 1,33 bilhão que os fundos abutres exigiam não poderia pagar os demais credores nos Estados Unidos. Em setembro o Parlamento argentino aprovou a lei mudou o lugar dos pagamentos dos bônus de Nova York para Buenos Aires, onde estariam sob a garantia da lei argentina. No entanto, o governo não seduziu os credores com a proposta, que terminou em fracasso.

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